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As Três Leis das Adaptações
Por Celso Antonio Almeida — Quarta, 16 de junho de 2004
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LEIS DA ROBÓTICA
(elaboradas pelo cientista e escritor de ficção científica Isaac Asimov e universalmente aceitas)
1ª Lei: Um Robô jamais deve causar danos a um Ser Humano nem, por omissão, permitir que isso aconteça.
2ª Lei: Um Robô deve sempre obedecer às ordens de um Ser Humano, a menos que isso entre em conflito com a 1ª Lei.
3ª Lei: Um Robô deve proteger sua própria existência (proteger-se de danos), a menos que isso entre em conflito com a 1ª ou a 2ª Lei.
Estas Leis ficcionais foram criadas por Asimov para dar um sabor a mais a seus contos apresentados na antologia Eu, Robô. Aliás, o próprio termo "robô" (robot, em inglês) foi cunhado pelo escritor, a partir da palavra tcheca "robota", que significa "trabalho forçado, trabalho escravo". Atualmente, com robôs de verdade imiscuídos cada vez mais à nossa vida cotidiana, as Leis passaram a ser aplicadas a sério, no "mundo real".
Falando em adaptações, eu tento pensar nas versões cinematográficas de obras literárias como entidades separadas dos livros nas quais se baseiam. As complicações inerentes à Sétima Arte tornam completamente impossível fazer uma adaptação ipsis literis e, às vezes, tudo o que se pode fazer é julgar um filme pelos seus próprios méritos. Mas temos de nos lembrar que as adaptações têm, sim, um débito para com o material-fonte, e este último deve ter predominância.
Em se tratando de uma adaptação, a primeira coisa a se determinar é o que é importante para o processo e o que, especificamente, leva à "bastardização" de bons livros. A Letra Escarlate é uma adaptação medíocre porque pega uma história sobre moralidade e hipocrisia e a transforma em uma reflexão sobre a bunda de Gary Oldman (para sempre um símbolo de paixão proibida). Clube da Luta é uma ótima adaptação (vai dizer que você não sabia que era uma adaptação?) porque se mantém fiel à desconstrução da masculinidade moderna apresentada no romance que lhe deu origem. Pode ser impossível adaptar uma história linha a linha. Mas permanecer fiel à intenção, ao espírito da obra levará a uma adaptação que poderemos chamar de fiel.
A adaptação I, Robot, estrelada por Will Smith, chegará aos cinemas em breve, e estes assuntos, leis e adaptações, me levaram, se o leitor me permite a prepotência, a elaborar minhas próprias leis, as Leis das Adaptações. Senão vejamos:
1a. Lei: Uma adaptação cinematográfica não pode, por omissão ou ação direta, subverter ou inverter o sentido e a moral do material-fonte.
2a. Lei: Uma adaptação cinematográfica deve capturar adequadamente aquilo que tornou o material-fonte atraente, a menos que isso entre em conflito com a 1a. Lei.
Um livro pode ser uma obra-prima de prosa elegante, um excitante mergulho no ponto de vista de um personagem brilhante. Livros têm os luxos chamados espaço e tempo -- os escritores podem detalhar o passado de um personagem com um parágrafo, gastar páginas inteiras descrevendo ambientações e revelar o que está acontecendo na cabeça de um personagem com uma simples mudança de foco narrativo da terceira para a primeira pessoa. Um diretor de cinema, entretanto, dispõe de recursos finitos -- filmes devem "caber" em um orçamento pré-determinado, ter uma duração mais ou menos definida, e tudo isso dentro de um conjunto específico de padrões e práticas. Compor um personagem depende do desempenho do ator ou da atriz escalado/a para interpretá-lo. Nunca é demais lembrar que esse/a ator/atriz pode ter sido escolhido/a por ser um/a ganhador/a do Oscar ou por ficar muuuito bem dentro daquela roupa de couro. Querer que estes dois pré-requisitos venham juntos no mesmo pacote já seria esperar demais. E o enredo, via de regra, tem de ser simplificado e cortado.
Ignorar os desafios que todos estes pontos representam ao processo de adaptação é ser ingênuo além da salvação, e esperar que o filme seja completamente fiel ao material-fonte dados estes obstáculos é esperar um milagre. Cenas serão diferentes. Personagens terão falas diferentes, e alguns personagens simplesmente não estarão lá. Liberdades como estas devem ser permitidas -- mas não à custa da fagulha de inspiração do material-fonte.
3a. Lei: uma adaptação pode ter as mudanças necessárias para funcionar como um produto do seu meio, a menos que isso entre em conflito com a 1a. ou a 2a. Lei.
Acredito, na minha arrogância que não conhece limites, que uma adaptação que siga estas Três Leis será, teoricamente, muito legal. Ela permanecerá fiel ao sentido do material-fonte, a despeito de alguns elementos que irritarão os leitores mais puristas, e ainda será capaz de funcionar como filme.
Agora, se um filme segue à risca as Leis e, ainda assim, é uma droga, aí não tem jeito: a culpa só pode ser do livro.
Se Eu, Robô será uma boa adaptação? Talvez. Talvez o filme capture aquilo que torna a história original interessante, debata as mesmas questões levantadas pela ficção de Asimov, tudo isso enquanto funciona como um excitante filme de ação.
Ou talvez Will Smith apenas chute os traseiros metálicos de alguns robôs assassinos.
As Leis estão aí. Mas, como diz o slogan de Eu, Robô, "Leis são feitas para serem quebradas".
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