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Mera coincidência
Por Celso Antonio Almeida — Quarta, 2 de junho de 2004
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"Tim" é um nome engraçado para um herói de quadrinhos. Mas Tim Hunter não é um herói de quadrinhos comum.
Na verdade, quando nós encontramos Tim(othy) pela primeira vez, na minissérie original Os Livros da Magia, ele tinha apenas 12 anos e era um garoto inglês comum que gostava de fazer manobras no seu skate. Mas então ele encontrou o mago mais politicamente incorreto da Inglaterra, John Constantine, que tinha de decidir se matava o jovem Tim ou ensinava a ele as artes mágicas, já que o garoto estava destinado a ser um dos maiores magos da era moderna e precisava de alguém que o orientasse. Felizmente, Constantine opta pela segunda alternativa.
A princípio, Tim acha Constantine muito estranho e não quer nem saber desse negócio de magia. E o caro leitor poderia culpá-lo? Mas, finalmente, ele decide conceder a Constantine o benefício da dúvida.
Constantine então começa a ensinar o garoto. Ao longo dos quatro primeiros números da série, Tim aprende muito sobre magia, encontra personagens estranhos, maravilhosos e terríveis e se dá conta de seu destino. Ele se apaixona e sofre grandes perdas, toma decisões ruins, toma decisões ainda piores, e praticamente ferra com tudo. Mais ou menos isso.
E, ainda assim, Os Livros da Magia consegue ser uma das melhores histórias já contadas pelos quadrinhos atuais. Nós temos um moleque comum jogado no meio de circunstâncias extraordinárias, nós o vemos sofrer, triunfar e interagir com uma enorme gama de seres mágicos. Somos apresentados aos muitos mundos de Tim Hunter, as outras realidades que o jovem mago cria antes de ser capaz de usar seu poder para o bem ao invés de para o mal. Bem, às vezes também para o mal, na verdade. Mas ele é jovem, não é? E quem não comete alguns errinhos na juventude?
Criado pelo mestre Neil Gaiman (que, junto com Frank Miller e Alan Moore forma a Santíssima Trindade dos quadrinhos adultos), também criador do memorável Sandman, Tim trilhou um longo e pedregoso caminho nos seis anos em que tomou conhecimento de sua herança na inteligente, estilosa e inovadora minissérie que deu início a tudo. Ele é, por assim dizer, um Harry Potter um pouquinho mais vivido - sempre convém lembrar, no entanto, que Tim Hunter já nos espantava com suas incríveis aventuras metafísicas muito antes de J.K. Rowling ter se sentado naquele café para escrever Harry Potter e a Pedra Filosofal.
Semelhanças superficiais à parte - "garoto comum se torna mestre da magia e descobre que é um nome famoso entre os outros bruxos" -, Tim não é Harry. Pois, enquanto os livros de Potter são direcionados para crianças (apesar de termos muitos adultos aficionados pelo bruxinho), Os Livros da Magia não são "recomendados para adultos" à toa. Não é a violência, o mal, o ódio ou a destruição que faz desta uma série de quadrinhos não voltada para as crianças, entretanto - podemos ver tudo isso em Harry Potter. Não. É a solidão. Tim se torna tão isolado por causa de seu poder, tão privado de quaisquer contatos ou emoções humanas verdadeiras que ele é, na verdade, uma figura trágica. Ele perde sua família, seus amigos, sua própria identidade, tudo isso enquanto tenta descobrir quem é... e evitar ser destruído por si próprio (ei, estamos falando de quadrinhos. Você tem de estar preparado para encontrar clones e versões alternativas de outras dimensões. É praticamente a regra).
Acabo de saber que um filme de Os Livros da Magia está previsto para 2006. Mal posso esperar. Até lá, quem não tem Tim Hunter, caça com Harry Potter.
E, afinal, "Harry" não é um nome engraçado para um herói?
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