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Reality shows
Por Douglas Donin — Terça, 13 de abril de 2004
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Olá, amigos!
Lembro que, em 1998, levei uma amiga a um cinema em Ribeirão Preto para assistir a O Show de Truman, com Jim Carrey e Ed Harris. Lembro que, na época – muito antes de No Limite, Big Brother e afins, saí, de certa forma, bastante triste e pessimista do cinema. Não que eu não tivesse gostado do filme, muito pelo contrário: apenas fui apresentado, mesmo que por uma crítica ácida e inteligente, ao rumo desumano que a TV tomaria dali em diante.
Pois, profeticamente, um dos maiores fenômenos televisivos dos últimos tempos - senão o maior - é a multiplicação de reality shows, as infames atrações que prometem trazer, em lugar de atores profissionais e roteiros pré-determinados, pessoas comuns em situações genuínas. Esta verdadeira praga tomou conta de praticamente todos os canais de TV aberta, e ocupa posição de destaque cada vez maior nas TVs por assinatura.
Um exemplo claro é a programação da MTV americana: reality shows sobre praticamente qualquer coisa amontoam-se uns sobre os outros, no lugar de programação sobre música – proposta inicial da emissora. Não que a programação musical preste para algo (nos últimos tempos, não passa nada na MTV que não seja algo do tipo “J-Lo featuring Puff Daddy featuring LL Cool J”, com clipes de dançarinas suadas lânguidas seminuas feitos uns à imagem e semelhança dos outros), mas deformou completamente a programação.
A minha birra com isso tudo é: reality shows são perigosos. São maus. Bad for your health. Embora não tenham (ainda) apresentado secretamente a vida de uma pessoa desavisada em seus mínimos detalhes, como fizeram com o pobre Truman, esses programas estão fazendo a TV se transformar em algo perigoso e caótico.
Tenho a impressão de que vocês devem estar me achando um padre a essa altura, de tão moralista. Pois digo: a questão não é moral. Nem simplesmente educacional. Muito menos é uma questão de simples gosto pessoal. O problema com os reality shows é que eles tornaram a TV uma "caixa de Pandora". Talvez, se analisar a questão sob três diferentes pontos de vista (que não são os únicos), eu consiga mais alguns apóstolos nessa minha cruzada solitária.
Primeiro ponto: o efeito snuff
Sabemos que o ser humano é um bicho desgraçado. O Mel Gibson também sabe disso. A Princesa Diana também, e aprendeu da pior forma possível. Inegavelmente, temos uma necessidade residual primata de venerar a violência, de correr para o que é sanguinolento, perverso, cruel. Disciplinamos isso com alternativas culturais sadias, como os esportes em geral – onde podemos metaforicamente “matar” nossos adversários em uma partida de futebol ou em uma luta de boxe – e as representações ficcionais, como os filmes de ação. Precisamos desses mecanismos de sublimação da nossa agressividade, e, se não os tivéssemos, estaríamos carneando pessoas por aí para satisfazer o pequeno macaco carniceiro escondido lá no fundão da nossa personalidade. Basta olhar para nossos dentes e unhas para lembrar o que já fomos um dia.
Acontece que estamos perdendo as rédeas: de uns tempos para cá, esses mecanismos culturais tornaram-se pouco atraentes frente a uma nova opção. Falo – claro – dos reality shows! Para que ver uma pancadaria de mentira em um filme do Van Damme se posso assistir a uma de verdade? Yeah, baby! The real thing!
Nem todos os reality shows são água-com-açúcar como o Big Brother. Alguns são degradantes e cruéis. Entre os piores, figuram o ofensivo Jackass, o humilhante Hipertensão e o incrivelmente covarde bombardeio americano sobre civis inocentes no Iraque, transmitido ao vivo para o mundo todo.
“Ah, Donin, pára de ser rabugento! São só uns programinhas inocentes!”
Tudo bem, podem não ser lá tão sangrentos – tirando o massacre no Iraque -, mas meu medo não vem do que eles são atualmente, e sim, do que eles podem se tornar. Talvez isso fique claro no próximo ponto.
Segundo ponto: a Lei do IBOPE
Dizia Darwin: “Toda e qualquer opção, por melhor que seja a sua qualidade e valor, será prontamente descartada em função de outra que dê maior IBOPE”. E atenção, pois serei elitista e arrogante nos próximos parágrafos.
Onde está a maior parcela da população brasileira? Nas classes mais baixas (e cada vez será maior essa parcela). Logo, quem manda no IBOPE são os gostos da classe mais baixa. Fato.
Onde está a menor taxa educacional? Nas classes mais baixas. A essas camadas, por força da deficiência educacional, não interessa muito o engrandecimento intelectual ou a variedade cultural – valores cultivados exatamente na escola e reafirmados nos hábitos da família. Por não ter esse tipo de educação (e por força da massificação), interessa a essas pessoas, preliminarmente, a satisfação de seus instintos imediatos (leia-se, sexo e violência), em detrimento daqueles valores.
Isso é cruel (e talvez seja politicamente incorreto falar), mas é fato. Para os que discordam, façam o seguinte: ouçam qualquer funk (não funk de botique, como Claudinho e Buchecha ou Pepê e Neném, mas o legítimo funk carioca) e venham me dizer se encontraram algo além de sexo e violência. Ou então axé music, e me digam se existe alguma letra ou coreografia sem insinuação sexual.
Ou seja, entre um especial do Discovery Channel e a Banheira do Gugu, o responsável pela programação não vai pensar duas vezes.
Pela extrema maleabilidade dos reality shows e pela sua popularidade, temos que eles serão um veículo de aceleração da degradação cultural nacional. Um reality show não segue regras, a não ser a regra do IBOPE.
Não quero dizer que sou um "legítimo cidadão de Roma" e que o meu gosto é superior. Só pretendo afirmar que deveria haver algum tipo de regulamentação que garantisse um mínimo de proteção ao conteúdo educacional positivo nas emissoras, coisa que não há. E talvez nunca haverá. E olha que sou adepto da intervenção mínima.
Terceiro ponto: o "princípio marmelada"
(acionando modo “teoria da conspiração”)
Vamos fazer um exercício de imaginação: digamos que você tenha alguns milhões de reais no bolso e que receba uma ordem de multiplicar esses milhões, investindo-os em uma programação atraente, para receber o retorno em publicidade e merchadising.
Aí, você investe o rico dinheirinho que te deram em um reality show, a nova onda do pedaço. Já te avisam de cara que é a sua bunda que está na janela, e, se ele for um fracasso, quem vai tomar uma bela é você.
A pergunta é: o que você faz? Coloca um monte de gente aleatória em um lugar para fazer o que quiser, arriscando não só a sua pele como também a das suas próximas trinta gerações, ou faz uma experiência altamente controlada, com roteiro estrategicamente articulado, personagens criteriosamente construídos, reviravoltas ensaiadas, e todos os recursos de decupagem que os técnicos e consultores, principalmente psicólogos, podem te oferecer?
Ora, rapaz! É óbvio que vamos controlar a coisa toda!
Senão, vejamos: já perceberam, por exemplo, que os personagens do Big Brother se repetem? Temos sempre “O Mineiro Que Come Pelas Beiradas”, “A Professora Nordestina Humilde”, “O Negro Modelo/Coreógrafo Batalhador Que Venceu O Preconceito”, “A Super-Hiper-Gostosona”... todos são super-sarados e vão sair no Paparazzo e na Playboy (menos um ou dois, que são colocados ali para ainda dar um gostinho de realidade).
E o que dizer das situações todas que acontecem como se os participantes “esquecessem” miraculosamente que estão sendo filmados? O Big Brother da Hungria (lar de 11 entre 10 atrizes pornô do planeta), Suécia, Holanda, Austrália e outros países mais liberais apresentam situações de arrepiar os nossos sexofóbicos cabelos católicos. Várias vezes, os participantes/atores do reality show decidiram dar um pouquinho mais de reality ao show e partiram para o sexo explícito, franco e aberto, na frente das câmeras. Aliás, mostrando uma desenvoltura típica de profissionais, com todos os cacoetes e exageros de interpretação do gênero.
Já sabemos que as “pegadinhas” são pura e simples armação. Até quando a máscara do Big Brother vai permanecer?
E então, hoje tem marmelada? Até a semana que vem, amigos!
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