Divergências de Homero a Brad Pitt

Por Rafael Lima — Quinta, 20 de maio de 2004

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Espera-se que qualquer obra sofra adaptações ao ser transposta para outro meio, e não seria diferente com Tróia, baseado no poema épico A Ilíada, de Homero, que ora chega às telas dirigido por Wolfang Peterson. Ainda que o telão seja apropriado para dar a dimensão das batalhas campais ou da imensa frota naval grega, e se é uma delícia ter Peter O’Toole e Julie Christie encarnando Príamo e Tétis, é um castigo ter Brad Pitt vivendo Aquiles ou espantar-se com as inúmeras divergências em relação ao mito clássico de Homero (além do que, como já foi bem observado, os gregos do filme têm cara de irlandeses). Antes, porém, uma observação: a Guerra de Tróia não é história, é um mito, e como tal, não tem versão oficial, registrando-se fontes tão distintas como Homero, Ésquilo, Eurípides e Apolodoro. Desnecessário lembrar que daqui pra diante vão pintar revelações sobre o filme.

Logo no começo, vemos Páris e Heitor, príncipes de Tróia, como convidados de Menelau em Esparta, cumprindo missão diplomática entre os dois reinos. Paris acaba seduzindo e abduzindo Helena em descuido do rei. Trata-se de uma leitura bastante pé-no-chão da lenda pela qual Paris fizera jus ao amor de Helena como pagamento de uma promessa de Afrodite, a deusa da beleza. A questão aqui é que o roteiro optou por eliminar completamente a presença e intervenções dos deuses gregos na história. Se por um lado isso mina o teor mais sobrenatural da narrativa, por outro a abordagem escolhida revela-se interessante, ao mostrar os homens como crentes ou infiéis a deuses que, no fundo, não sabem se existem. Isso é particularmente bem explorado no comportamento suscetível a profecias do rei Príamo.

Também é de se estranhar a completa incapacidade bélica de Paris, uma vez que no filme dá-se a entender que ele é irmão de Heitor e fora criado no reino desde pequeno. Na lenda grega, seu destino de causador da tragédia troiana fora vaticinado quando criança, levando-o a ser isolado no campo e criado como pastor, o que explicaria a falta de treinamento militar (a pouca idade não seria justificativa, afinal Pátroclo aparece aprendendo esgrima e aparenta ser da mesma idade que Paris). Se ele fora criado no reino, por que não recebera treinamento?

Ajax e Ulisses ocupam papéis desproporcionalmente reduzidos na narrativa cinematográfica. O primeiro mostra seu valor de guerreiro em inúmeras batalhas durante a ausência de Aquiles, além de ser responsável por resgatar o corpo daquele guerreiro após a morte – no filme, apesar de caracterizado corretamente como um gigante bravo, Ajax morre na primeira oportunidade... Já Ulisses é o principal estrategista grego, um homem de táticas brilhante a ponto de merecer poema dedicado só a ele, a Odisséia, no mito grego, enquanto no filme aparece pouco (até o decano Nestor fala mais do que ele a Agamenon) e assume uma personalidade esquiva, muito mais para um político do que arguto estrategista. Ao menos, é dele a notável frase de que “na guerra, os velhos discutem e os jovens morrem”. Se não lhe coubesse a idéia do cavalo oco, mal seria lembrado.

A relação de Aquiles com Briseida (ou Brises) nas telas corresponde a uma condensação e adaptação do muito que ocorre na narrativa original. A escrava é, de fato, sacerdotisa do templo de Apolo e tomada como cativa por Aquiles, que não chega a se apaixonar por ela em momento nenhum – era apenas um tesouro de batalha. Na verdade, Aquiles viria a se apaixonar apenas por Polixena, uma troiana, bem depois, por ocasião da trégua que os reinos estabelecem para os funerais de Pátroclo e Heitor, durante a qual acabaria levando-o, também, a ser flechado mortalmente por Paris (portanto, Briseida incorpora elementos de Brises e Polixena). Devido ao evidente apelo comercial, optou-se por deslocar o foco narrativo para Aquiles, que de guerreiro brutal transforma-se em soberano vingativo, generoso e até dado a filosofias nas horas vagas. Difícil imaginar que alguém que tenha arrastado um inimigo de guerra como Heitor, atado à sua biga, por três vezes ao redor dos muros de Tróia, e mais outras três ao redor do túmulo de Pátroclo, fosse dado a pensamentos filosóficos...


Apesar desses desvios, e de vários detalhes do mito terem sido ignorados (o sacrifício de Ifigênia, o alerta de Lacoonte), a Ilíada só é rasgada ao meio mesmo após a entrada do cavalo em Tróia. Menelau não morre na batalha final; sobrevive e retorna com Helena ao seu reino. Helena não foge com Paris, que também perece no incêndio de Tróia. Aquiles não morre nesta ocasião, porém antes, durante o período de trégua, por conta da flechada traiçoeira de Paris. Em suma, tentaram amarrar as pontas mandando a fidelidade pras cucuias. Mas se fizeram isso com o Homem-Aranha, que só tem 40 anos de mito, por que não iriam fazer com um poema de 3 mil anos de idade?




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