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O Segredo dos Mangas – Parte 3
Por Rafael Cardoso — Quinta, 15 de abril de 2004
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Novamente, forças parecem conspirar contra o aparecimento da coluna Raio-X. Primeiramente, houve uma pequena e rápida tomada da coluna pelo estimado colega Douglas Donin, mas tudo parece voltar ao normal agora. Por enquanto...
A verdade é que houve uma estranha coincidência. Por um lado, eu falava das virtudes dos mangas (quadrinhos japoneses), que têm gradativamente conquistado o público brasileiro e ocidental de forma geral. Douglas Donin, como é de praxe em sua coluna Descarga, já tratava do lado mais ridículo e trash das séries japonesas, principalmente as dos anos 80 (não que as atuais que tenham seguido o mesmo caminho sejam melhores). De toda forma, acredito que tratamos sobre coisas completamente diferentes. Já que ele fala das séries de Live Action, as tokusatsu, enquanto eu trato da animação e dos quadrinhos japoneses, que estão anos-luz a frente.
Recapitulando as duas últimas colunas, eu falei sobre algumas das qualidades que os mangas e animes apresentam, que você geralmente não encontra no mercado americano.O primeiro motivo é o fato das séries sempre apresentarem um fim, diferentemente dos desenhos animados e quadrinhos americanos que continuam incessantemente, enquanto fizerem sucesso – salvo raras exceções como Sandman e Preacher. O segundo motivo seria o das técnicas especiais (ataques especiais, golpes especiais, etc., enfim os golpes com nomes mirabolantes) serem mais atrativas e interessantes que os super poderes dos heróis americanos. O terceiro motivo seria o carisma dos heróis nipônicos, que muitas vezes podem ser muito parecidos com os leitores, que os super-heróis. Afinal, muitos protagonistas de mangas são jovens, com uma vida relativamente simples e normal, que tiveram suas realidades afetadas ou mudadas por um efeito exterior.
Chegamos, então, à última e mais importante das razões, que tornam os mangas e animes tão interessantes (que é a razão desta coluna): a diversão. Note que não estou dizendo que os quadrinhos americanos não sejam divertidos, mas existe uma trava para eles. Um limite que geralmente os quadrinhos japoneses não encontram. Vide o exemplo de Dragon Ball. A partir de certo momento, a série descamba totalmente para a porrada. Surgem novos adversários mais fortes, os heróis precisam fazer treinamentos mais rígidos, aprendem técnicas mais poderosas e enfrentam o tal adversário. Um roteiro simples e até ridículo se profundamente analisado. Mas se olharmos bem, a série continua sendo engraçada e muito divertida. Será que se fosse publicada originalmente nos Estados Unidos, ela teria sobrevivido? Provavelmente não.
A verdade é que os quadrinhos americanos de super-heróis amadureceram muito. Hoje em dia, dizer que ele ganhou super agilidade por ter sido picado por uma aranha radioativa se tornou ridículo. Ninguém pode ganhar poderes por ter sido atingido por uma bomba atômica ou raios cósmicos. Atualmente, um vilão não pode simplesmente querer dominar o mundo e ser mau apenas, porque é um agente do mal. Tudo agora precisa ter uma explicação minimamente lógica e plausível. Talvez o vilão tenha sofrido de preconceito por ser mutante ou tenha perdido o emprego da vida por conta do herói, mas hoje não basta ser um vilão e pronto.
Este amadurecimento do quadrinho é muito bom. Não pretendo criticá-lo de forma alguma, entretanto ele trouxe um aspecto negativo. Com toda a base científica, com todas as explicações plausíveis (dentro dos seus limites) perdeu-se muito da inocência original das comics. Perdeu-se muito da diversão. Não basta o Super-Homem voar e ser forte para ser legal, é preciso algo mais. Ganhamos em roteiros mais estruturados e inteligentes, mas muitas vezes perdemos em diversão. As histórias tornam-se chatas. Ao menos é o que sinto ao ler as histórias atuais dos X-Men por exemplo.
O próprio estilo natural dos mangas sempre deu esta liberdade aos autores. Nunca precisaram fazer personagens certinhos, redondinhos, etc. podiam fazer personagens de cabelo espetado, olhos grandes e de personalidade variável, desde que fossem interessantes e principalmente divertidos. Os próprios roteiros muitas vezes são muito mais simples, muito mais focados nos personagens que na história. Vide os Cavaleiros do Zodíaco, no qual as três últimas fases têm exatamente o mesmo enredo, mas o desenho se foca no sacrifício pessoal para se alcançar o sucesso e principalmente no poder da amizade. De novidade, ficam as armaduras novas e os novos ataques especiais dos novos cavaleiros inimigos que vão aparecendo.
Apesar de obviamente também ser um produto capitalista que deve gerar lucro, o mercado japonês geralmente valoriza mais os autores que suas criações. Existem casos como o de Dragon Ball, Evangelion, em que estes valores podem ser invertidos, mas geralmente os mangakas (autores de manga) são realmente o cerne da questão. Não há tanto problema em uma série acabar, pois o autor poderá começar outra. Tal valorização também existe no mercado americano, como é comprovado com os inúmeros contratos de exclusividade que têm sido assinados no último tempo, mas o que é um escritor comparado aos heróis da editora. Ora, pode ser uma idéia estupenda do próprio Alan Moore, que certamente ninguém concordará em cancelar as quatro revistas do Batman, porque ele fez uma história perfeita em que o homem morcego morre.
Simplificando para o leitor, já que minhas idéias fluíram alucinadamente. Os autores japoneses têm mais liberdade para trabalharem e a princípio possuem um reconhecimento maior. Isto somado a inúmeros outros fatores, permite que os quadrinhos japoneses sejam mais engraçados, divertidos, descomprometidos, o que pelo outro lado não lhes impede de criarem histórias sérias ou roteiros complexos, mas simplesmente lhes oferece ainda mais opções.
Desta forma, aqui termina esta pequena série de artigos que fala um pouco mais sobre os quadrinhos e desenhos animados japoneses. Até hoje, muito leitor de HQs americanas ainda torce o nariz, quando ouve falar dos produtos orientais, mas a verdade é que eles perdem muito ao fazer isso. São estilos diferentes sim, mas justamente por conta disso o material japonês tem tido muito a acrescentar no material americano. Maior prova disso é a influencia que os mangas têm tido nos estilos de vários desenhistas americanos. E temos visto até mangas sendo produzidos nos Estados Unidos. E certamente as trocas de informações são mútuas e os mangas também tem muito a aprender!
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