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Walter Salles e Diários de Motocicleta
Por Ana Camila — Terça, 8 de junho de 2004
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Interessante a repercussão que teve a minha última coluna aqui no SoBReCarGa, sobre o novo filme do Walter Salles. Muitas pessoas me escreveram ou conversaram sobre como discordavam do que eu havia escrito. E quase todas elas se centraram no fato de eu afirmar que o filme tinha problemas de roteiro por colocar o Che Guevara como alguém que sofre mudanças internas de uma hora pra outra.
Cheguei a discutir o assunto com algumas dessas pessoas e acabei percebendo que o que precisava ser esclarecido não era o fato de o filme do Walter Salles ser ruim – afinal de contas, isso fere suscetibilidades –, mas o conceito de roteiro bem construído e, principalmente, de personagens bem construídas. Não adianta nada criticar o que eu considerei ruim no filme do Salles se não se entendeu o que eu usei como critério.
Todo roteirista ou estudioso de cinema que se preze sabe que uma das coisas mais significativas em matéria de elaboração de roteiros diz respeito à construção de personagens. É em cima delas que se dá a perfeita (se possível) construção da ação de uma história fílmica, ou seja, ter um personagem bem construído significa que mais da metade do seu filme tem tudo pra dar certo. E como é que se constrói bem um personagem?
Não, eu não vou dar lições de roteiro aqui, até porque eu mesma ainda tenho muito o que aprender. Mas aprender com os erros dos outros é bem divertido. No filme do Walter Salles, Che Guevara é um personagem. Esse foi o primeiro ponto de discordância entre mim e os leitores dessa coluna. Ele é personagem, não personalidade. E, sendo um personagem, precisa ser construído dentro da narrativa de forma que o espectador passe a conhecê-lo e que, dessa forma, se envolva com a sua história.
Pois bem, uma das coisas que me falaram é que eu não posso ignorar que o personagem do filme é o Che Guevara. Pois eu não só posso como devo, e tudo isso depende do que o filme se propõe a fazer. Diários de Motocicleta é um filme sobre o Che Guevara antes de se tornar Che Guevara. Um filme sobre as aventuras na estrada de um jovem e o que o levou a pensar em revolução. Isso é mais do que claro e discutir isso é, no mínimo, falta de atenção. Logo, Walter Salles precisava dirigir os obstáculos que levariam o Ernesto a se tornar o Che, o filme está lá pra isso. E o espectador pode até saber quem é o Che Guevara, mas o filme não parte do pressuposto de que ele saiba, até porque a vida revolucionária do Che pouco importa para o desenrolar do filme.
Logo fica muito claro que, diante de sua proposta, o filme é falho. Tem-se a impressão, como eu disse na coluna passada, que por causa de uma situação ou outra o moço resolveu querer mudar o mundo. O filme se preocupou muito mais em narrar as aventuras dos dois amigos pela América que narrar a trajetória que moveu a vida e as ações do Che. E é apenas esse o seu grande equívoco.
Todo personagem, para ser bem construído, precisa de um roteiro que estabeleça seus obstáculos durante o filme para que, ao final, de acordo com as suas propostas, passe por qualquer tipo de transformação. Isso parece se encaixar perfeitamente no filme do Salles, era exatamente essa a sua intenção. Mas os obstáculos são tão repentinos e descabidos que a impressão que se tem é que, do dia pra noite, o mocinho se transformou completamente. Bastou que encontrasse um casal miserável no meio do nada. Ou que se relacionasse com os leprosos. E, pior, do nada ele declarou-se a favor da luta armada, num tom de espontaneidade tão forçado que chegou a [me] fazer rir.
E aí vêm aquele drama todo, a emoção que tomou o público que venera Che Guevara (principalmente os adolescentes que fizeram questão de vestir a camisa da celebridade no cinema), as fotos comoventes, os letreiros explicativos, tudo pra tornar o filme bem redondinho, bem emocionante. Houve ainda sessões com aplausos, pessoas chorando, outras elogiando o filme só porque era “sobre Che Guevara”. Para mim o filme foi bem divertido no começo. Mas ficou a sensação de que o filme não saía do começo.
Criticaram também o fato de eu comentar a escolha do Gael Garcia Bernal como o Che. Inclusive o colega Tiago Cordeiro, em sua coluna de duas semanas atrás, fez um comentário a respeito do assunto. Pois bem, é ingênuo ignorar que a estética, no cinema, é algo desimportante. O Gael não tem a aura do Che. Não é que ele precise ser feio ou bonito, ele precisava ser o Che, não? E isso, diante de todos os equívocos do filme, foi apenas um complemento. Por vezes eu simplesmente esqueci que, no filme, havia a intenção de falar do grande Che – o Gael tem a aura de filmes como “E Sua Mãe Também”. E mesmo que ele seja bom ator, por vezes não está no papel certo – vide o péssimo “O Crime do Padre Amaro”.
Mas é interessante que esse filme cause assim tanta discussão. Não imaginei isso nem quando o vi e nem quando escrevi sobre ele. Não é um filme que mereça tanto – o que é triste de constatar porque falar dos filmes do Walter Salles sempre foi um grande prazer pra mim. Mas dessa vez, pior que Abril Despedaçado (que já era um filme fraco), o cineasta conseguiu finalmente fazer um filme ruim.
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