Nós vimos II: Kill Bill - Volume 1

Por Marcelo Tavela — Quinta, 22 de abril de 2004

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Nós vimos - e provavelmente você também já deve ter visto. Afinal, um filme que estreou nos EUA no final de 2003 já é facilmente achado na internet e em cópias piratas. Ou, caso você não queira fazer nenhuma atividade “ilegal”, vá até a sua locadora e pegue o DVD americano, que foi lançado na semana passada.


Está se sentindo tapeado por não ter feito nada disto? Seus problemas acabaram! Como o Vol. 2, que estreou nos cinemas americanos no final de semana passado, só chegará ao Brasil em outubro, você terá muito tempo para mandar a distribuidora para o inferno e assistir em casa. E eu disse inferno porque somos pessoas educadas.

A pergunta mais ouvida após a exibição foi: “Cara, quem é o sujeito que faz um filme destes?”

E só mesmo Quentin Tarantino poderia conceber Kill Bill, seu quarto filme, como é bem enfatizado. E, sendo seu quarto filme, o diretor segue uma cartilha que vem sendo trabalhada desde Cães de Aluguel, e que pode confundir quem não é espectador costumas dele. Como é o caso de poucos que lerão isto, o jogo está ganho. Ele abusa de cenas forçadas, e os chatos poderão encontrar muitos buracos no roteiro. Mas isto não é o que interessa em Kill Bill.

O que se nota fácil é como Tarantino se divertiu fazendo o filme. E como a platéia, se entrar na onda do diretor, se divertirá mais ainda. A película é como um playground dele, que tirou muito dos filmes que assistia quando era balconista de uma locadora – sua melhor faculdade de cinema, como ele próprio diz – e conseguiu misturar de forma muito bem orquestrada.

Fica evidente na estrutura de filme de samurai – um guerreiro que foi traído e jura vingança, com direito até a mestre dando tópicos de filosofia oriental – juntada com o clima e jogo de câmera dos spaghetti western - ok, isto já tinha sido misturado antes, mas o cara adiciona e faz a mistura da mistura – e com alguma coisa do cinema independente americano e animação japonesa. Aqui, um adendo para a seqüência que mostra como O-Ren Ishii (Lucy Liu) viu seus pais sendo assassinados e fez a sua justiça, um belíssimo banho de sangue em animé.


E já que falamos das mulheres, Tarantino fez o filme para elas. Os homens são gado, simplesmente servem para corte. Kill Bill ratifica esta tomada das rédeas do mundo que as mulheres estão realizando (a sociedade machista vêm fazendo cagada há dois mil anos. Que elas assumam, e tornem tudo melhor). Dentro da estrutura do filme, elas mandam. Oren Ishii manda na Yakuza, assessorada legalmente uma advogada e ilegalmente por sua discípula, a Sakura demoníaca Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama) - mais uma personagem de Tarantino já inesquecível. Até Vernita Green (Vivica A. Fox ), que virou dona de casa, fez isto por opção. É porque quer. Fora do filme, Tarantino continua sua homenagem às damas com Darryl Hanna (que interpreta Elle Driver), que aparece pouco neste, mas que poderá voltar do limbo como um Travolta em Kill Bill 2.

E, claro, a maior de todas as musas, Uma Thurman, maravilhosa como A Noiva, um papel que Tarantino escreveu já com ela na cabeça, e por quem valeu a pena esperar dois anos devido a agenda lotada e gravidez.


Agora, o que ficou para ser explicado no próximo filme é como todas estas mulheres poderosas são subordinadas ao Bill.

Falar de filme de Tarantino é também falar da trilha sonora (ele também escreve muitas cenas só por causa de uma música). As músicas também amarram a mistura do filme, seja o funk setentista que pontua as vezes em que a sede de vingança da Noiva bate, seja nas músicas orientais que o diretor incorporou durante as filmagens na China e no Japão, e seja as músicas eu ele tirou das trilhas do Enio Morricone e do seu baú de cultura pop.

Como nem tudo são flores, faz falta no filme aqueles diálogos ácidos e atípicos característicos do diretor. Ele tentou substituir os embates verbais pelas cenas de lutas, que seguem a linha ácida, atípica e um pouco forçada, mas os diálogos fazem falta.

Além de ter sido mercadológicamente esperta (os irmãos Wernstein da Miramax são tudo, menos bobos), dividir o filme em duas partes também favorece o telespectador. E o corte ficou bem colocado. O único problema agora é esperar até outubro. Quer dizer, não necessariamente.

PS: Se tem alguém que eu não queria ser vendo este filme é Ethan Hawke. Uma mulher que faz o que a Uma Thurman faz é pra casar e jurar fidelidade eterna...




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