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Nós vimos: Cazuza - O Tempo Não Pára
Por Marcelo Tavela — Sexta, 11 de junho de 2004
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O Problema são as Mulheres...
O problema de Cazuza – O Tempo Não Pára são as mulheres. Duas, para ser mais exato: Lucinha Araújo e Sandra Werneck. Em sua condição de mãe, é compreensível que Lucinha tenha limitado muitos aspectos do que Cazuza era, para preservar tanto a imagem do filho quanto o trabalho que ela faz com a Sociedade Viva Cazuza. Porém, na esfera cinematográfica, o personagem fica incompleto, capado. As várias versões do roteiro recusadas por ela corroboram a tese.
Já com Sandra, o diagnóstico é mais simples: ela é muito careta para fazer um filme sobre Cazuza, como pode ser percebido nos seus anteriores Amores Possíveis e Pequeno Dicionário Amoroso. Mesmo com a ajuda de Walter Carvalho, o filme não decola nem emociona. Ela pega uma biografia poderosa e transforma em uma história família. Tanto nos aspectos técnicos como nos de roteiro, o filme cai na mesmice. Não segue o conselho que o próprio personagem dá na trama: tem que fazer algo diferente. Após a sessão, fica a sensação de que ela estava com uma Ferrari em uma autobahn alemã e dirigiu a 20 km/h. Cazuza teria ido a 320 km/h.
Para cinebiografar uma pessoa tão próxima do público – aliás, acho que Cazuza é o biografado mais atual do cinema brasileiro – Sandra poderia ter escolhido um fragmento momentâneo da vida do poeta e buscado a essência do personagem nele – opção acertada, por exemplo, por Karim Aïnouz em seu Madame Satã. A diretora escolheu contar toda a vida artística de Cazuza. Sabemos que um filme de duas horas nunca poderia registrar todos os fatos da carreira do cara, mas alguns acontecimentos fundamentais para Cazuza se tornar o que era não são nem citados. E a essência se perde. O filme não faz menção a Ney Matogrosso ou Lobão, figuras muito relevantes na vida do poeta, e alguns outros pontos fundamentais. Faltam também muitas histórias de loucuras e outros casos que poderiam construir melhor o personagem.
Chegando ao protagonista-título, Daniel Oliveira fez um trabalho fenomenal da aparência física, que chega a ser assombroso. Porém, falta força no seu personagem para carregar o filme. Falta profundidade, falta dualidade, falta visceralidade, falta ser mais porra-louca – pra usar um termo da época – o que não é necessariamente culpa do ator. Marieta Severo tem o trunfo de conseguir tirar sua Lucinha da pieguice em que o personagem poderia cair em outras mãos. Já Reginaldo Faria não tem espaço suficiente para fazer o mesmo. E o bom Emílio de Melo faz um bom Ezequel Neves, com direito a uma divertida cena em que o Neves de verdade se espanta com o Neves personagem. Ah, e ver a participação de Andrea Beltrão com um visual anos 80 mata um pouco a saudade de Zelda Scott.
O filme também tem algumas questões técnicos. Muitas das músicas estão fora de sincronia nas dublagens – com destaque para a cena em que a Bebel Gilberto de Leandra Leal canta Preciso dizer que te amo. E outro problema são as cenas de shows, principalmente as de grandes apresentações. O Rock in Rio parece que foi feito com as “sérias restrições orçamentárias” do Casseta & Planeta, sensação que poderia ser evitada com trucagens e criatividade. Para não dizer que eu sou pessimista, há um momento bem calafriante no filme: quando o público canta em uníssono as músicas do poeta.
Enfim, Cazuza – O Tempo Não Pára é uma grande decepção. Cazuza merecia mais. Quem sabe, quando filmarem Renato Russo ou Cássia Eller, a coisa fica melhor?
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