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Os vilões que (não) queremos – Parte II
Por Rafael Cardoso — Quarta, 2 de junho de 2004
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Na última semana fiz uma análise sobre os vilões clássicos que andam sumidos dos quadrinhos. Mostrei como é possível usá-los, aperfeiçoá-los e ainda assim não perdermos a essência dos mesmos. Esta semana gostaria de analisar tudo que é feito com e para os vilões que definitivamente não funciona (apesar deles insistirem em fazer).
Mas o que é um vilão? Segundo o dicionário, é alguém “baixo”, “desprezível”, mas analisando do ponto de vista de quadrinhos eu creio que a palavra que melhor o define é “antagonista”. O melhor vilão é justamente aquele que representa tudo que o herói combate, o antônimo perfeito de seus ideais. O melhor exemplo disso é o Coringa, que representa a loucura usada para matar, destruir, ou seja, para gerar a morte, enquanto o Batman usa sua “loucura” para salvar, proteger a vida.
Então, por que essa idéia de fazer vilões mudarem de lado? Pode funcionar como é o caso de Feiticeira Escarlate e Mercúrio, mas é certamente uma fórmula que deve ser usada com muita sabedoria. Quem gostou de ver Magneto, Dente de Sabres, Venom virando a casaca? Ora, num bom roteiro, heróis e vilões podem ter interesses parecidos e lutar lado a lado, principalmente se for uma questão de sobrevivência, mas mudar de lado? Convenhamos.
Quem realmente achou legal ver o Dr. Octopus salvando o Aranha? Ou o Erradicador protegendo o Super com sua vida? É claro que existem histórias em que isso funciona. As histórias finais de Harry Osborn foram ótimas. Por um lado, vemos um Duende Verde querendo destruir o Homem-Aranha, mas por outro seu amigo Harry quer salvá-lo. Note que o Duende continua querendo matar e destruir seu inimigo, mas é Harry que faz a diferença. Esta é uma história boa. Nada de Harry dominando o Duende e lutando lado a lado com o Aranha (arght!!!).
Ok, nada de vilões trocando de lado (salvo raras exceções)! Outra coisa que me irrita muito é o uso desnecessário dos vilões, principalmente os famosos. Ora, toda vez que Darkseid aparecer deve exigir um grande evento e uma grande intervenção. Vocês não odeiam ver Galactus a cada dois meses? Poxa, o cara é o devorador de mundos! Com esta freqüência, logo não vai sobrar o que devorar...
No meu último artigo, apoiei o uso de vilões clássicos, mas o amadurecimento dos quadrinhos já nos provou que não necessariamente toda história precisamos de um super vilão diferente. Cada um deles deve ter um motivo interessante e muito especial para realizar seus planos. Cada um deve ser um grande desafio para os heróis e perigoso à sua própria forma. Cada um deles deve fazer a diferença ao aparecer. Cito o caso do Coringa, que já matou um Robin, aleijou uma Bat-moça e recentemente matou a mulher do comissário Gordon, ou seja, é um cara que até o Super teme... Afinal, quem não disse “aleluia” ao ver o Magneto, Mestre do Magnetismo, destruindo Cable e arrancando o adamantium de Wolverine? A idéia de arrancar o adamantium foi péssima, mas o respeito que o senhor Magnus recebeu foi sem igual. E de maneira inteligente demoraram bastante para voltar com Magneto, que já voltou para dominar Genosha. Nada mais merecido.
Nada de aparições excessivas então. Outra coisa que simplesmente irrita é o fato de não criarem mais vilões como antigamente. Parece ser algo fácil. Basta uma fantasia, um visual legal e poderes para afetar os heróis. Cadê a coerência? Se o Super-Homem é o mais poderoso do universo, como vemos ele apanhar a cada duas revistas da Liga da Justiça? Que espécie de lógica é essa, em que ora vemos vilões fracos que não dão nem para o começo e ora começam a chover ultra-poderosos vilões, que exigem ao máximo de nossos heróis? Queremos históricos melhores para os vilões. Não precisam ser apenas desculpas para ele ter virado um vilão (nada de melodramas), mas, sim, motivos pelos quais ele continua fazendo isso. Quais suas intenções? Por que ele sempre enfrenta o herói? Ele deseja matar o herói? Por quê? Ou o herói é apenas um incômodo a ser removido? Os escritores deveriam ter noção que é um vilão deveria ser algo memorável. Algo que arrepie a espinha dorsal dos heróis – e principalmente a dos leitores. Eles deveriam ser desafios à altura do personagem e não apenas em poderes, mas também em personalidade, objetivos e inteligência.
A coerência ainda entra na questão de continuidade das histórias. Se um vilão usou um plano, arma, etc., ele nunca mais irá usá-lo, certo? Errado! Ora, se determinado plano só falhou por causa de um fator externo, que só aconteceu naquele determinado momento, por que não usá-lo novamente? Se a arma foi quase capaz de vencer, por que não mantê-la e aperfeiçoá-la? Senão acabamos vendo vilões tipo "Macaco Louco", ou seja, que criam a estratégia do dia para tentar derrotar os heróis. Ora, veja o Capitão Frio. Ele tem sua arma de gelar e já quase derrotou o Flash inúmeras vezes. Eu admiro no sentido de que tem lógica ele continuar usando-a, mas acho que já estava na hora dele sacar que ela simplesmente não é o suficiente para vencer o “homem mais rápido do mundo”.
Certamente tem muitos outros tipos de vilões que odiamos no sentido pejorativo. Tanto que eles infelizmente surgem aos montes e também desaparecem na mesma velocidade. Devemos respeitar os vilões antigos e apenas adaptá-los para nossos tempos atuais sem deixar sua essência ser perdida, mas tal cuidado também ser tomado na hora de se criar um novo vilão. Ele deve realmente nascer para fazer a diferença, nem que seja para morrer e fazer o “campeão da justiça” se sentir culpado. Neste caso, deve entrar a coerência de não criarem vilões em excesso, pois certamente nem metade será tão interessante ou fará uma diferença significativa. Os autores devem saber fazer o equilíbrio entre histórias com vilões antigos, novos e histórias sem tais antagonistas. Usar o "cinza" para mostrar que muitas vezes os vilões podem estar certos e os heróis errados ou fazer desafios que não necessariamente envolvam um antagonista é uma outra boa opção, se não for usada em excesso. Assim, evitamos aparições normais, chatas e rotineiras. Queremos os vilões que realmente amamos odiar.
Rafael "o Coringa dá medo, mas o Magneto espanca" Cardoso
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