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Cazuza: Pra quem não sabe amar...
Por Maria Luiza Porto — Quarta, 14 de julho de 2004
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Decidi que iria falar do filme Cazuza depois que passasse todo o “bafafá” em torno dele. Não poderia deixar de escrever, nem que fosse uma linha, nem que fosse um testamento. Cazuza sempre esteve presente na minha vida, suas músicas já embalaram muitos pensamentos enamorados, aliás, sempre quando penso em amor, penso em Cazuza, mas isso já é outra história. Eu gostei muito do filme, porque ele fez acender várias lampadazinhas na minha cabeça, mas, ao mesmo tempo, muitas se apagaram por falta de um fio condutor. Como nasci da década de 80, a imagem que tinha mais presente de Cazuza já era a de sua fase terminal. Lembro de ter visto, logo após sua morte, a banca de revista da esquina de minha casa tomada de fotos e posters de Cazuza de cabelos enrolados e bochechas carnudas. Aquilo me deixou angustiada por alguns dias, pois, para mim, a figura desse cantante era aquela esquálida e disforme.
O filme deixou algumas lacunas no preenchimento de minha curiosidade. Queria ter conhecido mais sobre o processo subjetivo que transformou Cazuza no porta voz da década de 80, minha década do coração, com suas letras ácidas, satíricas e deliciosamente politizadas. Cazuza não tinha o tédio dos militantes; ele era intenso, amoral e envolvente. Mas não acredito que saísse pelas ruas saltitando e declamando poesias, nem mesmo depois de matar uma garrafa inteira de whiskie. Também acho que para haver poesia é preciso um pouco de dor, alienados-fanfarrões-filhinhos-de-papai não sofrem e nem escrevem letras iguais à Brasil. Faltou um motivo.
Essa pulga atrás da orelha me fez ir, depois do cinema, até a livraria mais próxima procurar sua biografia, mas fiquei muito desconfiada em relação a uma biografia escrita pela mãe. Imagino que a minha começaria assim: “Maria Luiza era a menina mais bonita e inteligente do mundo...”, mesmo que não seja esse o caso do livro, não comprei, preferi um velho e bom Veríssimo. Mas Cazuza continuou, e continua vagando, por muito tempo a minha mente (Daniel de Oliveira também, que gatinho hein...) por essa naturalidade fluída de fazer arte. Sei que sou totalmente imparcial por ser demais nostálgica e por lamentar todo dia o excesso de mofo na cena musical brasileira.
Me dá a ligeira impressão de que hoje em dia as pessoas tentam demais. Esse pensamento de que tudo já foi dito e feito parece criar um certo terror nos artistas, que tentam cravar uma estaca no peito ao invés de cutucar a ferida. Por isso, que sou fã mesmo de carteirinha de Cazuza, não sei quanto à pessoa, mas sim, quanto ao poeta, pela sua autenticidade, pelo humor visceral e pelo seu amor desinteressado pela vida. Como Kerouac já dizia: “(...) pra mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo e que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifícios explodindo como constelações (...)”. É uma pena que os deuses sejam vaidosos demais e nunca deixem ninguém brilhar por muito tempo.
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