 |
Nós lemos: A Liga Extraordinária - Volume II
Por Rodrigo Seabra — Terça, 20 de julho de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
A Devir acaba de lançar no Brasil, em edição encadernada, o segundo volume de A Liga Extraordinária, com argumento do gênio Alan Moore e mais uma vez com desenhos de Kevin O'Neill. O livro não é encontrado nas bancas convencionais, apenas em lojas com seções especializadas em quadrinhos ou conveniadas com a editora (veja a capa nacional ao lado).
Sobre a publicação, em primeiro lugar, assino embaixo do que nosso colega Rafael Lima escreveu em outubro do ano passado sobre The League of Extraordinary Gentlemen, quando a série foi concluída lá fora. Toda a sua crítica é bastante pertinente e reescrevê-la aqui seria perda de tempo.
Entretanto, a edição brasileira pede uma apreciação própria, mesmo que para isso colaborem algumas redundâncias. O preço de R$ 49,00, por exemplo, é um tanto abusivo. Diversos erros de português ("A Inglaterra têm" ou "extender", entre muitos outros, em especial na parte em prosa) e de digitação denunciam o cuidado duvidoso com que o texto e a tradução foram tratados.
É interessante notar, em tempos de DVDs recheados, como a obra vem cheia de atrações à parte, os chamados "extras", em sua maioria curiosos e nada úteis. Além do jogo de tabuleiro da Liga Extraordinária, sempre repleto de referências, temos as capas das edições americanas, uma galeria reinterpretando os personagens e algumas ilustrações de página inteira, entre outros. O mais interessante é o Almanaque do Novo Viajante, compêndio de mais de 40 páginas em prosa reunindo dicas e informações que teriam sido conseguidas pela personagem Mina Murray a respeito de grupos de agentes que existiram antes da Liga Extraordinária que conhecemos.
Na história, é de se esperar, claro, que se mantenha a miríade de referências estruturais, visuais e literais a personagens e obras do século XIX, como no primeiro volume. Aliás, assim como na edição anterior, elas são muitas vezes um tanto sutis e percebidas apenas pelos mais antenados.
A trama, podemos dizer, demora um pouco a engrenar, mas fica bastante instigante depois de certo ponto, em especial depois do tedioso primeiro capítulo. Fica patente por toda a edição que Alan Moore teve algum problema para elaborar um roteiro tão bom quanto o do primeiro volume, seja devido a prazos ou mesmo a alguma preguiça - e o primeiro capítulo deste segundo volume é especialmente um exemplo do último caso. Nele, os diálogos inteligíveis quase não existem e a ação é um tanto repetitiva.
Ainda que não alcance o sucesso do primeiro volume, em que a história interessantíssima e coesa ao extremo mantinha a atenção todo o tempo, o desenrolar dos fatos no segundo volume é tremendamente mais chocante do que o visto até aqui. Prepare-se para revelações, soluções e desenvolvimentos de situações-chave a respeito de muitos aspectos apenas sugeridos no primeiro volume.
Nessa perspectiva, Moore deixou-se levar um tanto pelo apelativo em muitas passagens. Há trechos que poderiam ser apenas sugeridos, muitas vezes até mesmo por algum jogo de palavras mais bem elaborado, mas que foram mostrados graficamente sem necessidade. Entretanto, fica de certa forma claro que o autor divertiu-se ao descrever a cena daquela forma para o desenhista O'Neill, o que explica, mas não justifica, o uso do apelo fácil.
Há exemplos óbvios que o leitor pode encontrar no mero folhear da revista, mas outros traços desse aspecto apelativo da história poderiam ser citados aqui. Fiquemos com o mais chamativo: Edward Hyde praticamente toma o lugar do Dr. Jekyll durante toda a trama, e desconfiamos de que isso se dá pelo fato de Hyde ser muito mais atraente ao leitor comum do que o personagem do médico, mais psicológico.
Além dessas questões no argumento, também os desenhos de Kevin O'Neill perderam muito no segundo volume. Muitas vezes, eram sutilmente hilários no primeiro (veja em especial os olhos dos personagens), mas aqui, no segundo, ficaram calcados demais no compasso da história e, portanto, mais dramáticos e sérios. É certo que faltou alguma imaginação (ou quem sabe mais tempo) ao ilustrador.
Só pra lembrar, a história - você, a essas alturas, já deve ter lido o link acima, para o texto do Rafael - trata agora da Liga enfrentando uma invasão de marcianos dominadores e de como a Inglaterra vitoriana reagiria a isso. Os marcianos, naturalmente, são também uma referência literária, agora ao livro A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, tanto antes como hoje uma visão metafórica do imperialismo. No desenrolar dessa invasão, todo o resto acontece: o desenvolvimento psicológico dos personagens, as intrigas, a solução de alguns ganchos deixados no primeiro volume e mesmo algumas conclusões. Em se tratando de quadrinhos e da genialidade de Moore, não podemos julgar nada ali como definitivo...
No geral, pode-se dizer, sem qualquer dúvida, que faltou muito mais ação nessa continuação. Mesmo a solução da trama é bastante simplista e muito mais sugerida do que exposta - nela, Moore inverteu o raciocínio do decorrer da história, que antes estava apelativa e gráfica demais, e, na hora de privilegiar a ação, torna-a sutil a ponto de não ser desenhada, mas só referida textualmente. Isso sem dizer que, nos tempos em que vivemos, a tal solução é até um pouco óbvia quanto mais chega-se ao fim da história.
É uma obra ruim? Absolutamente não, de forma alguma. Apenas fica claro que a menor inspiração nos desenhos de O'Neill e a dificuldade, por qualquer razão, de Moore em elaborar uma história mais sólida - e não apenas um amontoado de citações bem encadeadas - tornam o volume muito inferior ao primeiro. E ainda assim vale a compra, mas não tanto o preço pedido pela editora. ¤
|
 |