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Bons ventos de abril
Por Rafael Lima — Sexta, 30 de abril de 2004
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Se há 504 anos os ventos de abril serviram para sinalizar a chegada de Pedro Álvares nestas terras, dessa vez foram prenúncio para uma grande leva de quadrinhos independentes no Brasil. Afinal, foram lançados neste único mês 3 edições que não podem passar despercebidas por quem se diz antenado com a nova produção de HQ: o quarto número da revista Mosh, o primeiro da Tarja Preta e o álbum Preto no Branco.
A revista Mosh, que começou a ser distribuída no final do ano passado, conseguiu escapar do limbo dos mini-zines de gibiterias e mostrar a cara apesar do diminuto formato A6 (uma folha A4 dobrada ao meio duas vezes). Isso se deu graças a uma excelente campanha de divulgação, com diversas chamadas em jornais e na internet. A idéia é simples: um gibi de HQ sobre rock, que não se propõe a ser nem uma revista de resenhas nem se restringir a reunir um punhado de histórias em quadrinhos.
Editada por Sandro Lobo e Renato Lima, as histórias se ancoram em temas caros ao universo do rock’n’roll, como a rebeldia em clichês, a efemeridade dos ídolos, o romantismo das letras, enfim, tudo o que faz parte da percepção típica dos anos em que o disco preferido é tudo na sua vida, que é vagabunda, mas é sua - it’s only rock’n’roll, but I like it. Todos os desenhistas têm traços já amaciados e, se ainda não definiram completamente seus estilos, estão muito próximos, pela intimidade com que lidam com personagens ou situações.
Menina Infinito, de Fabio Lyra, é um perfeito retrato na última potência da pose com que os fãs exercem sua idolatria, num traço incrivelmente elegante e definido, ali entre Adrian Tomine e Hergé. Super Rock Ghost é gozação descarada com a mitologia que costuma cercar os músicos, os escândalos da fama, a penúria dos primeiros tempos, por Fabio Monstro, o único que opta pela sujeira visual em seu estilo. Sandro Menezes mostra sensibilidade ao captar a melancolia e a tristeza das bandas de Manchester nas histórias da série Fotolog, e Vinícius Mitchell, que nos melhores momentos evoca Skip Williamson e Howard Cruse pela mistura de hachuras com traços arredondados, corre o risco de ser o melhor contador de histórias do grupo. Renato Lima usa um lindo colorido na série Bad Karma, nas terceiras capas, extraindo ouro de tão pouco espaço.
O melhor é que a Mosh não se restringe a isso; traz ainda uma coluna do emérito leitor e colecionador Heitor Pitombo e uma entrevista, sempre com uma banda conhecida do underground (Autoramas, Jimi James, Matanza). Nos últimos números, andou agregando novos nomes e páginas ao seu elenco (como a grata revelação de Gustavo Alves/Odyr Bernardes, as molecagens de Juca e o conhecido Ofeliano) e iniciou uma coleção de figurinhas do mundo alternativo carioca encartada. Tudo isso ao preço de uma lata de cerveja, nos quatro cantos do Brasil e na internet.
Já a revista Tarja Preta é um antigo projeto de Matias Maxx, do Cucaracha Zine (e blog), que, depois de dar tratos à bola, decidiu lançá-la no esquema faça você mesmo: colocou desenhistas amigos para estamparem à mão 15 metros de tecido, depois transformados em roupas de uma coleção exclusiva, que financiou os custos de impressão. A “revista” não passa de uma encadernação grampeada em formato americano de papel jornal em preto e branco, ou seja, tem muito mais cara de fanzine do que qualquer outra coisa – mas qualquer publicação hoje em dia que traga quadrinhos de Allan Sieber, Arnaldo Branco, MZK, Schiavon, Leonardo ou Johandson merece ser lida. E qual outra você conhece que tenha essa turma toda, e em 64 páginas?
Tarja Preta segue na linha da Zap Comix, brandindo o mote “Não compre, plante”, cheia de gente que achava graça em “desenhar unicórnios fumando maconha na contra-capa dos cadernos escolares” e levou esse hábito a sério demais, a ponto de ter aprendido a fazer quadrinhos de humor. Aqui e ali ainda escorrega em descuidos de cunho amadorístico: mal dá para ler o texto das HQs de Rubens Watanabe, e os traços alternam desde o comercialmente pronto até o rabisco descompromissado, o que quebra o padrão de qualidade médio. De qualquer modo, piadinhas como as Pilhas Erradas, de Juca, ou histórias como as do ubíquo Vinícius Mitchell, Gustavo Goose (ótimo desenhista) e as vidas do homem mais triste e do homem mais feliz do mundo, de Allan Sieber, mantêm o pique em cima. Uma última nota: a revista traz ainda 14 páginas de histórias do Capitão Presença, criado por Arnaldo Branco e produzidas por Schiavon, Leonardo, MZK, Allan Sieber, Dúnia, Juca e Johandson, no que provavelmente é o primeiro caso de sucesso de "direito autoral aberto dos quadrinhos brasileiros" – qualquer um pode fazer sua história. Presença, aquele que sempre comparece, é um super-herói inspirado no próprio Matias Maxx que, quando não está de bode, enfrenta inimigos como Mané Bandeira (aquele que explana) ou PM, o Propina Man.
Preto no Branco foi o nome da tira que Allan Sieber bolou para abrilhantar a página das edições Tonto, quadrinho feito direto para a internet, mesmo que manufaturado exclusivamente na prancheta e nanquim (o computador só serve para digitalizar e colocar no ar). O formato incomum – uma tira de 6 quadros vertical – se mostrou muito apropriado para a leitura na tela, e o conteúdo é prenhe do "reconfortante mau humor" e permanente "fé na humanidade" com que Allan banha sua "alegre visão" de mundo. Ou seja, você só não resolve se matar depois de ler porque está rolando de rir, no chão. O preto no branco é suficiente para descrever a técnica, mas não o notável estilo gráfico do cartunista gaúcho, que hoje não deve nada aos figurões do underground. Ninguém desenha gente com cara de bobo como Allan Sieber. E agora o álbum da Conrad eterniza em papel uma produção que as más línguas dizem que sumiria nos labirintos da internet.
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