Nós vimos I: Kill Bill - Volume 1

Por Marco Tomazzoni — Quinta, 22 de abril de 2004

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Depois de uma espera mais do que sofrida (foram duas estréias adiadas e mais de seis meses desde a entrada do filme no circuito norte-americano), finalmente os brasileiros poderão conferir nos cinemas o aguardadíssimo quarto trabalho de Quentin Tarantino – isso aí, o mesmo diretor dos incensados (e com razão) Cães de Aluguel e Pulp Fiction. O atraso fez com que o desembarque de Kill Bill – Volume 1 por estas bandas coincidisse com o lançamento nos EUA do Volume 2, numa estratégia de marketing às avessas um pouco desastrada e até ineficaz, na minha opinião.


Pelo menos a essas alturas todo mundo já deve ter ficado sabendo sobre o que trata a história, mas não custa contar mais uma vez. Trata-se da jornada da personagem “A Noiva” (Uma Thurman) em busca do que lhe é mais caro: vingança, como bem fala o velho provérbio klingon (he, he) que abre o filme: “vingança é um prato melhor servido frio”. Depois de passar quatros anos em coma, a moça acorda sedenta pelo sangue das pessoas que, no altar de uma capela texana, lhe meteram uma bala na cabeça e mataram todos na cerimônia. Detalhe: a Noiva estava grávida! Os responsáveis pela chacina são seu antigo chefe e mentor, Bill (David Carradine), cabeça do Esquadrão Assassino Víboras Mortais, e os outros maníacos do grupo, a saber: a mestre em arma branca Vernita Green (Vivica A. Fox), a sino-americana O-Ren Ishi (Lucy Liu), a caolha Elle Driver (Daryl Hannah) e o veterano Budd (Michael Madsen). Não é nenhum mistério que no Volume 1 quem passa dessa pra uma melhor são O-Ren e Vernita, enquanto os demais terão sua vez na segunda parte. Mas nem pense que saber de antemão os rumos do filme vai estragar sua diversão. Ah, não vai mesmo.

E diversão parece ser a tônica que motivou Tarantino a conceber todo o projeto. A idéia surgiu há tempos, ainda nos sets de Pulp Fiction, quando o diretor concebeu o slogan do filme (“Uma Thurman will kill Bill”) e conversou com a atriz para que ela fosse a protagonista – Uma, aliás, é, segundo ele, sua musa. Tarantino queria com Kill Bill render homenagem aos chamados “grind movies”, forma genérica pela qual eram chamados os filmes de blaxpoitation, kung fu e samurai japoneses que eram exibidos em cinemas marginais de Los Angeles na década de 70. O diretor cresceu assistindo toneladas desse material, e ao unir esse conhecimento com outros referenciais de sua formação cinematográfica – seriados de tevê, faroestes à italiana e pérolas do mundo pop – criou uma salada de gêneros tão deliciosa que é difícil não ficar sorrindo durante toda a projeção.




Kill Bill é, por definição, um filme de artes marciais, e dos bons. As lutas foram resultado de mais de três meses de treinamento e coreografadas por dois mestres da área: Yuen Woo-ping, veterano diretor e coreógrafo chinês responsável pelos malabarismos visuais arrebatadores de O Tigre e o Dragão e da trilogia Matrix; e Sonny Chiba, colega de elenco (ele ressuscita o personagem Hattori Hanzo, interpretado por ele mesmo no seriado setentista japonês Shadow Warriors), estrela de filmes samurai nipônicos e um dos heróis de Tarantino. As ligações com o Oriente não param por aí. Várias cenas foram filmadas no Beijing Film Studio, na China, em locações no Japão e o elenco de apoio (numeroso) foi recrutado nos países de origem. Boa parte da equipe técnica também foi contratada por lá mesmo, o que transformou os sets numa verdadeira babel devido à confusão de línguas e o trabalho de tradutores.

Como todo esse know-how, retirado direto da fonte, espere um espetáculo de chutes, socos e espadadas de tirar o fôlego. Aliada às lutas, vem toda a acidez, perspicácia e irreverência das produções de Tarantino. O diretor manteve em Kill Bill o espírito original dos filmes samurai e o transpôs para uma roupagem contemporânea e cheia de referências, o que torna tudo muito cool. Tem coisa mais divertida do que lições de moral de velhos mestres sobre honra, misturadas com muita pancadaria, sanguinolência (cada membro decepado pela espada da Noiva rende hilários jatos de sangue) e tiradas espertas? No meu caso, fazia tempo que não via algo tão estimulante.

As referências estão espalhadas por todos os cantos de Kill Bill, e devem fazer a festa dos tarados por detalhes: elas vão desde o figurino, como as roupas de vilão a la Star Trek e a máscara de Kato (papel interpretado por Bruce Lee na série O Besouro Verde), passando pela trilha sonora, armas e maneirismos dos atores. Se você é um desses fanáticos, procure na web por grupos de discussão que investigam de que obscuro filme B Tarantino buscou inspiração para esta ou aquela cena.

A música é um capítulo à parte. Tarantino garante que não começa a escrever uma seqüência antes de saber o que colocará como pano de fundo. Como a paixão por música do diretor só perde pela do cinema, não é surpresa encontrar pérolas tão preciosas e díspares quanto “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, interpretada por Nancy Sinatra (a filha do Frank), a versão de “Don't Let Me Be Misunderstood” do conjunto Santa Esmeralda e a deliciosa “Woo Hoo”, do power-trio japonês The 5.6.7.8's (que aparece tocando a música no filme). Quem puder conferir o cd com a trilha completa (entre aspas, já que somente metade do que foi utilizado no filme está incluso no álbum), que inclui ainda alguns diálogos (como de praxe nos filmes de Tarantino), vale a pena.

As atuações também estão acima da média. Uma Thurman aparentemente nasceu para o papel de A Noiva – calculista, mortal, habilidosa e sofredora na medida certa. O resto do elenco é igualmente competente. Daryl Hannah tem poucos minutos em cena e dá um show; promete muito para sua participação no Volume 2. De David Carradine, o Bill do título, só acabamos conhecendo a voz e as mãos, o que é suficiente para aguçar a imaginação para a segunda parte. Vivica A. Fox e Julie Dreyfus aparecem pouco mas cumprem seus papéis sem problemas. E Lucy Liu, bem, além de linda como sempre, transmite uma frieza assustadora, inerente ao papel de uma chefe da máfia japonesa.


A história de O-Ren, personagem de Liu, é contada em uma bem-realizada seqüência de anime criada em um dos maiores estúdios de animação do Japão, o Production I.G., responsável pelo excelente Ghost in the Shell (1995). Tarantino acompanhou de perto todas as etapas de produção do clipe, desde os esboços iniciais até a confecção dos storyboards. O resultado não fica devendo em nada ao restante do filme.

A grande diferença de Kill Bill – Volume 1 para os outros filmes de Tarantino é a pouca ênfase nos diálogos. A primeira parte da obra é assumidamente voltada para a ação. Quem está com saudade das deliciosas falas tarantinescas só vai poder saciar plenamente a vontade com o Volume 2, previsto para chegar ao Brasil em outubro. Até lá, deleite-se com o Volume 1. É diversão despretensiosa de primeiríssima qualidade.




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