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Nós vimos II: Tróia
Por Ana Camila — Quinta, 13 de maio de 2004
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Mais do que uma surperprodução
Eu estava ansiosa para ver esse filme. Além do fato de o Brad Pitt ser muito bonito e excelente ator, a história da guerra de Tróia é fascinante, como quase tudo relacionado àquela época da história desse mundo.
Fui assistir sem esperar muita coisa, até porque não tinha a menor idéia da sinopse e achei que o filme se limitaria a contar a história como ela foi mesmo. O que me interessava eram as imagens, a reprodução da época, o cavalo de Tróia, a atriz que faria Helena, essas coisas. Mas o filme consegue se impor e ser alguma coisa além do que se prevê.
Tróia está centrado basicamente na figura de Aquiles, claramente baseado na Ilíada de Homero. Aquiles foi um dos heróis mais significativos da história da Grécia e é constantemente recordado em função de seu calcanhar vulnerável. Essa história mundialmente conhecida através dos séculos foi adaptada para as telas de forma admirável, com boas atuações (nem todas, é fato) e uma direção correta.
O pior erro que um filme épico-histórico como esse pode cometer é querer explicar a história, em vez de apenas narrá-la. É difícil que os diretores e roteiristas optem pela decisão ousada de contar a história baseando-se na suposição de que as pessoas a conhecem. É uma decisão ousada, sim, mas a mais correta. Quando o filme se torna explicativo demais, acaba cansando e desviando se seu real objetivo.
Tróia não comete esse erro. A história da famosa guerra de Tróia é narrada linearmente e aos mais profundos moldes hollywoodianos. O fio condutor é o “roubo” de Helena, esposa de Menelau, por Páris, príncipe de Tróia. Nesse sentido, o filme explora a relação de amor dos dois, com cenas românticas e declarações de amor, tudo dentro de um roteiro conciso, sem desvios ou apelações. A partir daí é narrado todo o processo da guerra de Tróia e seus principais acontecimentos: a personalidade geniosa de Aquiles, a sua relação com Agamenon; a morte do primo (que na verdade nem é primo) de Aquiles por Heitor, por engano; o rapto e romance entre Aquiles e Briseida; a flecha envenenada que, disparada por Páris, acertou o calcanhar de Aquiles etc.
O melhor do roteiro é não explicar o que se considera óbvio: contar a história do calcanhar de Aquiles, narrar a decisão de se pôr em prática o plano do cavalo, ser demasiado detalhista na relação entre Aquiles e Agamenon, enfim. O filme tem cotação altíssima por conseguir fazer isso de forma que a história não perca sua coerência, e ainda com belíssimas imagens que fascinam os espectadores.
As atuações são um ponto à parte. Brad Pitt deu vida a um Aquiles arrogante, sarcástico e lindo. A beleza do ator é estonteante e deu um toque especial a todo o conjunto estético do filme, que também contou com uma Helena digna da sua fama de mais bela mulher – a atriz Diane Kruger. Entretanto, alguém precisa dizer ao Eric Bana que ele é péssimo ator. Seu desempenho em Hulk já não foi lá essas coisas, e em Tróia, no papel de Heitor, está muito, muito ruim. Até o inexpressivo Orlando Bloom se saiu melhor interpretando o príncipe Páris, que tomou uma conotação covarde e babaca.
A direção de arte e a fotografia, como não poderiam deixar de ser, são quase impecáveis. A reconstrução de cenários, as frentes de batalha, os figurinos, tudo em seu perfeito lugar. É difícil encontrar problemas num filme que tem proposta tão clara e condições de colocá-las em prática. Os personagens históricos mitológicos foram respeitados em sua essência e construídos para completar um roteiro sem firulas, preciso e teso.
Provavelmente, Tróia não vai receber os créditos que merece, por estar inserido num contexto de marketing amplamente criticado. Vai ser considerada apenas mais uma “superprodução hollywoodiana”. Mas poucas vezes eu tive o prazer de assistir a um filme tão bem produzido e sem excessos sobre um episódio histórico.
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