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Só 22 páginas?
Por Leonel Dorkboy — Quinta, 6 de maio de 2004
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Olá e bem-vindos de volta a esta bissexta coluna. Em primeiro lugar, eu gostaria de me desculpar pelo hiato enorme dos últimos tempos. Posso garantir que a minha falta de produtividade se devia a uma doença gravíssima – chamada vagabundagem. É isso, podem jogar as pedras.
Bem, saindo da auto-comiseração, vamos discutir um tema bem presente nos quadrinhos atuais. Pegue as suas edições de Marvel Millenium: Homem-Aranha, Demolidor, Authority, ou, basicamente, de qualquer coisa escrita pelo Brian Michael Bendis ou pelo Mark Millar, já que eles vão ser o nosso material de estudo hoje. Repare bem nas séries contidas nesses gibis: sim, eles são muito bem escritos, têm seqüências emocionantes de ação e pancadaria, muitas vezes contam com arte espetacular... e acabam rapidinho. Já notou isso?
Hoje em dia, uma história, por exemplo, do Homem-Aranha no universo Ultimate pode ser uma leitura fantástica, pode lidar ao mesmo tempo com temas como superpoderes, amor e rejeição na adolescência, perdas familiares, etc. Mas o preço de tudo isso é que nós temos páginas e páginas de diálogos entre o Peter Parker e a Mary Jane, diálogos que, muitas vezes, são do tipo:
- E aí, tudo bem?
- Sim.
- Ah, tá.
- Na verdade, não.
- Hã?
- Não está tudo bem.
E por aí vai... ou seja, o “preço” que pagamos por uma caracterização mais cuidadosa, por personagens mais profundos e com mais vida, é a “perda” de espaço precioso dentro do gibi, gasto com diálogos mais realistas, quadrinhos mudos só com uma única expressão facial... Enfim, pouca “substância”, pouco enredo, pouca história e poucas coisas acontecendo em cada gibi. O tipo de coisa que faz a leitura demorar cinco minutos, e só.
Isto não seria um problema, se nós vivêssemos num mundo ideal, onde o governo reconhecesse gibis como os artigos de primeira necessidade que são, e os entregasse de graça, na nossa porta, todos os meses. Mas, longe desta utopia, nós gastamos os nossos suados 6 reais e, à vezes, um gibi não dura uma única ida ao banheiro. É claro que a velocidade de leitura não é a questão real aqui – é a sensação de “enganação”, de que não estamos recebendo uma história completa. Antigamente, num único número de qualquer gibi de super-heróis, havia uma história com começo, meio e fim. O Homem-Aranha se deparava com um vilão, descobria o seu plano, passava por dificuldades, descobria a fraqueza do tal vilão e voltava a enfrentá-lo, vencendo no final. Uma “saga” inteira em 22 páginas. Hoje, este processo todo demoraria umas cinco edições.
Muitos fãs (especialmente na internet) falam do processo de padding, ou “enchimento”, que, em bom português, significa “encheção de lingüiça”. Muitas vezes, os editores forçam escritores e artistas a alongarem as histórias, fazendo sagas de, preferencialmente, seis números (que é o número de edições ideal para ser colecionada numa encadernação). Ocorre, portanto, uma “enganação” mesmo. Mas, na verdade, n´so estamos vendo aqui a evolução da mídia, e a sua luta consigo mesma.
No exemplo acima, eu falei de uma história completa em que o Homem-Aranha encontra um vilão, leva um cacete, etc. Mas e se nós quisermos contar histórias mais complexas do que isto? E se o relacionamento do Peter com a MJ for tão ou mais importante para a história do que o infeliz do vilão (que nós sabemos que vai apanhar no final de qualquer jeito)? Hoje em dia, nós não nos satisfazemos mais com estas historinhas simples. Quando queremos pancadaria e explosões, então que seja uma edição inteira de pancadaria e explosões para botar Matrix no chinelo (vide a edição 12, ainda inédita por aqui, de The Ultimates)! Os escritores (dos quais Bendis e Millar são só exemplos) estão começando a “forçar” o formato de 22 páginas, começando a extrapolar o confinamento do gibi.
A evolução natural disso, e o que resolveria todos os problemas, é a publicação de revistas com números de páginas variáveis. Ora, um escritor de literatura não escreve cada capítulo com o mesmo número de páginas; por que um escritor de quadrinhos deveria? Há inúmeros processos econômicos que dificultam esta mudança, é claro, mas, mais cedo ou mais tarde, a mídia “quadrinhos” vai ter que se adaptar, ou voltar a ser o que era. Veja, já estamos falando em “capítulos de uma história”, e não em uma história inteira – as coisas estão mudando.
Ainda é possível, é claro, contar boas histórias completas (e complexas) em 22 páginas. Agora, de cabeça, posso citar a magnífica “O Som de Suas Asas” (acho que a sétima ou oitava história do Sandman). Ali está uma história que lida com sentimentos, relações, frustrações, esperanças, etc. – tudo em 22 páginas. Por que ela funciona? Bem, em primeiro lugar, porque o escritor é o Neil Gaiman (e se todos nós pudéssemos ser o Neil Gaiman, ou o Garth Ennis, ou o Warren Ellis, acabar-se-iam todos os problemas da indústria de HQs). Em segundo lugar, porque o Gaiman pega um tema (a frustração, ou boiolice, do Lorde Morpheus) e decide explorá-lo. Ponto. É a mesma coisa que o exemplo do Homem-Aranha contra o vilão do mês. Quando só se lida com um aspecto de uma história, tudo fica mais simples.
Mas os céus proíbam que haja uma história de super-heróis sem pancadaria. E sem praticamente todos os coadjuvantes. E sem o poder “símbolo” do herói. E sem piadinhas. E sem...
Entenderam? Quando os fãs (nós, galera) aceitarem uma história do Homem-Aranha que seja só ele falando com a Mary Jane, então não vamos mais ter a sensação de estarmos sendo enganados, da leitura acabar rapidinho. O J. Michael Straczynski fez isso numa história do Aranha no universo regular um tempo atrás (quando a tia May descobriu o segredo do Peter), e foi uma historinha satisfatória, divertida, gostosa e completa.
Este é mais um dos casos em que eu digo que a indústria tem que se adaptar ou morrer. Existem histórias boas que precisam de 22 páginas, e existem histórias boas que precisam de 36, e histórias boas que precisam de 400. Vamos deixar os escritores fazerem o trabalho deles!
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