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A Tróia do Brad Pitt
Por Luiz Eduardo Ricon — Quinta, 13 de maio de 2004
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Tróia é um clássico.
Não um clássico como vocês estão pensando, mas sim um clássico no sentido futebolístico.
Afinal, a guerra entre gregos e troianos ou o duelo entre Aquiles e Heitor há milhares de anos cumprem a mesma função que um Fla-Flu, um Palmeiras e Corinthians, um Atlético e Cruzeiro ou um bom Grenal: são uma verdadeira catarse, para milhares de espectadores.
Na verdade, esse filme pode até não agradar a todos.
Podem dizer por aí que Brad Pitt aparece pelado de mais (ou de menos). Podem dizer que o roteiro é uma boa adaptação ou uma grande salada. Podem dizer que a Helena de Tróia é linda ou inexpressiva. Podem até dizer que o filme faz referências demais (ou de menos) à guerra no Iraque.
O que ninguém pode dizer é que Tróia é um filme que se pode deixar de assistir.
Não vou contar a história toda. Para isso vejam o filme, leiam a Ilíada ou a excelente adaptação em quadrinhos do Eric Shanower, já indicada pelo Eloyr.
O que eu queria comentar aqui são algumas das escolhas do roteiro, que me chamaram a atenção.
Tróia é obviamente uma história sobre a guerra que uniu os povos gregos, antes dispersos, sob a liderança do rei Agamenon (meio caricato no filme) e que forjou a base para a nação grega, que fundou a ocientalidade. Foi ali que tudo começou.
Porém, Tróia não é uma história sobre uma guerra, mas sobre a guerra, sobre o ato de guerrear.
Sobre o que está verdadeiramente por trás (ou na base) dos conflitos entre as nações. Sobre as verdadeiras razões para se fazer uma guerra. Sobre se existem razões que justifiquem uma guerra. Sobre o que há de humano e desumano na guerra. Sobre se a guerra é um jogo político entre reis e generais ou um drama mortal para os soldados. Sobre o que é ser um soldado. Sobre o que é ser um herói. Sobre coragem e covardia. Sobre vencedores e vencidos. E certamente sobre muito mais do que isso.
Homero podia ser cego, mas enxergava como ninguém a alma humana.
Quase todas as questões referentes ao drama humano e social de uma guerra estão presentes na Ilíada. E aparecem no filme, só que de um jeito hollywoodiano.
A única coisa que faltou, e que é uma das maiores, mais estranhas e mais incômodas alterações da história original foi a referência à guerra que nunca termina, que é vendida como uma operação rápida e “cirúrgica” e se transforma num longo e amargo pesadelo. Tróia, Paraguai, Vietnam, Iraque... mera semelhança? Aqui a ausência é bastante reveladora.
Aquilo que na Ilíada demora anos e anos para acontecer, no filme se resolve em poucos dias ou semanas. Como se na antiguidade um rei pudesse passar um fax ou email convocando seus aliados, convencendo-os a se engajar e armando o maior teatro de guerra da História no intervalo de tempo que leva para uma birreme ir de Esparta a Tróia. Ou como se uma guerra que se arrastou por mais de 10 anos subitamente se resolvesse no tempo que leva para o Brad Pitt vestir (ou despir) sua armadura.
Tirando isso de vista, o filme é ótimo.
Os atores estão todos muito empenhados. Eric Bana ganhou de presente o melhor papel e está convincente e comovente como o correto e heróico Heitor. Orlando Bloom (apesar da recaída “élfica” que resolve o fim do filme) deixa para trás a Terra Média e dá veracidade e fragilidade ao seu imaturo e fútil Páris. Sean Bean, como sempre rouba a cena, dessa vez como Odisseus (Ulisses), deixando a gente com vontade de ver a Odisséia com ele reprisando o papel. Peter O'Toole é um verdadeiro leão, engolindo a todos quando entra em cena e dividindo com Brad Pitt um dos diálogos mais emocionantes do filme, numa cena que já merece um Oscar.
A reconstituição histórica de Tróia e dos reinos gregos põe a Roma de Gladiador no chinelo, impressionando sem ser escandalosa ou carnavalesca.
Mas esse é um filme de guerra, e tem muita gente que quer ver é “porrada”! Para esses, as cenas de batalha estão no meio termo entre os close-ups intimistas ou as câmeras tremidas de Riddley Scott e as majestosas tomadas panorâmicas e os exércitos de CGI de Peter Jackson. O uso das armas (espadas, lanças etc) é bastante convincente, renovando um gênero que parecia esgotado. Por força do treinamento, da direção e da coreografia, a gente sai realmente convencido de que Aquiles foi o maior guerreiro que já existiu, com grande destaque para o seu duelo com Heitor.
E se não bastasse tudo isso, Tróia já seria um grande filme simplesmente por explicar, à luz do mundo de hoje, a compelxa motivação e a personalidade de um herói como Aquiles. Afinal, se ele não seguia o rei Agamenon, se não se julgava ofendido como Menelau e nem se identificava com as demais nações da Grécia, porque diabos decidiria liderar seus temíveis e invencíveis Mirmidões na ofensiva contra Tróia?
A busca de Aquiles acaba sendo a mesma busca dos heróis da atualidade, na era da mídia, dos reality shows e das celebridades instantâneas. No filme, Aquiles não luta pelo que é certo ou por aquilo em que acredita.
Ele luta pela glória, pela fama. Luta para que seu nome não seja esquecido, para que ele ainda esteja por aí depois que seus 15 minutos se forem.
Nada mais atual. Nada mais clássico. Nada mais trágico.
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