O novo equívoco do Walter Salles

Por Ana Camila — Quinta, 13 de maio de 2004

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O que há de estranho no novo filme do cultuado diretor brasileiro Walter Salles?

Confesso que adoro seus filmes, que O Primeiro Dia está na lista dos grandes nacionais que já assisti, que Terra Estrangeira é talvez o melhor dele, bem encostado no grande Central do Brasil. Walter Salles sempre soube aplicar bem o monte de grana que tem e isso só faz bem pro cinema brasileiro. Ainda que Abril Despedaçado não tenha feito jus aos seus grandes sucessos anteriores – é um filme cheio de problemas e equívocos, mas ainda razoável, não é das piores coisas feitas no Brasil – é sempre uma boa notícia saber que o Salles está com um filme novo.

Mas dessa vez, alguma coisa aconteceu. Diários de Motocicleta é fraco. Muito fraco. Como todos já devem saber, trata-se de contar em imagens a trajetória de Ernesto Guevara e Alberto Granado pelos países da América Latina, a fim de conhecer essa “grande América dividida”, seu povo, sua cultura. Um road movie, eu pensei, logo nos primeiros momentos. E eu adoro road movies. Pois era exatamente isso, pelo menos até a metade da projeção.

Um road movie é um tipo de filme instigante. O público se sente ali, viajando com os personagens, conhecendo novos mundos a partir do cinema. É muito bom. E eu estava até gostando de Diários... quando pensei que fosse assim. Bem ao estilo E Sua Mãe Também, do Alfonso Cuarón, dois amigos saíam para descobrir o mundo e acabavam conhecendo a si mesmos. O filme do Walter Salles começa como uma espécie de crônica. Narração em off, piadinhas entre amigos, situações inusitadas que nos fazem rir e nos divertir. Uma premissa leve, não tanto segura, mas leve. Talvez seu grande mérito seja o de prender a atenção do espectador de imediato.

Mas então começam os problemas. A motocicleta não pára de cair (quando a piada já não fazia mais graça), havia muitas passagens engraçadinhas e que, no fim das contas, estavam ali por pura distração. E, logo depois, estava na tela, quase que de repente, aquele que viríamos a conhecer como Che Guevara. Um tímido Che, é verdade, com seus ideais brotando de um corpo e mente jovens. Mas foi tudo muito de repente.


A razão desse estranhamento é bem simples. Sabe-se que Diários de Motocicleta queria mostrar um Ernesto antes do Che, as situações que o levaram a pensar como pensou em sua vida de revoluções. Uma proposta coerente, muito clara. Mas não é o que se vê no filme. O que se vê é um puro e simples road movie, divertido e com dois personagens carismáticos, atravessando um continente em busca de diversão, de aventuras. Talvez o filme tivesse sido bom se continuasse assim.

Porém, o que se vê são dois jovens que, por causa de duas, três situações e/ou pessoas que encontram na estrada, mudam quase radicalmente suas visões acerca do mundo. Sendo um deles Che Guevara ou não, ali era um personagem que precisava de um pouco mais de obstáculos (para usar uma determinação dos manuais de roteiro) para passar por uma transformação. A impressão que eu tive o tempo todo foi a de que o filme queria exatamente relatar, expor essa transformação. Mas aí eu me pergunto: por que, então, passar mais da metade do filme mostrando os personagens em meio a aventuras engraçadinhas, com mais tom de crônica que qualquer outra coisa, quando, na verdade, a intenção era falar do grande homem que foi Che Guevara, de seus ideais políticos e sociais?

Problema de roteiro. Simples. Quando se demora tanto tempo pra chegar onde quer, é um problema de roteiro. Faltaram pausas dramáticas, obstáculos precisos modificadores, um montagem mais concisa. Foi tudo devagar demais no início e rápido demais no final.


Afora isso, eu acho o Gael Garcia Bernal uma graça, mas por que diabos o escolheram como o Che? O rosto e a aura do Che Guevara são mundialmente conhecidos e, de repente, estava ali aquele menino pequeno, pouco expressivo, representando o revolucionário. Não funcionou. Ainda mais inserido na visão de road movie que o filme oferece em sua primeira parte, onde só se é possível enxergar dois jovens se aventurando, onde o Gael nunca tinha aquela aura, aquela imagem do Che.

Não é a primeira vez que Walter Salles comete esses erros. Em Abril Despedaçado, contratou Rodrigo Santoro para um papel que não lhe cabia. No meio do sertão, a beleza do garoto destoava não só dos outros personagens, mas de todo o clima do filme. Santoro é um bom ator, assim como o Gael, mas estavam no papel errado, equivocado. E antes que digam qualquer coisa, a estética no cinema é uma das coisas mais importantes.


Outro erro foi a proposta que atribui ao filme e o seu diferente resultado. Salles declarou que queria de Abril um filme universal, que pudesse causar identificação em qualquer lugar do mundo. É mais do que claro que ele não conseguiu. O filme se passa no sertão baiano e não se pode dissociar a imagem e nem o local da situação. Ninguém em Nova Iorque vai se identificar com o filme. Em Diários, o diretor quis falar sobre o que levou Che a ser quem foi. Ele já começa o filme muito distante desse objetivo e quando percebeu já era tarde. O filme tinha que terminar e não havia mais tempo. Então jogou na tela um novo Ernesto, cheio de ideais que plantou no dia anterior.

Além disso tudo, o filme passou a, perto do fim, congelar fotografias do povo que os dois viajantes conheciam. Fotografias congeladas e em preto-e-branco, aquela velha indecisão entre ficção e documentário. Não só a indecisão, mas o clichê mal administrado fizeram dessa escolha mais uma prova da fraqueza do filme.

Diários de Motocicleta tenta, mas não convence, não emociona, não atrai, pouco documenta. Seria um bom road movie se não se preocupasse em insistir na documentação. Seria um bom filme sobre o jovem Ernesto Che Guevara se não tivesse esse ar de road movie que sustenta quase toda a película. Walter Salles não sabia qual das duas opões escolher. Escolheu as duas e errou. Um erro feio.




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