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Nostalgia que dá vontade de cantar
Por Ana Camila — Terça, 22 de junho de 2004
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Eu demorei muito tempo para conseguir assistir ao filme do Cazuza. Eu sabia que, como poucas vezes me acontece, não me atentaria detalhadamente às discussões técnicas e de linguagem envolvidas no filme, já que eu entrei na sala disposta mesmo a me emocionar. E a escolha foi bem clara e simples: não, eu não quis fazer análises críticas do filme, não quis observar o desempenho dos atores, me atentar para a direção e fotografia, para os problemas de roteiro. Eu queria ver o Cazuza.
Diante disso, digo logo que concordo quase absolutamente com a crítica aqui publicada pelo colega Marcelo Tavela, mas me reservei no direito de falar sobre impressões. Dessa vez, nada de análises profundas.
Qual seria mesmo a motivação – além da constante e maçante publicidade da Globo – para assistir a um filme como Cazuza – O Tempo não Pára? O que motivaria um público de milhões de pessoas, sendo muitas delas bem mais velhas, a ver um filme assim? A resposta parece óbvia, mas o cinema, ainda que, por vezes, muito mal, pode proporcionar esse tipo de sentimento nostálgico, essa vontade de assistir à imagens que nos trazem lembranças, que nos fazem sentir saudades de tempos mais gostosos de viver.
Pra mim isso foi até mesmo gritante. O trailer do filme já me deixou com o coração na mão. Ao ver o filme, construído de forma a emocionar quem ao menos já ouviu falar de Cazuza, eu me senti absolutamente nostálgica. Ainda que uma série de problemas técnicos me incomodassem, nada importava quando, logo no início, estava aquele moleque cantando Deep Purple, um moleque parecido com muitas pessoas que conheci, com outras que eu gostaria de conhecer. Um moleque que escreveu coisas lindas como Preciso Dizer que te Amo, Pro Dia Nascer Feliz ou Minha Flor, Meu Bebê.
E alguma coisa era diferente na platéia. Alguma coisa maior que a construção narrativa do filme, maior que os problemas sérios de dublagem, maior que a mudança súbita da forma de comportamento do personagem. Era maior a vontade de assistir à história de alguém que fez parte da juventude bonita daquelas pessoas, alguém que cantou aquelas músicas que nos levam a lugares e momentos passados. Era maior a vontade de se ver na tela, de se identificar, de se emocionar. Maior ainda era a vontade – e essa foi difícil de conter – de cantar todas aquelas canções bem alto, cantar acompanhada, cantar muitas vezes.
E eu que sou tão difícil de não observar cada detalhe de um filme para poder criticar depois, eu que já faço isso tão naturalmente, sem sequer achar que é uma obrigação, mas puro prazer, eu que sou tão chata com filmes ruins, dessa vez eu só me emocionei. Não só com o filme em si, com as canções, com os momentos filmados que me trouxeram momentos vividos, não só com as palavras do Cazuza, mas com o fato de o cinema poder trazer, poder fazer isso.
E é engraçado que o filme, ainda assim, seja ruim. O filme tem milhões de problemas de todos os níveis, mas de repente nada disso fez qualquer diferença. De repente eu não me importei com o fato de se ter gastado tanto dinheiro para produzir algo de má qualidade, não me importei com uma boa iniciativa que foi “jogada no lixo”. O filme ter sido ruim foi uma grande ironia porque, em momento nenhum, me impediu, nessa condição, de me emocionar, de me fazer sentir bem, de querer assistir ao filme de novo pelo menos mais duas vezes.
É uma delícia ter a chance de ver um documento de alguém tão influente na nossa juventude. Ainda que nos anos 80 eu fosse muito pequena, as canções do Cazuza sempre estiveram à nossa volta, assim como persistiram nos anos 90. O Tempo Não Pára é um filme que eu queria ter em casa. Ainda que com atuações péssimas, problemas terríveis de som, equívocos no roteiro, ainda assim um filme que me deu muito prazer. Muito mais prazer que muito filme bom por aí.
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