 |
Entrevista com Roberto Guedes, autor de Quando Surgem os Super-Heróis
Por Rafael Cardoso — Terça, 1 de junho de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Roberto Guedes, vencedor do prêmio Angelo Agostini por dois anos consecutivos como Melhor Editor, além de editar quadrinhos, lançou o livro Quando Surgem os Super-Heróis, em que ele conta inúmeras histórias dos bastidores das HQs. O livro praticamente não fala das histórias em si e inova tratando dos autores, de suas dificuldades, insipirações e traz casos e "causos" sobre inúmeros acontecimentos dentro e fora dos quadrinhos. Diante disso, o SoBReCarGa entrevistou o Roberto para saber de onde ele tirou esta idéia, e se teremos continuações.
SoBReCarGa - Vamos inverter um pouco e deixar o início de sua história para depois. Vamos direto ao ponto que os leitores realmente querem saber. Qual a emoção de publicar um livro SOBRE quadrinhos? É uma emoção maior do que publicar uma revista DE quadrinhos?
Roberto Guedes - É difícil dizer. Muita gente já veio me dizer que meu texto parece um bate-papo entre amigos, e creio que é verdade. Escrever sobre quadrinhos é como bater um papo descontraído sobre futebol e rock'n'roll na mesa de um barzinho, pois curto muito escrever (e falar) sobre quadrinhos. Já escrever uma HQ, envolve uma outra metodologia de trabalho, em que, às vezes, de uma forma mais subjetiva, podemos transmitir nossa visão particular do mundo. O interessante, para mim, seria poder atuar simultaneamente e com a mesma intensidade nas duas formas. Infelizmente, entretanto, a produção nacional de HQs continua aquém do desejado...
Como e quando surgiu a idéia de publicar um livro que fala sobre os bastidores dos quadrinhos, ao invés do enredo das histórias?
Exatamente pelo fato de que não existia um livro assim por aqui. As obras existentes geralmente trazem informações sobre a história dos personagens - que são importantes, claro, mas que a maioria dos leitores já sabem em maior ou menor grau. Agora, falar sobre as motivações dos criadores, suas dificuldades, enfim, sobre os bastidores dos quadrinhos é algo muito importante, até para entendermos melhor aqueles personagens que tanto gostamos e a indústria dos quadrinhos como um todo. Tomando como base os comentários das pessoas que leram Quando Surgem os Super-Heróis, acho que acertei na mosca!
Ainda falando sobre os profissionais dos quadrinhos, no que tange a criação de heróis temos grande falta de originalidade. Você acha que todas boas idéias foram esgotadas? É possível criar heróis interessantes que não apelem para sucessos já existentes?
Há vários roteiristas de super-heróis hoje em dia que fazem um trabalho de qualidade: Kurt Busiek, Brian M. Bendis, Kevin Smith etc. O problema maior é que as cronologias dos universos Marvel e DC se transformaram em verdadeiros "monstros" que acabaram destruindo a individualidade dos personagens. Nos anos 60, quando o Hulk encontrava o Aranha, era um evento sem igual! Daqueles que eram comentados em rodinhas durante meses. Hoje é algo banal. Heróis como Super-Homem possuem várias equipes criativas (cada uma para um título). O roteirista "A" não pode, por exemplo, "matar" o Jimmy Olsen, pois o roteirista "B" está fazendo uma história em que Olsen está em outro planeta. Todo mundo tem que seguir uma diretriz pré-estabelecida, Deus sabe por qual editor idiota. Personagens como o Hulk, o Demolidor, e até o Homem-Aranha do Universo Ultimate - onde seus autores só tem de se preocupar com o andamento daquele título - andam tendo mais sucesso. Quanto à criação de novos heróis, creio que os autores não estejam muito dispostos a ceder suas idéias às grandes editoras, pois, além destas tomarem para si as criações (é assim que funciona por lá), eles talvez sonhem em editá-las por alguma editora independente, onde, em teoria, terão mais liberdade criativa.
O mercado japonês de mangá tem uma renovação constante de personagens, já que as histórias sempre tem fim. Assim, também há uma valorização maior dos autores. Algumas séries americanas, como Preacher e Sandman, seguiram o mesmo caminho. Você acha que esta é a melhor opção ou a perda de certos ícones, como Super-Homem, Batman e Homem-Aranha, seria por demais traumática?
Eu creio que dá para fazer as duas coisas. Por que pararam com as graphic novels? Elas eram a resposta americana para os álbuns de autor dos europeus. Por que não incentivar mais as minisséries? Elas agem como os mangás, já que completam uma história em si mesmas. Agora, como você mesmo afirmou, Homem-Aranha, Batman e Super-Homem são ícones da cultura pop ocidental, ou melhor, mundial! "Matá-los" é como querer apagar o Rolling Stones da história do Rock! Não dá, né?
Com as novas tecnologias, você crê que os quadrinhos de papel estão condenados? OU a concorrência com os vídeo-games e principalmente com a internet deverá exigir dos quadrinhos uma adaptação? Estas novas tecnologias podem ser benéficas para os quadrinhos?
A tecnologia digital já vem sendo usada em benefício dos quadrinhos há algum tempo. As cores e o letreiramento por computador, por exemplo, agilizam bastante a produção das HQs. As editoras se beneficiaram disso também. Hoje, é possível imprimir uma revista sem o uso do maldito fotolito, que é caro pacas, influindo no custo final da publicação. Quanto a concorrência com outras mídias, não acho que seja uma luta inglória. É tolice pensar que, com o aparecimento de outras formas de entretenimento, os quadrinhos acabarão sumindo. Quando inventaram a TV, também vieram com essa conversa. Depois veio o videocassete, e agora, o DVD. É mais uma questão das editoras se adaptarem às novas (e menores) tiragens, e continuarem tocando o barco. Na Bienal do Livro deste ano, pude perceber que as pessoas - e não estou me referindo aos colecionadores mais fanáticos -, gostam muito de quadrinhos. Elas tem carinho pelos personagens e procuram passar esse sentimento para seus filhos. O que pega é o preço alto de capa e a falta de tempo dedicado à leitura.
E as constantes adaptações de quadrinhos para o cinema? Será que o cinema tende a financiar os quadrinhos ainda por um bom tempo ou será apenas uma febre?
Geralmente, um filme de super-herói que faz sucesso costuma trazer novos leitores para os gibis. O problema é que quando esse novo leitor vai ler o gibi, ele não encontra o mesmo personagem que assistiu na tela, daí, ele desiste de vez dos quadrinhos. É uma questão complicada. Acho que as revistas deviam trazer, em algum lugar, na 2ª ou 3ª capa, sei lá, um resuminho da origem do personagem, alguma espécie de sinopse que situasse o leitor que estivesse acabando de chegar. Alguém já disse que "todo gibi é o primeiro gibi de alguém"...
Agora, conte a nossos leitores sobre sua história. Qual foi a sua primeira revista em quadrinhos? E como você começou a se envolver neste mercado?
Meu primeiro gibi foi um do Fantasma, por volta de 1974. Mas o que me fisgou mesmo, foi a 2ª edição de Namor, editado pela Bloch Editores. A revista trazia duas histórias escritas e desenhadas por Roy Thomas e Sal Buscema. Fiquei maluco, e no mesmo dia, comprei os gibis de Hulk, Demolidor e Mestre do Kung Fu - que nunca tinha ouvido falar. Dias depois, li minha primeira história do Homem-Aranha, que era escrita pelo Stan Lee e desenhada pelo Steve Ditko. Foi uma experiência, digamos, "transcendental". E disse: "Eu quero fazer isso também!" Com apenas 10 anos, já fazia meus próprios gibis utilizando folhas de caderno escolar, ora com os heróis Marvel e DC, ora com minhas próprias criações. Não chegavam a ser fanzines, pois eu não os comercializava - embora, certa vez, um primo meu tenha comprado algumas edições. Em 1988, eu estava com 22 anos e vendi minhas primeiras HQs para o editor Gilberto Firmino da GED. Foram meus primeiros trabalhos profissionais.
Conte em detalhes como é trabalhar diariamente com quadrinhos. Existe uma fórmula para você entrar neste mercado tão restrito, ou melhor, "o-que-o-leitor-fanático-por-quadrinhos-deve-fazer-para-trabalhar-com-aquilo-que-ele-ama"?
Trabalho é trabalho em qualquer lugar. Tem os momentos de tensão e chateação como em qualquer escritório ou repartição pública da vida. A diferença, pelo menos para mim, é que realmente faço o que gosto. Mexer com quadrinhos sempre foi meu sonho, mas ainda não realizei tudo que desejo. Longe disso. Agora, para entrar no meio... não sei se existe uma "fórmula" para entrar no mercado. Eu simplesmente mandei uma carta para o Firmino - que editava a revista Porrada - dizendo que escrevia e desenhava quadrinhos. Na própria seção de cartas, ele me convidou pra dar um pulo na editora, e... bem, eu fui! Hoje, de certo modo, está mais fácil. Tem e-mail, site, reuniões de fãs e Fest Comix. O cara pode meter uma pasta embaixo do braço e ir conversar com os editores. Se não pintar nada, ele ainda pode fazer um fanzine, se auto-editar. O que não dá é ficar em casa resmungando, pensando que alguém vai bater na porta e chamá-lo pra desenhar o Wolverine. O cara tem de ser insistente, sem ser chato, claro. Ah, e fanatismo não é um bom conselheiro também. O cara tem de ter mente aberta e saber ouvir. Às vezes não dá para realizar, e principalmente, nem ganhar de cara aquilo que tanto sonhamos.
Você tem outros livros a respeito de quadrinhos para publicar? E histórias em quadrinhos, alguma previsão? Conte a nossos leitores um pouco a respeito de seu personagem "Meteoro" e o futuro dele.
Sim. Estou com dois projetos em andamento. Um, naturalmente, será sobre a "Era de Bronze" dos super-heróis, seguindo a linha de Quando Surgem os Super-Heróis. O outro, prefiro não falar nada por enquanto, para não estragar a surpresa. Quanto ao Meteoro, eu o criei em 1987, quando cursava a Escola de Artes Cândido Portinari. Foi nesse ano que consegui completar toda minha coleção de Homem-Aranha publicada até aquele momento. Eu também era apaixonado por outros personagens teens como Nuclear e Nova, e decidi criar uma série com esse apelo. Anos depois, numa visita à editora Phenix, o editor Tony Fernandes se encantou com a história e pediu para o desenhista Cláudio Vieira, que havia trabalhado no estúdio do Maurício de Souza, desenhar a origem do Meteoro. Infelizmente, a editora fechou as portas antes de publicar o Meteoro. Daí, o Tony me entregou as cópias das páginas e eu fiz uma revista independente, que durou alguns números. Em 2002, o Meteoro foi publicado no Almanaque de Quadrinhos nº 1 da Escala, que fazia parte do selo Graphic Talents. Os desenhos foram feitos pelo Marcelo Borba. Infelizmente, eu não tive acesso aos números de vendas do Almanaque, mas o fato curioso é que nos Fest Comix você é capaz de achar números atrasados de todas as edições do Graphic Talents, mas do Almanaque não. Sei lá...
Quem teve a oportunidade de acompanhar as seções de cartas das revistas independentes do Meteoro e de alguns fanzines que fiz, como o Gibilândia, pôde confirmar o carisma do personagem. Atualmente, eu reformulei o herói e contei com o talento de dois grandes artistas de envergadura internacional (Aluísio Souza e Júlio Cesar Zvir), que, inclusive, já tiveram trabalhos publicados em revistas como Lady Death e Shi. Estou só esperando o momento e o modo mais apropriado para lançar esse Meteoro "Ultimate", como costumo me referir a ele, brincando.
O Meteoro é um personagem com várias características bem clássicas, mas temos um paradoxo no Brasil. Por um lado, os quadrinistas brasileiros quase não investem em super heróis, mas por outro os leitores brasileiros preferem histórias de super heróis. Você acredita que haja espaço no mercado para histórias brasileiras de super-heróis? Poderemos ter outros sucessos como o de Holy Avenger, mas dentro do gênero dos super-heróis?
Acredito que sim. Só falta convencer as cúpulas editoriais disso. O problema é que, muitas tentativas de se produzir super-heróis brasileiros no passado, deram com os burros n'água, gerando essa desconfiança. Daí, surgem as teorias de que o brasileiro é cínico demais para fazer super-heróis, essas coisas. Balela! Se você for pesquisar a respeito, vai descobrir que o gênero super-herói era totalmente "alienígena" para alguns de nossos autores que se aventuraram em faze-los. Alguns autores simplesmente odiavam a temática. O que eu sempre digo para garotos que querem fazer quadrinhos é o seguinte: antes de mais nada, você tem de acreditar naquilo que está fazendo. Ponha paixão no seu trabalho. Isso é mais importante que a técnica. Um trabalho que só tem a técnica aplicada, que só vem no embalo do oportunismo, é um trabalho vazio, sem energia e as pessoas sacam logo isso. Por outro lado, um trabalho feito com paixão inspira todo mundo. Eu nunca li Holy Avenger, mas acredito piamente que seus autores fizeram aquilo com muita paixão.
Depois do abalo que os quadrinhos brasileiros sofreram com a retirada da Editora Abril do mercado, você acredita que o mercado tende a crescer? E os mangás? Continuarão despontando como sucesso de vendas ou toda aquela emoção inicial tende a diminuir?
A gente tem de parar com esse papo antagônico quanto aos mangás. Eles não são a razão da queda nas vendas dos comics tradicionais. Eu não conheço ninguém que tenha parado de ler Homem-Aranha pra ler Dragon Ball. No máximo, os mangás podem estar iniciando jovens leitores em sua leitura na frente dos comics, e é aí que as editoras americanas tem de se preocupar. Elas tem de buscar soluções que atraiam as crianças mais uma vez para os super-heróis. E até onde sei, a Abril está bem viva no mercado, com o fortalecimento de sua linha infantil, como Disney e Cartoon Network, além da revista Witch, que dizem, é um fenômeno de vendas. Nós nunca devemos torcer para que qualquer espécie de quadrinhos acabe. A indústria só se tornará forte com a concorrência aberta: quadrinhos italianos, mangás, super-heróis... e claro, quadrinhos brasileiros.
Agora, mande seu recado para seus fãs e para os leitores do SoBReCarGa falando o que esperar de sua parte.
Bem, eu agradeço muito a oportunidade e o espaço que vocês me deram e espero sinceramente que minhas considerações tenham sido de alguma valia para os leitores do SoBReCarga. E podem apostar numa coisa, estarei sempre disposto a promover as histórias em quadrinhos (de) e em nosso país... ¤
|
 |