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Road Movies - Parte IV
Por Maria Luiza Porto — Segunda, 5 de julho de 2004
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Midnight Cowboy conta a história de Joe Buck (Jon Voight), um rapaz do Texas que migra para Nova Iorque para se tornar garoto de programa.
Trajado de cowboy e seguro de seu sex appeal, Joe possui uma visão “glamourizada” da prostituição. O filme, apesar de ser contemporâneo a Easy Rider (ambos são de 1969), nos mostra uma visão diferenciada do “pegar a estrada”. Aqui, a necessidade de evasão sentida pelo personagem que não se encaixa no perfil dos manifestantes da contracultura.
O filme explora o êxodo rural e a ilusão dos habitantes das pequenas cidades do interior de que nos grandes centros urbanos eles terão a oportunidade de “subir na vida”.
Chamando uma voz acadêmica para nos situar dentro do assunto, convoco meu "velho amigo" de noites solitárias, porém não menos histéricas, de término de monografia: Stuart Hall. Ele observa que um dos pontos importantes a ser abordado dentro do início da globalização, no pós-Segunda Guerra Mundial, é o fenômeno da migração. O movimento para fora, seja de mercadorias, imagens ou identidades, tem uma grande relação com o movimento de pessoas que se deslocam da periferia para o centro, em um dos períodos mais longos e sustentados de migração “não-planejada” da história recente.
Motivado pela pobreza, pela fome, pelo subdesenvolvimento econômico, distúrbios políticos, além de outros fatores, um enorme número de pessoas acaba por acreditar na “mensagem” do consumismo global e migra para os grandes centros, onde “as chances de sobrevivência são maiores”.
Joe Buck (Jon Voight) carrega em si um passado trágico e a ilusão de que em Nova Iorque existem mulheres cheias de grana, dispostas a pagar pela realização de seus desejos sexuais não saciados pelos homens urbanos. Chegando à grande metrópole, Joe se depara com uma realidade diferente, agravada por sua ingenuidade tipicamente interiorana. Uma sucessão de decepções e imprevistos leva Buck a conhecer Ratso, personagem de Dustin Hoffman, um aleijado que, por meio de pequenos atos ilícitos, constrói sua vacilante sobrevivência.
Ratso parece ser o Joe Buck de amanhã, filho de um engraxate imigrante da Itália e desiludido com a possibilidade de êxito fácil na grande cidade. Ele cultiva o sonho de se mudar para a ensolarada Flórida, na certeza pueril de que lá irá obter o sucesso que sempre desejou e vingar o miserável destino de seu pai.
Minha total falta de ciência sobre a dramática carga emocional da película (poderia ter pedido junto com o filme uma pizza bem engordativa ou uma caixa de Prozac) se aliou à minha regular e rotineira insônia e me manteve acordada a noite toda, com nó na garganta. Além das excelentes atuações da dupla, a cruel realidade exposta no filme e a realidade dos sonhos estilhaçados e da inocência roubada a duros golpes do destino nos fazem pensar sobre como os homens criam e se deixam ludibriar pelas suas próprias armadilhas. O final do filme é um horror (leia-se "brilhante"), e a música original composta pelo mesmo diretor do filme, John Schlesinger, é uma das mais lindas trilhas já feitas, uma gaita que chora e ajuda a chorar.
"O homem é o lobo do homem", sussurrou para mim um dos livros abertos e esparramados em cima de minha escrivaninha, enquanto tentava redigir a conclusão de minha tese.
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