|
Walter Salles e o amor perdido
Por Tiago Cordeiro — Segunda, 24 de maio de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Che Guevara sempre foi uma das mais marcantes personalidades do mundo. Quem duvida, basta lembrar de quantos pessoas trajando a imortal foto do guerrilheiro em uma camisa ou de quantos políticos de esquerda o têm como referência. Fazer um bom filme sobre o mesmo não é tarefa para qualquer diretor e Walter Salles demonstra saber muito bem disso em Diários de Motocicleta.
Não me preocupei com a autenticidade biográfica sobre a vida de “Che” ao assistir Diários de Motocicleta. Muito mais importante do que ser um repeteco da vida do personagem principal, a maior importância de filmes que contam a história de pessoas que existiram é se aterem à sua essência. Diferente de outros diretores, Salles consegue descrever uma das figuras mais amadas do último século. Digo último, porque não acredito que mesmo pessoas da minha geração (sem entrar em detalhes, aqueles que têm entre 20 e 30 anos) possam amar e entender Che Guevara, como aqueles que foram jovens quando o comunismo e a revolução ainda eram uma utopia distante das torturas na Sibéria e do fuzilamento de opositores do regime castrista. Che ainda é admirado e reverenciado, mas não creio que com a mesma pureza de décadas atrás.
O amor perdido do título é um dos elementos que contribui para a trilha que Ernesto Guevara (Gael Garcia Bernal) segue. Com o rompimento (via caixa postal, quer jeito pior de tomar um fora?) de seu namoro (aliás, Mia Maestro podia ficar mais um pouco...) Che não tem mais nada que o prenda ao passado. Ninguém para quem precise voltar. O resgate desse amor não se dá através de uma nova amada, mas na pureza e paixão com que o futuro revolucionário defende todos os irmãos latinos com quem encontra.
Falar das belíssimas locações e figurino é perda de tempo. Salles repete a competência que sempre demonstrou em seus filmes anteriores e que o coloca como um dos mais talentosos diretores da atualidade. Não entendo quando dizem que Bernal é inadequado para o papel assim como Rodrigo Santoro em Abril Despedaçado. Certamente não tanto quanto Bernal, mas Che era um homem bonito por trás da barba e das armas. Não há razão para seu intérprete ser feio. Além disso, o ator mexicano desempenha com qualidade e comove tanto nos ataques de asma quanto na compaixão que seu personagem precisa apresentar. Rodrigo de La Serna (Alberto Granado) sabe dar força a um personagem, necessariamente coadjuvante, mas muito longe de ser uma nulidade. A malandragem de Granado o torna menos heróico, mas mais humano do que seu companheiro de viagem.
Longe de ser tão bom quanto Central do Brasil, Diários é a história de um aprendiz de revolucionário. De um homem que já era grande antes de se tornar aquele que realmente marcaria o mundo. Em busca não apenas de um amor perdido, mas de respostas para o que fazia o povo de seu continente sofrer tanto, Che ultrapassou as fronteiras da realidade e da ficção tornando-se o ícone de uma era. Diários de Motocicleta cumpre seu papel ao tornar o mito humano.
|