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Esquecimento no cinema
Por Celso Antonio Almeida — Segunda, 10 de maio de 2004
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Esqueça-se, memória. Os porquês dos filmes sobre esquecimento.
As películas populares recentes sobre perda de memória levantam a pergunta: isso é algo a se temer ou aproveitar?
O boom recente dos filmes a respeito de perda de memória (e a popularidade destas obras) faz nascer em mim uma curiosidade quixotesca. Por que a idéia de perder a memória fascina tanto a muitos de nós? Indo além da amnésia padrão das novelas, o conceito de esquecimento imiscuiu-se profundamente no cinema. De ingênuas comédias românticas como Como se Fosse a Primeira Vez a suspenses de ação (o leitor me perdoe se acabo de criar um gênero cinematográfico) como A Identidade Bourne, uma fixação epidêmica sobre recordação é inegável. Por que o conceito de esquecer-se tornou-se tão caro para os roteiristas contemporâneos e um dos favoritos das audiências modernas?
Talvez o 11/9 seja a fonte do recém-descoberto vício do cinema (norte-americano) pela perda de memória, uma rebelião subliminar contra uma cultura voltada à recordação de eventos dolorosos, um esforço para fazer sentido face a uma crise existencialista redescoberta. Ou quem sabe os anos dourados dos baby boomers seja uma explicação possível: talvez o medo da senilidade ou do Mal de Alzheimer de uma grande parcela da população esteja refletido na ansiedade destes filmes.
Estas elucubrações levam à inevitável pergunta: somos ansiosos com relação à perda de memória? Ou estes filmes nos mostram que buscamos prazer na liberdade infantil (no bom sentido do termo, de "inocente") da recordação?
Certamente Amnésia ilustra bem o sentimento de pânico que acompanha a amnésia perpétua. Quanto da identidade de uma pessoa fica preso na teia da memória tem sido um debate filosófico e neurológico por décadas. A curiosidade humana é parte daquilo que teólogos, filósofos e humanistas afirmam que nos distingue de nossos companheiros peludos e sem polegar opositor, e nossa necessidade/desejo de saber é sempre o tema central dos mitos da criação. Mas, de Prometeu à Eva, o conhecimento revela-se como sendo um presente inexplicável, que sempre vem junto com a responsabilidade do adulto e a incapacidade humana de suportar essa responsabilidade. Nosso desejo de saber acaba nos levando à derrota por causa do nosso débito com a história, e a ação implicada nisso, que vem como o preço da iluminação. Assim, nossa relação com o conhecimento, e, por extensão, com a memória, é ambígua.
Se a questão se resume aos deveres dos adultos, então o ainda mais ambíguo Freud é a autoridade no assunto. Em termos freudianos, nós poderíamos ver a obsessão com a perda da memória (e a ansiedade que essa perda parece provocar nos personagens dos filmes) como o representante de nosso medo da vulnerabilidade ou de um retorno à dependência total da infância, apesar de nosso desejo inconsciente de ter uma segunda infância. De O Vingador do Futuro (que, admito, não é o melhor exemplo de um filme recente) a Amnésia, há uma noção real de que a memória serve como um mecanismo de defesa contra aqueles que (ainda retendo suas memórias) tirariam vantagem de nós. O truísmo ressurge: conhecimento é poder. Se perdermos nossa capacidade de recordar, perderemos grande parte de nossa humanidade e identidade.
No mais recente destes filmes sobre esquecimento, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, nós vemos o apagamento das experiências em ação. O processo é descrito como uma aventura, metade pesadelo, metade fantasia. E, no melhor estilo de Kaufman, a mente é a paisagem mais colorida possível. Neste filme vemos a ansiedade provocada pela perda de controle acarretada pela outra perda, a da memória. As pessoas encarregadas de apagar as memórias alheias são sempre mostradas como abusando desse poder - em Brilho Eterno, Kirsten Dunst e Mark Ruffalo ficam doidões e dançam nus em cima de Jim Carrey, usando-o praticamente como cinzeiro no processo, enquanto os momentos pessoais dele com Kate Winslet são apagados; o personagem de Elijah Wood tenta usar as afeições abandonadas de Kate para si próprio; e o bom doutor por trás de tudo tira vantagem das memórias do caso que teve com sua recepcionista.
Pode ser, entretanto, que a popularidade do esquecimento nos filmes seja apenas sintomática de nosso interesse maior (de qualquer modo profundo) no mundo do interior psicológico.
Filmes como Amor Além da Vida, Clube da Luta e Uma Mente Brilhante poderiam ser adicionados ao gênero esboçado acima, se for o caso. Mas estes filmes representariam a totalidade deste gênero? Nós somos uma cultura com fixação pela mente há muito tempo, e há algo inexorável, desordenado e um pouco enervante a respeito da memória em particular que desafia nossas tentativas de rotular os outros como “normais” ou “loucos”. Os mortos em Amor Além da Vida são lançados no precipício da insanidade desde o começo, mas o mais importante é que eles não são nós, porque eles estão mortos. O matemático de Uma Mente Brilhante é um gênio esquizofrênico, assim ele é o “outro” por duas razões: ele é esquizofrênico e ele é um gênio (acho que não sou o único não-gênio que é parte do público cinéfilo). Mas os personagens dos filmes recentes sobre amnésia são comuns e afáveis, ou seja, refletem as pessoas normais. Seus medos e desejos estão assim mais perto dos nossos próprios e não é tão fácil deixá-los de lado.
A idéia principal dos roteiros de Hollywood que vem à tona em todos estes filmes é a de que a liberdade de memória é a liberdade de ser feliz e ainda manter a própria identidade. Enquanto a curiosidade dos personagens parece paradoxalmente aumentar na proporção direta do quão pouco eles se lembram, eles permanecem completamente eles mesmos apesar de sua visão fragmentada do passado. A amnésia de Drew Barrymore, renovada diariamente, representa de muitas maneiras a melhor fantasia de todos os personagens deste gênero, se apaixonando e nunca perdendo essa sensação de novidade que se desvanece inevitavelmente dos relacionamentos mais longos do que um dia. Em Brilho Eterno, Mary se apaixona pela figura paterna do psiquiatra (Wilkinson), e Clementine se sente imediatamente atraída por Joel. O personagem de Matt Damon retém até suas habilidades em kung-fu e conhecimento de armas de fogo em A Identidade Bourne (como também acontece com Schwarzenegger em O Vingador do Futuro). Leonard Shelby, de Amnésia, tem o privilégio de criar sua própria realidade diária, tornando-se um herói dentro de sua própria mente, embora possivelmente seja na realidade um bandido.
Vamos seguir esta linha de raciocínio: suspenda a descrença quase ao ponto do absurdo para fingir que estes filmes populares são extremamente intertextuais e são verdadeiramente emblemáticos de um fenômeno sócio-psicológico. Que diferença isso poderia possivelmente fazer?
Essa é realmente a questão, não é? Nós não temos o luxo do esquecimento, que é o que nós todos gostaríamos realmente de ter, penso eu, daí a insurgência destes filmes nos cinemas. Talvez nós abracemos os filmes de amnésia porque nós testemunhamos o naufrágio dos filmes psiquiátricos (A Máfia no Divã) e tenhamos ainda memórias com as quais não conseguimos lidar.
As ansiedades e os medos de que estes filmes tratam são o resultado de imaginar as conseqüências e confusões de uma existência livre da memória. Eles consideram o que é estar perdido - mas considerando também que a amnésia não valeria a pena se nós não estivéssemos interessados na possibilidade de escapismo e de felicidade livre de preocupações que uma mente sem lembranças oferece.
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