 |
De que valem as bilheterias?
Por Ana Camila — Sexta, 25 de junho de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Saiu na última edição da praticamente extinta Revista de Cinema uma pesquisa sobre as maiores bilheterias de cinema brasileiro no Brasil. Fez parte da matéria uma lista intitulada "Os 20 mais da Retomada", com base nos números de bilheteria. Para quem não sabe, Retomada é o nome que se dá ao período do cinema nacional que foi de 1994 até 2002 (Carlota Joaquina - Cidade de Deus), que delimita um novo momento do cinema nacional pós-crise no governo Collor. Os filmes citados na lista, assim como suas respectivas posições, são de chocar qualquer espectador mais perspicaz.
No primeiro e segundo lugares estão, respectivamente, Carandiru e Cidade de Deus. À época do lançamento do filme do Hector Babenco, muitos críticos enalteceram a película em função do respeito à obra (de qualidade, é fato) do diretor e por estarem a crítica e o público brasileiros numa fase pós-sucesso do filme do Fernando Meirelles - ou seja, filmes brasileiros sobre mazelas sociais eram "a boa".
Mas é triste perceber que a crítica ignorou solenemente os problemas graves que permeiam o filme. Com um roteiro equivocado e alguns vacilos na direção, Carandiru foi assistido por mais de quatro milhões de pessoas - muitas delas satisfeitas com o que viram ao sair da sala escura. O filme do Babenco, ao meu ver, não pode estar, diante de tantos problemas, entre os melhores da Retomada. Tomar como parâmetro aquele que tem mais qualidade entre os piores é reducionista demais.
O sucesso de bilheteria de Cidade de Deus é um fenômeno que todos nós conhecemos e a sua inclusão na lista dos "20 mais" foi uma das poucas que possuíam alguma coerência. Afora toda a polêmica acerca da sua estética e temática, o filme do Meirelles é, independente de qualquer número de bilheteria, um filme bom, muito bom. E nunca é demais lembrar que Cidade de Deus mudou a concepção de narrativa cinematográfica num país como o Brasil, onde sempre houve um certo desafio em aproximar o público do seu cinema.
Produções cinematográficas para o público infantil ocupam sete das vinte posições. Eu, sinceramente, não assisto aos filmes da Xuxa e do Didi Mocó, apesar de saber que se utilizam de um aparato digital interessante do ponto de vista da evolução tecnológica do cinema brasileiro. Mas os filmes não me interessam e eu não sei se teria condições de analisá-los. O que se vê, é são sucessos de bilheteria garantidos, com personalidades que já fazem parte do cotidiano das crianças há muito tempo, mas que são completamente dissociados do processo de formação de linguagem e identidade do cinema brasileiro.
Filmes globais são outros que se destacam na lista. Considero globais filmes como Sexo, Amor e Traição, A Partilha, Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro, etc. Apesar de nem sempre dirigidos por diretores e/ou autores de telenovelas, são produtos pensados e concebidos dentro dos padrões da Globo, com sua equipe, seus atores, seu dinheiro, sua estrutura, sua linguagem e seus princípios. Nesse contexto, me é difícil entender que esses filmes contribuam de forma relevante para a história do cinema brasileiro, tampouco para a sua expressividade na Retomada. Esses filmes são meras extensões da tela da Globo e, como tais, são apenas produtos televisivos que são exibidos em tela grande, no lugar da tela pequena. É, dessa forma, natural que os filmes globais atraiam um público grande, semelhante ao que a Globo já atrai diariamente. Sem qualquer segredo, aí se encontra o motivo de tantos números altos em suas bilheterias.
E o que sobra dessa lista é muito pouco. O grande Central do Brasil, Walter Salles, ocupa a 15ª posição, acima apenas de filmes medíocres. Mas parece que a bilheteria não quer mesmo dizer nada - não em matéria de qualidade. Se assim fosse, o filme do Salles estaria, obrigatoriamente, entre os cinco primeiros. Muitos veículos de comunicação que tratam de cinema ainda se utilizam dos dados de bilheteria para colocar os filmes em evidência. Mas, diante de uma lista como esse que saiu na Revista de Cinema, não consigo imaginar nada mais equivocado.
Praticamente todos os filmes da lista são ruins. Com exceção de Cidade de Deus e Central do Brasil, filmes realmente bons, essa relação dos "20 mais" me dá arrepios. O cinema brasileiro está mesmo em ruínas, principalmente quando se utilizam tão mal dessa ferramenta que é a contagem de bilhetes vendidos. Infelizmente, um filme ser muito assistido não mais significa - se é que um dia significou – que ele é bom.
A última que ouvi falar foi que o filme do Cazuza já bateu o recorde de Carandiru. Levando em conta que os dois filmes são ruins, mas que o filme do Babenco ainda consegue ser melhor que o do Cazuza, parece mesmo que o sucesso de bilheteria é inversamente proporcional à qualidade dos filmes.
"Os 20 mais da Retomada"
1º) Carandiru
2º) Cidade de Deus
3º) Lisbela e o Prisioneiro
4º) Os Normais
5º) Xuxa e os Duendes
6º) Xuxa Popstar
7º) Xuxa e os Duendes II
8º) Maria, a Mãe do Filho de Deus
9º) Xuxa Abracadabra
10º) Sexo, Amor e Traição
11º) Auto da Compadecida
12º) Cupido Trapalhão
13º) Simão e o Fantasma Trapalhão
14º) Deus é Brasileiro
15º) Central do Brasil
16º) O Noviço Rebelde
17º) A Partilha
18º) Carlota Joaquina
19º) O Quatrilho
20º) Orfeu
- Dados fornecidos por O2 Filmes, Sindicato dos Exibidores e Boletim Filme B.
|
 |