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75 anos
Por Rafael Lima — Quinta, 13 de maio de 2004
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O que o camundongo Mickey, o marujo Popeye, o repórter Tintin e Tarzan, o homem das selvas têm em comum? Todos eles apareceram em sua versão definitiva para os quadrinhos há exatamente 75 anos, três quartos de década, adentrando o seleto grupo dos personagens de Hq mais longevos de todos os tempos.
Curiosamente, nem todos apareceram como protagonistas, nem foram criados diretamente para os quadrinhos: Mickey surgira no desenho animado Steamboat Willie de Walt Disney, o primeiro com som da história do cinema. A idéia inicial de Walt era chamar o ratinho de Mortimer, mas sua esposa sugeriu Mickey e ele foi rebatizado, chegando às telas já com esse nome. A Ub Iwerks, que décadas depois viria a criar o design clássico do submarino Nautilus para o filme 20.000 Léguas submarinas, coubera a concepção gráfica do rato.
Tarzan fora criado por Edgar Rice Burroughs para livros de pulp fiction, aventuras da época vitoriana, na mesma linhagem de homens dotados de capacidades extraordinárias como Sherlock Holmes, Doc Savage ou John Carter; a adaptação para os quadrinhos ficara a cargo de Hal Foster, respeitando o texto original. Popeye veio como um personagem coadjuvante na tira Thimble Theater, desenhada e escrita por Elzie Segar, mas pouco a pouco se apossaria do enredo e do nome da tira. Apenas Tintin fora criado diretamente para os quadrinhos pelo belga Hergé, ainda um ilustrador aspirante a profissional.
Embora Disney viesse a diversificar suas atividades, bem no começo a mira eram os desenhos animados, com os quadrinhos servindo de suporte para fortalecer qualquer personagem que se destacasse. Assim foi com Mickey, que começou tendo aventuras humorísticas nos mesmos moldes da telona (como o Pato Donald, como Pateta...) mas só desencantou ao passar a ser roteirizado e desenhado por Floyd Gottfredson e Paul Murphy, ambos “fantasmas” de estúdio, que fizeram do rato um investigador policial durão, de chapéu e sobrecasaca, trabalhando em casos ao lado do Coronel Cintra e tendo o Pateta por improvável auxiliar. Mais do que o carro vermelho ou a pistola automática, a imagem símbolo dessa época é a do Pateta com ar de perdido e mão em direção da boca. Disney faria de Mickey o símbolo maior de seu império, transformando as orelhas redondas num dos itens mais vendidos me seus parques de diversão.
Tarzan faz parte da geração de personagens literários que serviu de modelo para a criação dos super-heróis, décadas depois. Super-Homem e seus companheiros de capa e de cruz foram todos diluições para os quadrinhos dos feitos do Sombra, Tarzan e demais heróis de seriados radiofônicos e literatura barata. Assim, a primeira transposição dele para os quadrinhos teve importância singular ao avançar no caminho que levaria ao gênero típico daquele meio, que expandiria suas fronteiras. Hal Foster, que se notabilizaria futuramente pelas páginas do Príncipe Valente, optou por uma adaptação sóbria, sem balões, com o texto ao pé dos quadros. Burne Hogarth, que manjava tudo de anatomia, é quem ficaria conhecido por desenhar o Tarzan, mas foi Foster quem fez o trabalho duro que cabe aos pioneiros.
Popeye foi o verdadeiro pulo do gato de Elzie Segar, um inspirado escritor e desenhista de humor contratado pelo magnata William Hearst, como tantos outros a integrar o elenco estelar do King Features Syndicate. Com temperamento esquentado, modos grosseiros e coração imenso, o marinheiro de cara amassada tomaria de assalto a preferência dos leitores, ocupando posição central na tira. Thimble Theater, no entanto, não se resumia a isso: tinha viagens a países exóticos (muito antes de Carl Barks fazer o mesmo com o Pato Donald), seres mitológicos ou bizarros (sereias, harpias, “goons” e o feio Eugene the Jeep, que batizaria um modelo de carro de guerra, igualmente feio), diálogos cortantes e hilários, onde ninguém tinha papas na língua, e personagens absolutamente amorais com cujos comportamentos os quais o leitor se identificava. Fez tanto sucesso que ganhou uma estátua, em homenagem dos fabricantes de espinafre enlatado.
Apesar das orelhas do Mickey, dos filmes do Tarzan e da estátua do Popeye, talvez nenhum deles tenha alcançado tanta glória quanto Tintin, que transcendeu a condição de personagem de quadrinhos para se converter em ídolo e orgulho nacional de seu país, a Bélgica. Georges Remi – que tirou seu pseudônimo das primeiras letras de seu nome – criou um adolescente enxerido para um periódico católico numa história francamente anticomunista, Tintin no País dos Soviéticos. Depois levou-o para o Congo, então colônia belga, e só começou a se desvincular do molho ideológico da época a partir da aventura na China, para a qual pesquisou usos e costumes orientais antes de colocar pena sobre papel. Nem isso o impediu de continuar espetando de maneira mais ou menos sutil as idiossincrasias de outros países, com generais sulamericanos golpistas, criminosos gregos ou cantoras de ópera italiana, nem esses estereótipos o impediram de ganhar versões em dezenas de línguas – talvez porque os leitores do mundo inteiro se identificassem com eles. Com o tempo, Hergé transferiu os trabalhos de produção para um estúdio de excelentes artistas belgas, que emergiram num mercado alavancado quase solitariamente por ele; aposentou o personagem e passou a viajar pelo mundo, colecionando prêmios de excelência e troféus por onde quer que passasse. Hoje, em Bruxelas, Tintim ocupa lugar de honra no Centre Belge de la Bande Dessiné, o principal museu de quadrinhos belga.
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