A Inglaterra é o único país onde ambos os volumes de Maus, de Art Spiegelman, estão disponíveis em uma edição única. Esta colunista que vos fala não conseguiu resistir à tentação, e recentemente adquiriu a dita cuja através do ramo britânico da Amazon.
Difícil definir
Maus. É uma história em quadrinhos para adultos, mas dizer apenas isso seria um reducionismo sem tamanho. É também uma (auto)biografia, um homem contando a história da vida de seu pai – e de seu relacionamento problemático com ele. Mais ainda,
Maus recebeu o prêmio Pulitzer, prova inconstestável de sua qualidade.
Para mim,
Maus é uma contundente metáfora do Holocausto, uma obra de arte em quadrinhos baseada em uma das maiores tragédias humanas do planeta. No livro (porque é impossível chamar aquilo de revista), Spiegelman divide com seus leitores a saga de seu pai, Vladek, em sua luta por sobrevivência enquanto judeu polonês durante a ascenção do Nazismo.
Sem meias-palavras ou eufemismos, Spiegelman narra de forma comovente, chocante e realista (naturalista, até) os horrores vividos por milhares de pessoas nas décadas de 30 e 40, retratando cada povo como um animal. Os judeus são ratos ("Maus" significa rato em alemão), os alemães são gatos, os americanos são cães, os poloneses são porcos e os franceses, sapos.
Spiegelman não idealiza ninguém: ele mesmo aparece como um filho impaciente e intolerante diante das excentricidades do pai sobrevivente de guerra; Vladek é quase um judeu estereotipado, econômico ao extremo e racista quando o assunto são negros. Todos os personagens da Segunda Guerra Mundial, heróis ou vilões, têm em
Maus várias tonalidades de cinza, o que lhes confere uma profundidade raramente vista na literatura.
Acima de tudo, o livro nos faz ver, sem filtros ou inibições, a barbárie provocada pelo ódio, pela intolerância e por idéias toscas de superioridade. Quase 70 anos depois dos eventos narrados em
Maus, o mundo ainda sofre destes mesmos males. Os motivos e os personagens podem ser diferentes, mas a história…
Links:
Biografia de Art Spiegelman (em inglês)