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Eu nunca vi Marlon Brando
Por Tiago Cordeiro — Terça, 6 de julho de 2004
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A primeira coisa que você pensa quando lê essa frase é que sou algum retardado mental que se presta a escrever sobre cinema sem nunca ter assistido a um só filme com o ator Marlon Brando, falecido na última sexta-feira.
Não é isso. A verdade é que poucas vezes na minha vida lembro de ter visto o ator em entrevistas ou festividades, pois quando mais o vi, ele não era Brando, mas apenas seu personagem nos filmes que fez. Não atuava, era.
Marlon Brando influenciou toda uma geração de atores como Al Pacino e Robert de Niro, que não chegam aos seus pés. Talvez o maior ator do cinema norte-americano, Brando apresentava-se como outra pessoa em cada novo trabalho. Tente encontrar alguma semelhança entre o coronel Kurtz (Apocalipse Now) e Don Corleone (O Poderoso Chefão), por exemplo. A fala, o olhar, a forma de demonstrar raiva e tantas coisas mais... Brando não era bem um ator, mas um amontoado de personagens que sacava de seu arsenal sempre que precisava estarrecer uma platéia. Seguidor do método Stanislavski de interpretação - que, de tão popular, passou a ser conhecido por muitos como “O Método” (que consiste na identificação psicológica entre ator e personagem) -, Brando é, inegavelmente, um ícone do cinema norte-americano, onde imortalizou uma imagem bela, masculina e fortíssima.
Eu conhecia Marlon Brando de algumas imagens antes de vê-lo realmente atuar pela primeira vez em O Poderoso Chefão (The Godfather). Não há como distinguir os traços ou qualquer expressão que lembrasse aquele galã que estava acostumado a ver nas revistas - mesmo com o material que usou para as bochechas de buldogue, a mudança era assustadora.
Brando não era só beleza, era de um incontestável e sincero talento. Capaz de superar qualquer má vontade com um filme e chamar a atenção mesmo como coadjuvante (como em Don Juan de Marcco, em que contracenava com um Johnny Depp décadas mais moço), Brando tinha uma vida bastante atribulada. O auge dessa conturbação surgiu nos anos 90, quando seu filho mais velho Christian cometeu suicídio após ser preso e condenado a cinco anos pelo assassinato do namorado de sua meia-irmã Cheyenne. A partir daí, o ator passou a ter uma vida mais reclusa, evitando o contato com a mídia.
Na verdade, Brando sempre teve problemas em lidar com o estrelato, talvez pelo passado difícil. Em sua autobiografia, revelou que a mãe tinha tendências sérias ao alcoolismo e o pai era violento. Esses problemas pessoais não o impediram de alcançar a consagração, mas o prejudicaram em inúmeros momentos da carreira. A Paramount Pictures, por exemplo, tentou impedi-lo de ganhar o papel de Don Corleone por sua má reputação em trabalhos anteriores.
Esta semana, na comunidade Orkut do SoBReCarGa, coloquei que ele poderia ter chegado mais longe se planejasse sua carreira tão bem quanto astros como Tom Cruise. Alguns colegas protestaram e me peguei escrevendo a intrigante conclusão de que “Marlon Brando foi um deus, mas podia ter sido maior”. Maior que um deus? Bem, acima de todos os erros, o mito foi imenso. E é isso que fica. Ciao Brando, va bene.
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