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Marvel em 1602 por Gaiman
Por Rafael Lima — Quarta, 2 de junho de 2004
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Quando pus minhas mãos na primeira edição nacional da mini-série 1602, já tinha perdido a conta de há quantos anos eu não lia uma história escrita por Neil Gaiman ou desenhada por Andy Kubert. A rigor, desde que Gaiman encerrara os 75 números de Sandman, e Kubert parara de desenhar os X-Men, com brevíssimos retornos para obras antigas ou fechadas, como a mini-série Homem Sem Medo, ou as graphic novels Violent Cases e A Paixão do Arlequim, e ainda assim muito mais de olho nos parceiros em cada uma (Frank Miller, Dave McKean e John Bolton, respectivamente) do que em Kubert e Gaiman. Por melhores que fossem, os bons momentos definitivamente não tinham deixado saudades.
A premissa básica de 1602, construir um roteiro onde os principais personagens da Marvel aparecessem no começo do século XVII, não é novidade para quem lê super-heróis; a DC Comics cansou de explorar esse tipo de hipótese temporal, chegando a criar um selo só para isso, chamado Elseworlds. Décadas atrás a própria Marvel tinha um título chamado What If?, onde se especulava os rumos que uma história tomaria se um elemento crucial em seu desenvolvimento fosse mudado. Assim, o leitor poderia descobrir o que aconteceria se Elektra não tivesse morrido, se o Homem-Aranha tivesse entrado para a CIA, e assim por diante. O título acabou, levando junto a predisposição especulativa da editora.
O lançamento de 1602 surfa, então, nessa onda comercial de explorar a curiosidade dos fãs. Um dado a mais a ser considerado em sua concepção é a disputa pelos direitos autorais de Miracleman entre Neil Gaiman e Todd McFarlane. 1602 não era um projeto original, o primeiro topou escrever a história para custear o processo legal pelo qual passaria, vindo a vencer em fevereiro de 2004. Por fim, há que se levar em conta quais personagens estrelariam a história, que fossem representativos o suficiente para merecer estar ali e coerentes com a época em que estariam inseridos. São frutos desse painel as principais qualidades e problemas de 1602.
Por exemplo, se Neil surpreende ao conseguir encaixar um Demolidor disfarçado de menestrel, cego, acrobata e com radar, sem causar estranhamento em pleno século XVII, o mesmo não acontece com os X-Men originais, chamados não de mutantes, mas “sangue-bruxos”, e perseguidos pela Inquisição (ao invés de Sentinelas). Ora, se a Inquisição foi metade do terror que a história tenta transparecer, gente com asas ou capaz de disparar raios pelos olhos provavelmente iria para a fogueira antes de chegar a idade de virar super-herói. No entanto, a cena do Anjo aferroado a grilhões numa masmorra está entre as mais marcantes do primeiro número.
Há uma sacada brilhante do roteiro ao separar em times opostos os mutantes e agentes secretos da rainha Elizabeth - gente dotada de poderes extraordinários ou ligada à magia, como o Dr. Estranho (aqui, médico particular da corte) -, do Grande Inquisidor (um Magneto disfarçado? Pouco provável) - ligado aos católicos rei da Espanha e a James I, da Escócia (que seria responsável pela notória tradução da Bíblia). É Gaiman fazendo o que Gaiman faz de melhor: infestar historinhas de suspense ou terror com referências culturais, eruditas, históricas, multiplicando-lhes os significados.
Cumpre notar que nem sempre ele acerta a mão: se um Peter Parker sem poderes mostra-se mais interessante do que se poderia imaginar – e uma das grandes graças da história é ficar tentando adivinhar quem é quem na adaptação – há situações em que um personagem praticamente não sofre mudanças na sua transposição história. O caso mais claro é o dos já citados X-Men (ao menos nos pouparam de ver o Wolverine no século XVII), mas isso acontece também com o Dr. Destino. Além disso, há o problema da verossimilhança: se, nos tempos modernos, a presença de seres super-poderosos já cria uma quizumba federal no mundo, nos tempos da Contra-Reforma, um deles seria quase imbatível, se não fosse pra fogueira antes...
É de se perguntar, também, o quanto a editora interferiu no trabalho do escritor, na hora de escolher quais seriam os protagonistas, os coadjuvantes, os vilões e quais estariam liberados para Gaiman viajar em cima, dado a desigualdade dos resultados. Nada, entretanto, que impeça o leitor de aproveitar a rara habilidade com que se manipula a gramática dos quadrinhos, em perfeitas composições de página, ritmo (de espionagem) e diálogos – só deixou devendo até agora uma daquelas catárticas cenas de ação onde o pau come solto.
Andy Kubert escolhe um traço mais elaborado do que as simplificações estilísticas que adotara quando desenhava o Demolidor, com direito a belo trabalho de figurinos e locações, mas mostra que não se livrou de clichês visuais da produção mensal (Dr. Estranho e Nick Fury têm o mesmo rosto, por exemplo), e ainda deixa um pouco a desejar nas fisionomias. É criticável, mas dado o plantel atual da Marvel, com pouca gente competente o suficiente para dar conta do recado, tornou-se uma das melhores opções custo-benefício da editora. Valoriza-lhe a arte a bela pintura digital de Richard Isanove, em semitons e jogos de cor raros de se encontrar mesmo numa mini-série bem cuidada como essas. Arrisque-se.
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