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Mel Gibson carrega sua cruz
Por Marco Tomazzoni — Quarta, 8 de outubro de 2003
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O calvário (a expressão não poderia ser mais adequada) que envolve o último filme do ator e diretor Mel Gibson parece não ter fim. The Passion continua provocando polêmica e, mesmo pronto, ainda não tem distribuidor garantido.
A produtora de Gibson, a Icon Productions, preferiu não procurar compradores e aguardar propostas, mas, segundo matéria da revista Newsweek, aparentemente nenhum estúdio apareceu. A Icon teria mostrado interesse em fechar negócio com empresas menores, que, como teria dito um executivo de Hollywood, “não teriam nada a perder”. É verdade – empresas como a Disney, por exemplo, não suportariam ser alvo de boicotes ou protestos, movimentos que The Passion anda arrecadando.
No momento, a Newmarket, responsável por Amnésia (Memento), estaria cotada para assumir a bronca. Outros dois estúdios independentes, o Lions Gate e a Miramax (que de pequenos não têm nada), também teriam mostrado interesse. A Icon, contudo, ainda não chamou nenhum deles para a mesa de negociação.
Em último caso, a hipótese da própria Icon distribuir o filme não é descartada. A empresa já é responsável pela distribuição dos filmes de Gibson na Grã-Bretanha e Austrália, e poderia aos trancos e barrancos bancar o lançamento nos Estados Unidos.
A polêmica
Membro de um grupo católico ultra-conservador, Mel Gibson tinha o sonho de contar da maneira mais realista possível as 12 últimas horas da vida de Jesus Cristo. Para tanto, baseou-se nos diários de Anne Catherine Emmerich (uma freira que tinha visões da vida de Cristo) e no Novo Testamento, seguindo os evangelhos de Lucas, João, Mateus e Marcos. Para tornar a adaptação ainda mais fiel, todos os diálogos são em aramaico ou latim, línguas consideradas mortas. Detalhe: os US$ 30 milhões do orçamento saíram do bolso do astro, que co-escreveu o roteiro. Tamanha rigidez tem rendido boatos de que o ator teria enlouquecido.
A grande polêmica é que os paranóicos de plantão – cuja maioria ainda não assistiu ao filme – alegam que a obra de Gibson estimula o anti-semitismo. Tanto membros da Igreja Católica quanto da comunidade judaica temem que o público passe a encarar os judeus como os assassinos de Cristo e que promova o preconceito. Quem participou de exibições de teste, no entanto, garante que, apesar de muito violento, o trabalho é ótimo e digno de respeito.
O Vaticano, pelo menos, já deu seu parecer. No mês passado, o cardeal Darío Castrillón Hoyos, prefeito da Congregação para o Clero, deu uma entrevista em que conclamava a população italiana a assistir The Passion. “Este filme é um triunfo da arte e da fé. Será uma herança para explicar a pessoa e a mensagem de Cristo. Estou seguro de que ajudará todos os que o vejam – tanto cristãos como não-cristãos – a ser melhores.” O cardeal também rebate as críticas preconceituosas. “O anti-semitismo, como toda forma de racismo, distorce a verdade a fim de denegrir toda uma raça de pessoas. O filme não faz nada disto. Baseado na objetividade histórica dos relatos evangélicos faz surgir sentimentos de perdão, misericórdia e reconciliação.”
O trailer divulgado pela Icon é, de fato, emocionante e muito bonito. Jim Caviezel (Olhar de Anjo, O Conde de Monte Cristo) está perfeito como Jesus – seu sofrimento na cruz é evidente. O elenco ainda traz Monica Belluci como Maria Madalena e a romena Maia Morgenstern como Maria. Satanás é interpretado por uma mulher, a italiana Rosalinda Celentano.
A intenção da Icon Productions é de promover a estréia do filme nos Estados Unidos antes da Páscoa de 2004 e pouco depois no restante do mundo.
Última informação: Mel Gibson está construindo uma igreja tradicionalista em Malibu, Califórnia, para que os cerca de 70 membros de seu movimento (que não reconhece a autoridade do papa) possam freqüentá-la. Os cultos dominicais serão ministrados em latim.
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