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Shrek, o marxista
Por Celso Antonio Almeida — Terça, 22 de junho de 2004
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No último sábado veio à minha mente mais de uma vez a imagem do rosto de Papai Noel enfezado de Karl Marx. Eu estava assistindo a Shrek 2 em uma sala lotada de crianças barulhentas. Não me importei com a algazarra dos pirralhos, afinal eles estavam sendo expostos, ainda que de maneira quase subliminar, à filosofia marxista, e isso só poderá se reverter em benefício para a sua vida futura.
Marx trabalhava com um conceito chamado "alienação do trabalho" - quanto mais esforço um trabalhador aplica em seu trabalho, menos humano ele se torna, enquanto o produto ganha vida e o confronta como algo hostil e estranho. Em um sistema capitalista selvagem como o nosso, o trabalhador se torna um objeto conforme os frutos do seu trabalho ganham existência própria. É como se mesas e cadeiras, por exemplo, se transformassem em criaturas vivas e hostis que confrontam seus criadores.
É a mesma inversão que tem lugar em Shrek 2. A mobília ganha vida durante o filme para confrontar Fiona, que é, por sua vez, reduzida a um objeto através da "produção" forçada a que a Fada Madrinha a submete. Esta cena cristaliza perfeitamente os pensamentos de Marx sobre trabalho e alienação.
E não é surpresa que Shrek deva abraçar o marxismo, já que o filme inteiro é um prolongado ataque à cultura corporativa que grassa nos EUA (que de forma pernóstica se auto-intitulam "A América"). A animação explora os símbolos visíveis do poder capitalista (em particular Disney e Hollywood), e o faz de forma efetiva e bem-humorada.
Eu saí do cinema gostando ainda mais daquele ogro verde e sua quedinha pelo marxismo. Espero que as crianças também tenham gostado.
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