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Como eram gostosos nossos quadrinhos
Por Rafael Lima — Quinta, 15 de julho de 2004
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Duas novas revistas apareceram em 1954, ambas editadas por cartunistas. A primeira, rapidamente alcançou sucesso de vendas; de certa forma, uma vitória de Pirro, porque este sucesso nunca mais seria igualado pelo editor. A segunda, demorou um pouco mais a chegar lá; só que, quando o fez, soterrou completamente os sonhos de cartunista do editor, pois ele largou o pincel para se tornar um dos maiores magnatas de seu país. A Mad de Harvey Kurtzman. A Playboy de Hugh Hefner. O que essas revistas têm em comum? Por causa da primeira, iniciou-se uma extensa troca de cartas entre Hefner e Kurtzman, que culminaria na criação da personagem Little Annie Fanny, agora lançada, pela primeira vez no Brasil, em cuidadosa edição da editora Abril. Mais do que isso: a Hefner pode-se creditar o salvamento da carreira de Kurtzman.
A idéia original de Kurtzman para a Mad era uma revista com seções humorísticas, exatamente como a conhecemos hoje – não uma revista em quadrinhos convencional, com histórias curtas, tal como queria seu editor, Will Gaines, que prevaleceu. Kurtzman escrevia todos os roteiros das histórias e criou sátiras inesquecíveis tanto para nomes da cultura pop como para clássicos: Tarzan, Batman, Superman, Marlon Brando, O Corvo de Edgar Allan Poe, Lone Ranger, os beatnicks, A Ilha do Tesouro – todo mundo entrava na roda. Ilustravam as histórias os mesmos artistas da EC Comics: Jack Davis, Will Elder, Wally Wood, John Severin, até o próprio Harvey. Depois de alguns desentendimentos editoriais, Harvey acabou caindo fora da editora e zanzou um pouco, enquanto não bolava um projeto de longo prazo. Não conseguia se estabilizar porque estava claramente pensando à frente de seu tempo.
Jungle Book é o melhor cartão de visita desta época: uma graphic novel avant-la-lettre publicada por uma editora de livros com histórias curtas de humor adulto, algo que nem Jules Feiffer tinha feito até então. A grande novidade em Jungle Book é a invenção do personagem Goodman Beaver, na linha do dr. Pangloss, de Voltaire, ou do Jeremias o Bom, de Ziraldo: alguém que só vê o bem e só quer fazer o bem e cuja inocência acaba metendo-o em enrascadas. Este mesmo perfil psicológico foi emulado quando Hefner convidou-o para criar uma história curta para cada edição da Playboy. Só que agora, com um personagem feminino: Little Annie Fanny.
O mero nome já dá a idéia da miríade de referências culturais que se cruzariam: Little Orfan Annie é o nome de uma antiga personagem de quadrinhos de Harold Gray, conhecida por causa dos olhos redondos desenhados sem pupilas, sempre protegida pelo milionário da indústria bélica “Daddy” Warbucks. Fanny Hill é o título da novela erótica talvez mais publicada em todo o mundo.
Nos quadrinhos, ao invés de “Daddy” Warbucks, tínhamos o milionário protetor Sugardaddy Bigbucks e, assim como nas histórias da pequena órfã Annie, a tônica girava em torno das enrascadas em que ela se metia – por outros motivos, no caso de Annie Fanny, compreensíveis ao exame de sua figura, uma mistura de Marilyn Monroe com Jane Mansfield, com traços de Briggite Bardot, Sophia Loren e outras musas dos anos 60. Se o argumento seguia sempre o mesmo formato, Kurtzman viajava nos roteiros, onde comia solta a crítica de costumes e o comentário social ao seu tempo: modismos da sociedade de consumo, tendências de comportamento, a competição politica, cultura middle brow e personalidades da ocasião são enfocadas e prontamente ridicularizadas ao serem retratados como coadjuvantes, numa falta de respeito que não havia desde os tempos da Mad – porque os artistas, os mesmos parceiros de crime, se encarregavam de entupir os fundos com piadas visuais, gags, referências ocultas, tal como nos tempos da EC, escapando por pouco da cacofonia visual. Sem o guia de referências presente ao final da revista, é impossível acompanhar todas essas piadas, mesmo para quem tem menos de 60 anos e excelente memória para besteiras.
O que não quer dizer que Harvey tenha feito um inventário dos anos 60; apenas, que as sátiras a programas de televisão, políticos e eventos norte-americanos (a mania do surf, o mundo das agências de publicidade, a conversão de negros ao islamismo, a crise dos mísseis cubana) nem sempre estavam no centro do mundo ocidental. Para ficar num exemplo simples, há uma história curta em que Annie sofre um sequestro rápido num trem do metrô e termina reclamando que ninguém interferira – uma crítica clara ao assassinato de Kitty Genovese, crime que chocou a opinião pública citado por Alan Moore em Watchmen. Por conseguir inserir esse tipo de crítica social em meio a um quadrinho burlesco de uma revista de entretenimento, por ter sido o pai espiritual de toda a geração do underground, Harvey ocupa lugar no degrau mais alto do panteão dos grandes criadores dos quadrinhos, mesmo que seu nome não seja tão conhecido como Eisner ou Caniff.
Visualmente, Little Annie Fanny é tão deslumbrante que algo graficamente comparável só seria feito mais de 10 anos depois, na Heavy Metal. As páginas coloridas de quadrinhos de Little Annie Fanny foram, em sua categoria, as primeiras publicadas em uma revista norte-americana no século XX, e atribua-se esse mérito a Hugh Hefner, que bancou a arte totalmente pintada (e correu atrás de uma impressão decente) para a personagem, ao invés de escolher a arte-final a nanquim, sugerida por Kurtzman. Cada história detalhadamente decupada por Kurtzman seria deslumbrantemente pintada por Will Elder, Jack Davis, Wally Wood, e dois futuros gênios da ilustração, Frank Frazzetta e Russ Heath, além do homem das dobradinhas, Al Jafee. Visualmente, Annie Fanny é tudo o que video-clips ou filme que se inspiram na estética dos anos 60, como Austin Powers, sempre quiseram ser.
Depois da reedição das histórias de Carl Barks para o Pato Donald, essa improbabilíssima edição de Aninha Bonita e Gostosa. Quem pensou que o setor de quadrinhos da Abril tinha ido pro saco ao perder Marvel e DC está quebrando a cara...
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