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Um papo Nervoso
Por André Mansur — Segunda, 31 de maio de 2004
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Se você freqüenta shows no Rio de Janeiro com certeza conhece André Nervoso. Nem que seja de vista. Ou foi assistindo alguma apresentação de uma de suas ex-bandas (Beach Lizards, Acabou La Tequila, Matanza, Autoramas, Idols 77, Os Tremendões) ou mesmo na platéia, se divertindo, pogando como qualquer mortal.
Carioca natural de Jacarepaguá, este unipresente rapaz lançou no ano passado seu mais ambicioso projeto até então: um disco solo. Personalidade é um trabalho honesto e coeso, luxo de quem atingi um determinado estágio de maturidade musical. Lá você pode encontrar referências como Cocteau Twins, Nelson Gonçalves e Dead Kennedys - este, pagando uma homenagem explícita na capa do CD. A Visita, por exemplo, é uma música meio sambinha, meio jovem-guarda, de causar inveja a muitos medalhões da música brasileira. O mais engraçado é que se percebe também ecos de Los Hermanos no disco. Curiosamente uma das grandes influências assumidas de Los Hermanos é justamente o Acabou La Tequila, banda que Nervoso toca bateria. Ou seja, como se não bastasse, o cara ainda tem o mérito se retroalimentar artisticamente. Definitivamente, não é pra qualquer um.
E mal o disco começou a circular, Nervoso já está com um próximo álbum engatilhado. Chama-se Saudade das minhas lembranças (midsummer madness). Entre outras novidades o CD contará com a participação do (adivinha?) Rodrigo Amarante, guitarrista do Los Hermanos, na faixa Mais Justo, feita para o filho de Nervoso.
Em uma rápida conversa com o Sobrecarga, Nervoso fala sobre seu novo solo, sua paixão pela música e sua influências.
SoBReCarGa - Como andam as gravações do seu novo CD?
André Nervoso - O CD já está pronto. A capa está linda! Foi uma trabalheira finalizar este disco. Rodei vários estúdios de amigos e conhecidos. Fomos gravando o que dava tempo de ser gravado. Foi a prova viva de que existe muito tesão envolvido e que todas dificuldades podem ser superadas quando se acredita no trabalho e se está cercado de pessoas com uma energia canalizada ao positivismo.
E o que falta para ser lançado?
Dependemos da agilidade da fábrica e do pessoal do (selo) midsummer. A idéia é que seja lançado ainda no primeiro semestre. Mas nunca se sabe. Quem quiser dar uma conferida em algumas canções é só chegar na minha rádio em www.nervoso.art.br.
Já definiu qual faixa que ganhará o primeiro vídeoclipe?
Na verdade vamos acabar editando as duas, A Visita e Já Desmanchei Minha Relação. Depende dos amigos da produtora TV Zero, que estão dando essa força. O Léo Domingues fez o clipe mais recente do Los Hermanos (O Vencedor) e, junto com o Rodrigo Letier, vem trocando figurinhas com a banda. As idéias estão mais ou menos definidas. Promete...
No seu último informativo você criou uma expectativa sobre um tal de Milton Botelho. Quem é esse cara?
É um ufólogo e parapsicanalista que deve marcar presença em nossas vidas. Tem uma narrativa pra lá de interessante. Conhecemos num bar, logo após uma reunião que fazíamos para definir o roteiro do clipe. O cara apareceu do nada, defendendo uma tese louca sobre a presença extraterrena em nossas vidas. Ele faz palestras pelo Brasil afora com o intuito de abrir nossas cabeças! (risos). Mas o fato é que ele tem um papo muito bom. E o nome da música de uns dos clipes é justamente A Visita Ficamos loucos com isso e resolvemos mudar o roteiro do vídeo.
Você já passou por várias bandas importantes na cena nacional, tendo, inclusive, gravado diversos CDs por elas. Por quê tanto tempo para se lançar sozinho?
Sempre estive ocupado com outros projetos e a idéia de lançar minhas músicas acabava ficando pra segundo plano, ou melhor, ficava de lado mesmo. Mas, sempre compus em casa. Tenho muitas canções engavetadas. Volta e meia desencavo alguma e dou uma atualizada. Se demorei tanto tempo, foi por acomodação mesmo. Sempre fui apaixonado por todas bandas que passei, elas sempre tiveram prioridade. Mas, vivo o melhor momento artístico da minha vida e tenho plena convicção de que a coisa não vai parar por aí. Estou em constante aprendizado e busco sempre o contato com novas amizades.
E como foi lançar um disco sozinho depois de tanto tempo tocando com várias pessoas?
Na verdade, foi pirante, bicho. Não tinha a mínima idéia de como seria.
Tive que acreditar muito nessa onda. Foi um dos primeiros passos mais difíceis que já dei na minha vida! Conta-se com qualquer feedback das pessoas e quando não rola, é bem decepcionante. Não estou falando de elogios e sim de reações, sabe? Odeio indiferença. Digo isso pela necessidade de me situar também. O fato é que sou um apaixonado pela minha música e, felizmente, as coisas vêm crescendo bastante. Tem uma galera que está bem antenada com o trabalho, mas ainda é um começo que demanda muito suor e tempo.
Quando chegou na hora do "vamos ver" para a gravação do disco você ficou perdido no meio de tantas referências?
Bom, pra começar, as musicas do CD não foram gravadas no mesmo período. Eu estava sem grana e tive que produzir aos poucos. Com isso, pude me concentrar bem em cada música e bolar os arranjos em casa. Mas, muita coisa foi feita na hora da gravação. Foi loucura, bicho. Gravamos sem ensaio. Eu ligava pro Marcelo (Callado, o baterista do Carne de Segunda) e ele passava lá em casa. Fazia um cassete voz e violão, dizia mais ou mesmo o que eu imaginava e ele bolava algo em casa. Na hora de gravar saia tudo diferente do planejado. Em Bom Veneno, por exemplo, queríamos um clima bem Tom Waits, a musica pedia isso. Do lado do estúdio do Arnaldo Brandão tem uma oficina e acabamos levando quase que a carcaça de um carro velho inteiro para a sala de gravação. Microfonamos o bicho e ficou bem bacana. O que me atrapalhou mesmo foi a falta de ensaios. Toda riqueza e cultura musical só colaboram na hora de criar.
Aliás, existe algum estilo que você não gosta?
Putz, tem muita coisa que não rola no meu som. Metal farofão, tipo Poison, Motley Crue, Icon, Great White. Esses caras estão barrados lá em casa. Deixa eu ver... pagode paulista é podre. Tudo é podre nesses caras. Viu o Alexandre Pires chorando na frente do Bush? Argh!!! Tem aqueles raps enlatados da MTV, que não prestam mesmo. Sabe, né? Bandidão, carrão, mulheres peitudas, aquela mesma carinha de mau, os mesmo gestos, uma puta falta de personalidade. Deus me livre! Não é só pela música. Sempre levo em conta todo o conjunto. Clipes, atitude, capas de disco, imagens etc. Minha mulher está com essa mania de Proibidão mas também não tenho paciência. Ainda dizem que é o eletro brasileiro! Está longe disso. Prefiro me ligar mais no lado cômico do funk de morro. Aí dá pra se divertir. Tipo ir num baile, ver a galera agitando e cantando aquelas letras hilárias. A criatividade impressiona neste caso. Mas eu não coloco no meu toca-discos.
Você toca músicas de suas ex-bandas nos shows?
Só Solarização, que compus para o segundo disco do Acabou La Tequila (nota da redação: disco que sairá agora após 5 anos engavetados). De resto, material inédito e um cover ou outro.
Além de tudo isso, você ainda está em um novo projeto musical... É o Terminal. Um projeto eletrônico que venho desenvolvendo em parceira com o Jenner, do John mERRICK Experience. Temos umas idéias bizarras para trilhas, jingles e, em breve, uma apresentação ao vivo com nossas tralhas. Em breve estaremos no curta-metragem Ratoeira, do diretor Pedro Carvana. Em alguns dias, subirei com algumas faixas na minha rádio, enquanto o site não fica pronto. ¤
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