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Nós vimos II: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
Por Pedro Moura — Terça, 20 de julho de 2004
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Quero Ser Charlie Kaufman
Incensado, inusitado, desconcertante... e romântico
Charlie Kaufman se tornou um dos mais insensatos roteiristas do cinema norte-americano após o sucesso de Quero Ser John Malkovich (1999). Seu gosto pelo inusitado, aliado a uma narrativa desconcertante, vem se mostrando uma fórmula de notória eficiência e que mais uma vez se repete em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças ( Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004). O que muita gente não percebe é que, travestidos de excentricidade, malabarismos de raciocínio e voltas em torno do mesmo círculo, seus roteiros são bonitas histórias de amor. Esse seu último lançamento não é diferente.
Joel Barish (Jim Carrey) é um cidadão médio, introvertido, que vê sua vida se transformar pelo seu romance com Clementine (Kate Winslet), uma mulher que leva sua vida pela espontaneidade das emoções. Só que, após o sumiço inexplicável de Clementine, Joel resolve apagá-la de sua memória de vez, recorrendo a métodos nada ortodoxos para isso.
Jim Carrey deixa sua marca no papel do amante abandonado, comprovando sua versatilidade já mostrada em filmes como O Show de Truman (1998) e Cine Majestic (2001), dessa vez, por incrível que pareça, economizando nas caretas. E é divertido ver a donzela Kate Winslet no papel de uma punk libertina; tomara que tenha aprendido como se faz cinema de verdade, e não entre mais em canoas furadas. Já Elijah Wood, fadado a ser o eterno Frodo, se limita a uma participação pontual como um gnomo muito mais malandro e fanfarrão do que o mártir do anel, cuja personalidade se aproxima muito mais de seu tio Bilbo Bolseiro.
O que se encontra no filme é mais um roteiro com viradas mirabolantes, no melhor estilo do realismo fantástico que vem marcando a obra de Kaufman, que poderia ser entendido como uma forma contemporânea de se fazer cinema surrealista; uma viagem rumo à psique humana, cheia de jogos mentais que desafiam mesmo os espectadores mais experienciados. Charlie Kaufman toma para si o papel de mensageiro dos derrotados deste novo século, tendo a vida de um homem frustrado e anti-social como centro da trama – exatamente como ele próprio se retratou em Adaptação (2002). A edição é impecável e só reforça o nonsense do roteiro. Aliás, vale registrar que a melhor forma de se ver os seus filmes é não ler nenhuma resenha; acaba sendo mais divertido chegar desarmado no cinema e se deixar levar pelas surpresas do roteiro.
Foi com a certeza de mais uma grande obra que o novo filme de Kaufman foi recebido, mas, dessa vez, o tema central – acredite - é o amor que supera a própria vontade de não amar. Ao contrário das gargalhadas por parte dos espectadores mais sofisticados, esse filme promete arrancar lágrimas contidas, especialmente para quem já teve um grande amor. E quem não teve? Assista o mais rápido que puder: é simplesmente imperdível. ¤
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