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Matadores de Velhinha... over and over again
Por Maria Luiza Porto — Quarta, 21 de julho de 2004
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Assisti ao novo filme dos irmãos Coen, Matadores de Velhinha, nesse último domingo chuvoso. Infelizmente. Tirando o lanche delicioso que fiz antes do cinema, confesso que a minha saída dominical com finalidade de espantar o tédio mortal que me consumia em casa não fora lá muito bem sucedida.
Nos dez primeiros minutos do filme comecei a sentir saudades do meu sofá, do meu cobertor, do meu pijama velho e, quem diria, do Fantástico. Torcia, inconscientemente, para que a Mrs. Munson (Irma P. Hall) do filme se transformasse em Glória Maria e começasse a discursar sobre os cavalos-marinhos hermafroditas. Não poderia ser pior do que aquilo. Aliás, salvo a piada injusta, Mrs. Munson é a única coisa boa e verossímil do filme.
Admito que adormeci em algumas partes, mas isso, ao contrário da opinião geral, só me fez ser um pouco mais condescendente em relação à sua crítica, pois o cochilo suavizou a experiência torturante que é a de se ver uma película ruim. Tom Hanks destruiu toda a minha teoria de que ele era capaz de interpretar bem qualquer papel que fosse. Depois de sua caricata performance como o Professor G.H. Dorr, tornei-me parte integrante da corrente que afirma que, depois de Forrest Gump, Tom foi só ladeira abaixo.
O filme é um amontoado de clichês (e não tem desculpas por ser um remake) que possui aquela mesma estrutura de formação de gangue-de-filme-de-comédia-que-planeja-assalto-em-banco: tem o gênio manda-chuva, o fortão mongolóide, o japa enigmático... over and over again. Acho que decidi abolir filmes de comédia americanos por detestar pastelão e escatologia, o que abrange 70% da temática de suas piadas. É a forma mais óbvia de fazer humor e a mais sem graça também.
Sempre relutei contra a resistência ao cinema norte-americano por achar essa atitude esnobe demais. Não achava que uma laranja podre poderia contaminar todo o saco, mas, atualmente, parece que há uma safra de sementes mal plantadas na indústria cinematográfica ianque. Talvez o retorno financeiro fácil desestimule as idéias e deixe os neurônios folgados demais.
Nunca fui a favor do pensamento "glauberiano" de que cinema bom é aquele que espreme leite de pedra, só basta "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça". Gosto de filme bem feito, se é pra ver vídeo caseiro, fico com Hermes e Renato.
Considero a segmentação uma ignorância - não devemos nos poupar e sim tentar absorver tudo o que chega até nós, como já dizia Nietzsche -, ainda mais em relação à arte que dialoga diretamente com a alma. Essa onda de anti-americanismo tá na moda, mas não acho que seja à toa; acho que cansamos de ver o mundo por esse olhar ditatorial, pelo menos eu.
Não digo que irei cortar os made in USA do meu cardápio, apenas selecionarei melhor sua oferta de insumos. Estou certa de que os R$ 7,50 que desembolsei para assistir a Matadores de Velhinha me seriam muito mais bem empregados naquele delicious milkshake de chocolate em que fiquei de olho durante todo o lanche anterior. Aderir a uma causa é complicado, ainda mais quando o inimigo sabe bater leite com sorvete como ninguém. ¤
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