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Nós vimos: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
Por Douglas Donin — Sábado, 5 de junho de 2004
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Antes de qualquer coisa, deixem-me explicar: não sou um fã de Harry Potter. Não li os livros, apenas vi os filmes, e não compareci ao cinema com as quinhentas toneladas de expectativa que me acompanharam nas estréias de, por exemplo, O Retorno do Rei e Homem-Aranha.
Na verdade, não tinha expectativa alguma, boa ou má. Os primeiros filmes da série não haviam me impressionado muito, pareciam "família" demais (característica principal do diretor Chris Columbus), embora a idéia por trás de toda história fosse muito interessante.
No entanto, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban conseguiu implantar em mim um profundo interesse e simpatia pela série literária da Srta. Rowling. Embora não seja exatamente um primor de obra cinematográfica, o filme, dirigido pelo novato Alfonso Cuarón é muito mais vívido do que seus anteriores, muito mais sombrio (certamente bastante assustador e violento para ser considerado um mero "filme para crianças"), e servirá, com toda certeza, como um nítido divisor de águas nas aventuras de Harry Potter no cinema.
A história começa quando Harry (Daniel Radcliff), de férias da escola Hogwarts na casa de seus tios, é humilhado até o limite de sua paciência, perde o controle e acaba utilizando a magia para se livrar de uma tia insuportável. Após este incidente, abandona a casa e seus tios, mostrando que o personagem agora não é uma simples criança, mas um típico adolescente.
Paralelamente, Sirius Black (Gary Oldman) – o tal prisioneiro do título – escapa de Azkaban e passa a perseguir Harry por algum motivo. Vários dementadores – criaturas cruéis, parecidas com os Nazgul de O Senhor dos Anéis – são colocados como guardas em Hogwarts para capturar o fugitivo, o que acaba gerando sérias complicações para Harry e seus amigos.
Inicialmente, para os leigos – ou "trouxas" - como eu, o filme é bem monótono, e parece desorganizado, desconexo e sem propósito aparente a não ser mostrar todos os elementos do livro que os fãs já conhecem de cor. Depois de certo tempo, vai aos poucos engrenando e se tornando gradativamente mais e mais agradável – à medida em que o diretor pára de perder tempo com apresentações de elementos e concentra-se na história, quando "entramos" no universo – para finalmente, após o encontro de Harry e Sirius, tornar-se bastante divertido.
É uma pena que o roteirista Steven Kloves não tenha conseguido dar ao filme inteiro a agilidade dos seus últimos quarenta minutos, prendendo-se a elementos perfeitamente descartáveis no seu zelo pela fidelidade ao livro. Quando este tipo de coisa acontece em uma adaptação, fica evidente aos olhos do espectador – mesmo para o que não está familiarizado com a obra original. O resultado é aquela sensação incômoda de "isto só está aqui porque existe no livro", que permeia toda a meia-hora inicial.
No entanto, há de se dar um desconto: sabemos como é difícil adaptar obras tão queridas, e tomar liberdades em nome do bom fluxo da obra. Se o primoroso trabalho de transposição de O Senhor dos Anéis já foi duramente criticado pelos fãs mais radicais, por apresentar pequenas mudanças, o que dizer de Harry Potter, que possui uma legião comparável de fãs ativos e uma proprietária superprotetora, controladora e exigente como J.K. Rowling?
Esta falta de acabamento no que diz respeito à uniformidade no fluxo do roteiro é a grande falha do filme, e acaba desmerecendo o empenho técnico impressionante, presente em cada centímetro de película. Uma verdadeira pena, levando e consideração o esmero da equipe técnica e o charmoso resultado visual. Até mesmo John Williams, que parece estar no piloto automático há bastante tempo, entrega uma trilha agradável e que não chama muito a atenção.
Ora, já tratamos da história, da direção e dos quesitos puramente técnico. E quanto ao elenco e os personagens?
Bem, as crianças (se é que podemos chamá-las assim) estão mais maduras, refletindo o crescimento de seus respectivos personagens. Do trio principal, o destaque é o simpático Rupert Grint (Ron), dono das melhores tiradas do filme. Uma pena que tenha tão pouco tempo de tela e pouco destaque na trama. Emma Watson (Hermione Granger) é uma atriz-mirim competente, embora não extraordinária, mas que está amadurecendo muito rapidamente.
Já Daniel Radcliff (Harry Potter) é o mais fraco dos três. Não que seja um mau ator, mas simplesmente não consegue dar carisma suficiente a um personagem com tanto destaque. Vez por outra, temos a impressão que Harry é um simples coadjuvante de Hermione e Ron. Talvez seja reflexo de um roteiro que alivia o peso de ser astro principal dos ombros de Harry, distribuindo-o sobre o trio de adolescentes.
Já os "adultos" são todos muito bons, com um elenco excelente de veteranos. Nada, no entanto, diferente do padrão de qualidade alcançado nos dois outros filmes.
Concluindo, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é uma obra que tem tudo para agradar aos fãs do personagem, arregimentar novos seguidores e entreter tanto às crianças (que, aviso aos pais, não devem ser muito pequenas e impressionáveis) quanto aos adultos, sem ser de nenhuma maneira um marco na história do cinema ou uma obra-prima. ¤
Confira também a opinião de nosso tempestuoso colunista Luiz Eduardo Ricon sobre o filme aqui e dê uma olhada na galeria de pôsteres aqui.
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