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Quadrinhos de guerrilha
Por Rafael Lima — Quarta, 7 de julho de 2004
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Para que serve uma história em quadrinhos? Para diversão, entretenimento, escapismo? Para Joe Sacco, história em quadrinhos serve para defender jornalisticamente um ponto de vista político. É essencialmente o que ele fez em Palestina, uma Nação Ocupada, álbum publicado originalmente em 1994 e lançado no Brasil pela editora Conrad.
Palestina, antes de mais nada, é uma prova cabal do poder comunicativo único dos quadrinhos, de sua capacidade absurda em transportar o leitor para uma certa realidade ao inundá-lo com informações difusas numa narrativa de imagens justapostas. Ainda é raro encontrar autores com domínio de seu ofício tal que consigam causar essa sensação, mas quando abre-se um Maus, um Stuck Rubber Baby ou um How to Be an Artist é que se percebe o poder desta forma de arte. Em seu caso, Joe Sacco utiliza as elipses de mudança de página, a distribuição espacial da informação e a edição em capítulos curtos para, em menos de duas dúzias de folhas, transmitir a complexa das causas que levaram ao estado atual dos territórios da Palestina, de maneira que 20 minutos de filme ou 30 páginas de livro dificilmente conseguiriam.
A motivação e a posição política de Sacco são claras desde o começo; não seria preciso nem ver a capa para sabê-los – a rigor, bastava o título, afinal o livro não se chama Israel nem mesmo Conflito na Terra Sagrada. É uma reportagem em quadrinhos, sim, nos moldes de “aproveitar o material que a realidade fornece”, qual Spiegelman fez com seu pai em Maus, ou Harvey Pekar, durante anos, em American Splendor, porém com direito a narrativa numa primeira pessoa que não só se converte em personagem como não se furta a emitir opiniões, o que levou-o a comparações com o new journalism ou o gonzo journalism de Hunter S. Thompson. Nem precisava; não é de hoje que se sabe o quanto narrativas biográficas se encaixam bem em quadrinhos.
E se as opiniões do autor são o que colocam a reportagem em xeque, é preciso observar que também são elas que contraem a musculatura da história, já que Sacco procura embasar cada comentário com depoimentos locais, visitas a áreas divididas, colônias e prisões israelenses, além da pesquisa histórica que revela as origens políticas da fundação do Estado de Israel no Oriente Médio (uma canetada do ainda todo-poderoso Império Britânico). Se essa opção preferencial pela rua mostra-se acertada ao montar um painel do que é o dia-a-dia numa área de conflito, ela deixa a dever ao não comentar as decisões políticas dos líderes, ao comentar pouco o conflito entre as diversas facções e, sobretudo, ao passar por fora do problema do terrorismo – praticamente só há uma menção direta, quando Sacco refere que os palestinos “eram a manteiga passada no pão do terrorismo”, menção aliás questionável, pelo quanto sugere de último recurso – uma justificativa?
Curiosamente, o discurso nunca recai no maniqueísmo, apesar de mostrar apenas o lado oprimido da questão. Joe Sacco pinta os cidadãos comuns árabes, apesar da solidariedade que demonstram entre si, como comerciantes safados, prontos para enganar turistas (inclusive ele…); e os jovens, como guerrilheiros potenciais – nem ele escapa das críticas, ao retratar sua covardia em protestos de rua, ou quando reconhece abertamente que é o sangue, e não a paz, quem alimenta seus quadrinhos.
Sacco só escorrega mesmo quando dá espaço para uma certa culpa politicamente correta, ao destacar o comentário de uma certa mãe palestina recém-chegada de anos em Chicago, que preferira voltar para a Palestina pois acreditava que seria mais fácil criar seus filhos por lá… Ou quando considera os argumentos para o uso da veste tradicional islâmica, que oculta vastas porções do corpo feminino. Nessas horas, a confusão entre os dogmas políticos de liberdade de comportamento e os de respeito aos costumes étnicos tradicionais é tão grande que Sacco simplesmente não consegue se decidir se apóia ou não o uso dos véus. Pior que isso, confessa abertamente não ser capaz de entender toda a complexidade da questão – ganha pela honestidade, mas perde pela indecisão.
Para fazer sua história em quadrinhos, Joe Sacco adotou um estilo gráfico onde pudesse mesclar as mais variadas composições de página; não há um padrão de diagramação identificável. A fusão de quadros pode tontear um leitor iniciante, mas não o deixará perdido no fluxo narrativo. No desenho, Sacco vale-se de um vasto alfabeto de hachuras denotando cores e texturas as mais variadas, como só mesmo Dave Sim parecia capaz de fazer em Cerebus. Na construção dos personagens, fica a meio caminho entre o estilizado e o realista, correndo para a caricatura todas as vezes em que a câmera se aproxima dos rostos (lembrando ninguém menos que os narigudos de Basil Wolverton). Nas cenas de multidão, no entanto, trabalha de maneira rica os detalhes, os figurantes, o cenário. Está no domínio do estilo, mesmo que este não pareça o mais apropriado para uma narrativa para-jornalística.
Palestina é uma graphic novel que deve constar em qualquer lista de leituras altamente recommendáveis. E isso não tem nada a ver com seu teor político.
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