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Da Raiva à Escravidão
Por Luiz Eduardo Ricon — Sexta, 30 de abril de 2004
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Meu desencanto com o rock vem de longe, como os leitores fiéis (todos os 3) já sabem. Não gosto de pensar que sou um daqueles saudosistas que dizem “no meu tempo era diferente” mas a verdade é que faz tempo que não consigo identificar em nenhuma banda de rock algo remotamente parecido com a tão famosa “atitude”, aquela mistura de tesão com sinceridade (e uma certa ingenuidade, claro) que sempre acompanharam os grandes nomes do rock em seu caminho até se tornarem realmente grandes.
Hoje, as bandas já saem da fábrica sendo vendidas como grandes. O White Stripes, por exemplo, me parece um projeto muito bem pensado para ocupar de imediato o status de grande revelação, a exemplo do que acontece com o Coldplay, que sempre me pareceu uma banda montada meio às pressas para ser um Radiohead mais “acessível”, especialmente para a Gwineth Paltrow (ô nomezinho difícil de escrever...)
Uma das minhas desilusões finais com o mundo do rock vocês vão conhecer agora, assim que eu terminar essa enfadonha introdução.
Raiva contra a Máquina
Rage Against the Machine. Taí um nome que sintetizava tudo o que eu sempre pensei sobre a indústria da música. Ouvir o primeiro disco dos caras, especialmente as explosivas Bombtrack, Killing in the Name of e Take the Power Back foi um verdadeiro tapa na orelha, um “prest'enção, mermão!” (Ou “se liga aí, meu!”, para os paulistas). Desde a primeira audição, dava pra perceber que aquela banda, apesar da atitude marrenta e um pouco panfletária demais, tinha substância.
A voz esganiçada e as letras politizadas do intelectualizado Zach de la Rocha, a guitarra versátil e virtuosa de Tom Morello e a cozinha muito bem azeitada de Timmy C e Brad Wilk formavam uma verdadeira máquina de guerra contra as armas de destruição da criatividade disparadas diariamente pelas rádios e MTVs do mundo inteiro.
Rapidamente, a porrada sonora, os discursos rapeados e os poemas de arame-farpado do RATM consquistaram um espaço admirável para uma banda cujas letras juntavam posições políticas bastante incômodas para o senso médio do americano a temas como a relação entre o movimento multiculturalista e os currículos escolar es.
Aliás, para a alegria (ou a ira) dos fãs, acaba de chegar às lojas um pacotão CD+DVD ao vivo do RATM, gravado em setembro de 2000. Infelizmente, Live At The Grand Olympic Auditorium é provavelmente o último suspiro dessa banda instigante que lutou contra as leis do mercado... e as leis venceram.
Assim como aconteceu no Matrix, a máquina venceu a guerra e o RATM acabou rachando ao meio, jogando Zach de la Rocha para um lado e os outros três para o outro. Com o girar das engrenagens, o trio dissidente foi se juntar ao vocalista Chris Cornell, egresso do Soundgarden (outro grupo que sempre me agradou muito) para formarem juntos uma nova banda, batizada de Audioslave, com a qual eu implicava desde o primeiro momento, mesmo sem saber por quê.
Um belo dia, a ficha caiu: para um sujeito como eu, que vive procurando significados ocultos nas coisas, é extremamente sintomático que aquela banda que se chamava “raiva contra a máquina” se transforme de repente na “escrava do áudio”.
Faz todo sentido...
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