Corre a lenda que a resposta de Will Eisner, quando um editor perguntou-lhe se poderia produzir novas histórias com o Spirit, para uma revista que se chamaria Will Eisner’s Spirit – The New Adventures, foi um sim, contanto que ele empregasse apenas os melhores nomes do mercado. Meses depois, quando aquele editor apareceu com páginas da dupla Alan Moore e David Gibbons, e outras de Neil Gaiman e Eddie Campbell, Eisner não teve outra escolha senão deixar o projeto correr... O comportamento de Eisner foi o padrão de qualquer grande criador que não quer ver sua menina dos olhos nas mãos erradas. Gaiman deve ter dito o mesmo ao longo dos últimos 10 anos, quando lhe perguntavam se ele nunca voltaria a escrever Sandman.
Assim como
Sandman não é a melhor obra de Gaiman, apesar de ser, sem dúvida, a mais popular, as histórias longas de
Sandman também não são as melhores da série, apesar de serem onde a verve dele melhor se manifesta, desenvolve personagens, e captura definitivamente a alma do leitor. Foi numa dessas histórias longas, a
Estação das Brumas, em que se tomou contato pela primeira vez com os
Eternos (
Endless, no original), os 6 irmãos de
Sonho: Morte, Desejo, Delírio, Destino, Desespero – na verdade cinco, porque
Destruição só seria conhecido tempos depois. Um achado: cada um representaria “uma idéia encarnada” e imortal que, ao contrário dos deuses, não dependia de cultos humanos – enquanto um humano existisse, eles existiriam.
Não é de se espantar que exatamente eles tivessem sido escolhidos para estrelar uma luxuosa edição especial em comemoração aos 10 anos do selo Vertigo, criado pela DC Comics para abrigar os títulos de horror, fantasia e o que mais coubesse sob o cobertor do chamado “conteúdo adulto”, muito menos que a escalação dos artistas fosse um verdadeiro time dos sonhos, escolhida à feição – parece ou não óbvio que
Milo Manara tenha nascido para desenhar uma história de Desejo? Ou
Bill Sienkiewicz, uma de
Delírio (clique na imagem ao lado para ampliá-la)? No final do ano passado chegou às prateleiras
Sandman: Endless Nights, em tiragem inicial de 100 mil exemplares, estreando em vigésimo lugar na lista de best-sellers do jornal The New York Times, feito atingido antes apenas por
Calvin e Haroldo, Dilbert e pela quadrinização do filme
Alien.
A edição nacional, da
Conrad, já está na segunda tiragem.
Os ares de edição comemorativa espalham-se por toda a
graphic novel:
Dave McKean faz a capa, como de hábito, e ainda cria vinhetas introdutórias para cada história. Neil Gaiman escreve uma longa introdução, deixando o leitor com ainda mais água na boca.
Morte, curiosamente a coadjuvante mais popular dos Eternos, abre o álbum. E, ao final, uma foto e uma pequena biografia familiarizam cada artista.
A primeira história, talvez onde o roteirista mais gastou as pestanas, é sem dúvida uma das melhores, contrapondo a decadência turística da Veneza atual com a opulência luxuosa dos tempos dos Doges, num ducado onde a
Morte não pode entrar porque o tempo foi banido de seus domínios. As elucubrações sobre a passagem do tempo e o significado da morte são o que aquecem a leitura, em competente arte de
P. Craig Russel, capaz de te transportar ora para uma festa à fantasia do século XVII, ora para ruínas de guerra no século XXI. A mera idéia de ler uma história de
Desejo concebida por Milo Manara era provocante por si só. Apropriadamente, Gaiman reduz o número de quadros por página e vale-se de uma lenda antiga, limpando o campo para Manara povoar com homens e mulheres que mais parecem semideuses de alguma seita hedonista. Transpira a cada quadro a tensão sexual impressa por Manara.
Sonho, apropriadamente, estrela a única história que traz referências à cronologia do personagem. É pintado por um
Miguelanxo Prado no auge de sua técnica, no que Gaiman descreve como “uma das histórias mais antigas do mundo”, e contém um de seus truques básicos: o desarme, a surpresa final.
Sonho, na arte de Miguelanxo Prado, e... Destino, nos traços e requadros de Frank Quitely.
Clique nas imagens para ampliá-las
Desespero está no que menos se parece com uma história em quadrinhos; na verdade, Dave McKean formatou as pinturas extremamente angustiantes de
Barron Storey, que ilustraram, mais do que narraram, os “15 retratos de desespero”. O resultado é até parecido com uma história em quadrinhos. Bill Sienkiewicz mostrou que está em grande forma ao traçar
Delírio, uma das melhores e, paradoxalmente, mais difíceis de acompanhar – a impressão é que os autores tentaram causar no leitor as sensações evocadas por
Delírio e
Desespero em suas próprias histórias. O roteiro lembra um pouco o tema do primeiro arco de história de
Sandman, Prelúdios e Noturnos: o resgate de um
Eterno do cativeiro. Quem conhece Glenn Fabry só das capas de
Preacher vai ficar decepcionado com a simplicidade de seu traço em nanquim, na apenas regular história de
Destruição; o melhor é passar direto para o extraordinário desenho, em brilhante concepção de páginas de
Frank Quitely para
Destino, num ensaio, mais do que uma história, fechando com chave de ouro. Uma edição para ser relida por 1001 noites.