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Nós vimos: O Dia Depois de Amanhã
Por Douglas Donin — Quarta, 26 de maio de 2004
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Bem. Vamos aos fatos:
- O Dia Depois de Amanhã é um filme de Roland Emmerich, o mesmo diretor de Independence Day e Godzilla.
- O Dia Depois de Amanhã tem a Estátua da Liberdade no cartaz.
- O Dia Depois de Amanhã é um filme milionário de verão americano.
Tendo estes fatos na mão, eu poderia simplesmente enganar meu chefe aqui do SoBReCarGa. Poderia ficar em casa dormindo, não comparecer à sessão de cinema e mesmo assim fazer uma crítica até bem correta sobre este filme. Afinal, certas coisas em Hollywood não mudam nunca, mesmo...
Mas mesmo assim resolvi ir – afinal, pelo menos o lanche que servem para a imprensa no cinema é gostoso. Mas eu juro, logo que o filme iniciou, e que eu percebi que a primeira cena de O Dia Depois de Amanhã é um close na bandeira americana, considerei seriamente a possibilidade de voltar para casa e continuar dormindo. No entanto, dei mais um voto de confiança ao Sr. Emmerich, permaneci na poltrona e acompanhei o restante do filme.
E, se querem saber, não me arrependi: O Dia Depois de Amanhã é, sem sombra de dúvida, a melhor obra de Roland Emmerich (o que em momento algum chega a ser um grande elogio), uma realização primorosa em termos de efeitos especiais e – o melhor de tudo! - uma deliciosa constatação de que os americanos estão perdendo o medo de criticar abertamente as próprias burradas políticas.
Vamos ao nosso já tradicional resumo preliminar da obra: Jack Hall (Dennis Quaid, esforçado, mas carrancudo demais para ter algum carisma) é um meteorologista que descobre que a política ambiental dos Estados Unidos pode arrasar com o clima da Terra (grande novidade). No entanto, o governo americano, na Conferência sobre Aquecimento Global, o humilha, alegando que a economia americana é assunto prioritário frente a problemas menores, como a Iminente e Total Destruição da Humanidade.
O detalhe é que Jack descobre tudo isso na véspera do próprio fim-do-mundo, tarde demais para impedir a destruição da Terra. Sobra ao valente meteórologo tempo apenas para aconselhar o governo a evacuar os EUA, fazer as pazes com a mulher e salvar o seu filho, preso no meio do gelo na Biblioteca Pública de Nova York..
Aqui já entra a primeira surpresa positiva do filme: o governo dos Estados Unidos da América é o vilão. O vice-presidente é mal-intencionado e só pensa na economia, o presidente é uma barata tonta, os militares são inúteis. Nem parece um filme saído do mesmo forno de O Patriota.
Todas as catástrofes que pipocam no filme ocorrem devido à recusa dos EUA (e de outros países malvadões) a diminuir a emissão de poluentes, principalmente os derivados do petróleo. O Protocolo de Kyoto é mencionado nominalmente no filme, e ridicularizado pelo vice-presidente americano. Por isso mesmo, a natureza não é nunca retratada como má, como inimiga, mas sim, como uma força arrasadora que só foi solta pela nossa burrice.
E aqui entra a segunda surpresa positiva: não há vitória para a humanidade. Em momento algum do filme é feito um esforço para controlar as catástrofes, ou mesmo para diminuir seus efeitos. Todas elas, desde o início, são mostradas claramente como de proporções gigantescas, imensuráveis, incontroláveis. Só resta à humanidade sentar em algum lugar seguro – se é que há algum - e esperar a natureza fazer sua tão merecida vingança, para depois tentar recomeçar. Fica claro desde o início que as ameaças são grandes demais para que o cientista salve a Terra no último segundo com um plano mirabolante, ou para que o presidente americano possa as combater pilotando pessoalmente seu caça.
Só por estas duas qualidades, o filme já merece aplausos. Está certo, a história toda é bastante imbecil (o ápice da Era Glacial, um processo de dez mil anos, chega de surpresa e em dois dias), os fatos científicos são absurdos, mas o filme serve como um veículo de conscientização ambiental para o americano médio, que não deve nem saber o que “efeito estufa” ou “Protocolo de Kyoto” significam. E esta função didática ele cumpre, se pudermos dar o devido desconto e levar em consideração o fato de que este nosso americano médio não é exatamente um gênio.
Mas há outras qualidades, como os fabulosos efeitos especiais (que só decepcionam nas cenas dos tornados, e quando mostram os totalmente desnecessários lobos perseguindo os heróis), todos muito bem executados. A cena da inundação de Nova York é convincente, enervante e muito bem-feita. Mais para o final do filme, os efeitos ajudam a compor imagens impressionantes e belas sobre a imensidão das catástrofes.
Além disso, eu também poderia falar que a Emmy Rossum, a namoradinha do filho do herói, é a coisa mais lindinha que eu vi no cinema ultimamente, mas a minha namorada com certeza me mataria se eu o fizesse. Vamos, em vez disso, ao que o filme tem de ruim – já que nem tudo são flores.
Primeiro, temos um roteiro capenga como o Saci Pererê, cheio de balões desnecessários e informações descartáveis (como a ameaça de romance entre o colega de Jack, na verdade seu Obrigatório Sidekick Cômico, e a cientista japonesa, que estão ali só para justificar uma ou outra piada eventual), personagens sub-valorizados e que simplesmente somem lá pelas tantas (como o professor interpretado por Ian Holm), crescendos artificiais, enjoados e repetitivos, para enfatizar que a situação fica cada vez pior (“Isso acontecerá só daqui a cem anos!”/ “Me enganei, temos somente duas semanas!”/ “Meu Deus, os cálculos foram refeitos e mostram que temos 72 horas!”/ “Pessoal, a situação é grave: temos poucos minutos!”) e clichês tremendos, como a destruição/ molestação/ violação metódica e estratégica de símbolos típicos americanos, como aquele letreiro de Hollywood, a Estátua da Liberdade e o edifício da Chrysler, além de bandeiras americanas de todos os tipos e tamanhos. Ah, e claro, o chavão máximo de filmes no gelo, que envolve canivetes, cordas, gritos de “não faça isso” e pessoas caindo.
Outro defeito é a falta de um clímax adequado. A ação de verdade ocorre no primeiro terço, seguindo-se o restante em movimento de nítida desaceleração. Mas roteiro brilhante, coerência e originalidade é algo que não podemos cobrar de Hollywood em geral, muito menos do Roland Emmerich. Vamos julgar o filme pelo critério que realmente importa: ele diverte ou não?
Diverte. Bastante, até. O espectador eventual encontrará inundações, maremotos, tufões, furacões e toda sorte de tragédias e catástrofes que possa ser jogada contra a raça humana. Não falamos de um prédio pegando fogo, de um lagarto malvado que pisoteia maquetes, ou de um mísero barquinho afundando, mas sim, da destruição completa do hemisfério norte. Nisso, o roteiro chegou a níveis nunca alcançados por produções do gênero, tendo um Coeficiente de Catástrofe 12, em uma escala de 1 a 10. Fica difícil imaginar qual será o próximo passo de Hollywood na escala evolutiva dos filmes-desastre. Talvez rachar a Terra ao meio, ou apagar o Sol.
Concluindo, O Dia Depois de Amanhã é um filme até bem divertido, se você fizer o favor a si mesmo de deixar o cérebro com a moça que vende pipocas na porta do cinema. Vá preparado para um filme sem nenhuma profundidade aparente, simbolismos óbvios, mensagens ambientais mastigadas ao extremo e uma enorme dose de efeitos especiais de boa qualidade.
E, ao sair do cinema, alegre-se: talvez este seja o primeiro passo para uma era de filmes que conseguem ser ao mesmo tempo comerciais e críticos em relação ao papel dos Estados Unidos no mundo – cada um deles, claro, em seu nível de profundidade.
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