Nós vimos: Tróia

Por Douglas Donin — Quinta, 13 de maio de 2004

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Épico em escala Homérica


Depois de três mil e duzentos anos, o cinema finalmente recebe uma versão luxuosa da famosa Guerra de Tróia. E põe luxuosa nisso: além de ser uma das produções mais caras já feitas, Tróia reúne um elenco estelar, que conta com Peter O’Toole, Brad Pit, Sean Bean e Orlando Bloom – só para citar um terço. Tróia, também, é um dos filmes com maior número de ganchos para trocadilhos idiotas para resenhas por metro quadrado, como “Tróia é um verdadeiro presente-de-grego” e “Brad Pitt é o calcanhar-de-Aquiles do filme”. Mas não se preocupem: ao contrário de certos colegas da imprensa especializada, adeptos a clichês batidos e fáceis, prometo que não utilizarei nenhum destes chavões imbecis nesta análise.

No entanto isto terá um preço: esta será uma crítica altamente inconclusiva. Infelizmente, não poderei dizer se Tróia é um bom ou mau filme – esta conclusão só você pode tirar. Assistir ao épico de Wolfgang Petersen (Força Aérea Um, Na Linha de Fogo) pode tanto trazer uma excelente experiência cinematográfica – meu caso – como pode trazer nada além de bocejos e monotonia – caso de vários presentes na sessão.

É uma questão de responsabilidade, para não acabar frustrando ninguém. Posicionando-me integralmente a favor do filme - o que eu me sinto profundamente inclinado a fazer - posso levar várias pessoas meramente interessadas em batalhas, sangue, ação ou em Brads Pitts pelados às salas de cinema, e estes espectadores mais superficiais sairiam com certeza decepcionados com a lentidão, duração e falatório do filme. No entanto, ressaltando seus aspectos negativos, posso afastar do mesmo espectadores mais atentos, capazes de se identificar com os personagens palpáveis e seus problemas, e principalmente, de neles enxergar o modo falho como reagimos às situações difíceis, privando-os de um épico profundo (muito mais do que a imensa maioria dos filmes do gênero, como o raso-como-um-pires Gladiador), emocional e humano.

Para encurtar a história, o filme mostra a guerra entre Agamenon (Brian Cox, vilanesco como só ele sabe ser) e Príamo (Peter O’Toole, magnífico como sempre), reis de Esparta e Tróia. Agamenon lidera a aliança grega para a conquista da cidade inimiga, o que lhe daria completo controle do Mar Egeu, utilizando a esfarrapadíssima desculpa de resgatar a bela Helena (Diane Kruger), esposa mal-amada de seu irmão Melenau (Brendan Gleeson). Já Príamo luta para manter protegida a rainha fugitiva no interior das muralhas da cidade, junto de seu filho Páris (Orlando Bloom).

Mas é nos dois maiores combatentes de ambos os lados que a história do filme é realmente centrada. Do lado dos gregos, o orgulhoso Aquiles (Brad Pitt, que, embora esteja formidável, destoa do conjunto), um lutador sanguinário e invencível, aclamado como o maior guerreiro de sua época, faz de tudo para ter seu nome definitivamente gravado na história. Já o sábio e racional Heitor (Eric Bana, excelente), filho de Príamo, luta para manter a cidade de Tóia e sua família a salvo.

O filme é baseado na obra de Homero, A Ilíada. Baseado, e não uma transposição fiel, embora as liberdades do roteiro sejam compreensíveis e não desagradem os amantes do clássico. Por muito tempo, o conto da guerra entre as duas nações foi considerado apenas uma obra de ficção, uma alegoria criada pelo poeta grego. No entanto, pesquisas arqueológicas revelaram que Tróia realmente existiu, e que toda a saga descrita por Homero teve um fundo de veracidade. É esta veracidade, e não a versão ficcional, que Wonfgang Petersen busca, trazendo certos fatos para um plano mais realista (o cerco de Tróia, na Ilíada, dura cerca de dez anos, um absurdo militar para a época, já que o exército grego não teria como se manter tanto tempo em campanha fora da terra natal, a qual seria assolada pelos hititas na sua ausência. Já, no filme, dura um pouco mais de quinze dias) e valorizando a humanização dos personagens.

“Humanização?”, você poderia argumentar. “E um guerreiro poderoso como Aquiles é por acaso humano?”

Paradoxalmente, sim. Todos são muito humanos. Aquiles, um guerreiro invencível, verdadeiramente um super-homem no campo de batalha, é no íntimo inseguro e indeciso, e lança-se à guerra de maneira suicida esperando que a glória que a história possa lhe trazer supere a infelicidade de uma existência solitária, vazia, rude e sanguinária. O momento onde Aquiles chora sobre seu inimigo, após encontrar Príamo, é o momento onde verdadeiramente o conhecemos, e é quando percebemos que o guerreiro Aquiles, o Aquiles invencível, é uma mera máscara.


Mas é no trio Príamo-Páris-Heitor que reside a profundidade e a beleza real da história de Homero, e o brilho do filme de Petersen. O velho rei não pode fazer nada senão assistir, passivamente, seu reino e sua família serem destruídos como conseqüência das atitudes impulsivas e apaixonadas de seu filho Páris e de Helena. Peter O’Toole, para quem elogios nunca são demais, demonstra o amor e a condescendência que o rei possui pelo filho em cada gesto e olhar – mesmo tendo ele desencadeado, por motivos pessoais, uma guerra que consumirá a vida de milhares de pessoas.

Páris, por sua vez, age com a firmeza de um titã na hora de tirar Helena de Menelau, e jura os atos mais bravos em nome da amada. Mas quando precisa colocar em prática tudo o que fala, acaba por mostrar-se fraco e covarde. Covarde, mas não indigno: não há como não se identificar com o desespero de Páris quando busca socorro no irmão mais velho, e não há como culpá-lo. Páris é, no fundo, apenas uma criança, capaz de cometer besteiras estratosféricas em nome da paixão – como cada um de nós já cometeu. Aqueles que, movidos pelo trailer, julgam que Orlando Bloom está apenas repetindo o papel do elegante elfo barra-pesada Legolas (sim, ele usa arco) estão muito, mas muito enganados.

Já Heitor é quem, talvez, tenha mais a perder no conflito. Um bom e dedicado marido, que volta para casa para finalmente viver uma vida de paz junto da esposa e do filho recém-nascido, Heitor é o melhor personagem do filme, com absoluta certeza. Eric Bana, recuperando-se do infelizmente compreensível fracasso comercial de Hulk, cria um personagem cativante: sábio, racional, paciente e piedoso, bom filho, pai e marido. Heitor é um poço de sensatez, que deve suportar sobre os próprios ombros o peso das ações precipitadas do irmão – mas que nem por isso deixa de amá-lo.

No elenco também estão a péssima Saffron Burrows, com a sua típica expressão de... Saffron Burrows, e o sempre bem-vindo Sean Bean, o Boromir de O Senhor dos Anéis, como Ulisses (personagem principal de A Odisséia, seqüência de A Ilíada). Este, infelizmente, com pouco destaque.

No entanto, até aqui não contei nenhuma novidade: tudo o que disse não são exatamente méritos de Petersen, mas sim, elementos do texto original de Homero. Na verdade, o roteirista David Benioff e o diretor Wolfgang Petersen haveriam de ser muito infelizes ou equivocados para, de posse de um material tão poderoso e fantástico como “A Ilíada”, produzirem uma bomba. Então por que tanta gente não gostou do filme?

Como eu disse anteriormente, a força deste filme está justamente no texto do poeta grego, cujas partes essenciais foram mantidas intactas. A guerra, o sangue e os combates são apenas um pano de fundo para mostrar como um simples ato impulsivo de paixão pode arrasar duas nações e milhares de vidas, se aliado à falta de bom-senso e à estupidez humanas. Uma vez que você esteja fechado para este tipo de divagação, uma vez que se recuse a analisar a esplêndida profundidade de cada personagem, não sobra muito, mesmo.

Por abrir mão de elementos fantasiosos ou de pirotecnia desnecessária, as batalhas de Tróia são apenas medianas (embora as lutas de espadas sejam claras e empolgantes, bem diferentes de certas obras picaretas que fragmentam as lutas em flashes frenéticos e irritantes), e a ação desenrola-se em um movimento ondular, com uma queda do ritmo no final. E isso pode desagradar muitos espectadores com sede de sangue e lutas, que se queixarão do excesso de espera para lutas curtas, ou de que “a batalha acabou logo quando estava ficando boa”.

Da mesma forma, os diálogos podem parecer artificiais e atrapalhar a credibilidade da história para os que não estão acostumados com o estilo de oratória antiga. Neste caso, lembrem-se: estamos falando de um épico, e um épico grego ainda por cima. Não esperem linguagem do Bronx. E se alguém ao seu lado, ao ouvir frases como “eu te amo, irmão”, ou ao ver um pai beijar a testa de um filho, começar com piadinhas ou risadinhas, instrua-o a parar de assistir Casseta & Planeta, para seu próprio bem.


Outra coisa que pode irritar ou desviar a sua atenção é o uso de... sim, eles mesmos, clichês, a peste bubônica do cinema moderno. Em algumas cenas é possível adivinhar as próximas falas dos personagens, já outras parecem também indicar uma nítida “inspiração” em outros filmes, principalmente O Senhor dos Anéis, como a chegada dos gregos às muralhas de Tróia (tomada arrancada cruelmente de As Duas Torres).

Mas isso tudo não desmerece a grandiosidade de Tróia e beleza do texto de Homero. Embora existam falhas inegáveis, ou melhor, vícios, o filme de Petersen é uma produção assombrosa, gigantesca, um verdadeiro épico capaz de fazer por este gênero bem mais do que fez o monodimensional Gladiador. Tróia é um filme que deve ser visto, muito embora, por suas qualidades e seus defeitos, não vá agradar a gregos e troianos.

Oh, droga, juro que este trocadilho escapou!




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