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O Prisioneiro - parte I
Por Alexandre Nix — Segunda, 12 de abril de 2004
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No meio da troca de e-mails entre mim e o editor do SoBReCarGa, enviei pra ele a minha sugestão de ícone para representar minha coluna. Foi a imagem de uma bicicleta daquelas antigas com uma das rodas enormes e com a outra bem pequena. O ícone foi rejeitado e substituído por outro, que achei muito legal também.
No entanto, fiquei devendo para o Artur a explicação de por quê ter escolhido aquele ícone para a minha coluna intitulada Contra a Corrente.
Aquela bicicleta (a Penny Farthing bicycle) representa a idéia de que nem sempre o progresso é retilíneo e invariável. Muitas vezes o progresso pode dar um passo atrás. Essa bicicleta desconfortável e de design descontinuado é um exemplo disso. Depois desse fracasso de desenvolvimento, as rodas voltaram a ter tamanhos similares.
Mas de onde diabos eu desencavaria isso? Confesso que a idéia não é minha, e sim de Patrick McGoohan, astro famosos nos anos 60 por séries de espionagem e que participou também de Scanners, em 1981, e mais tarde em Braveheart, como o rei Edward I. Além disso fez pequenas aparições como no filme do Fantasma, como o pai do "Espírito Que Anda" e emprestou sua voz para Billy Bones no desenho Planeta do Tesouro da Disney.
O meu propósito ao apresentar a bicicleta como ícone foi me utilizar do mesmo conceito, que se encaixa com o teor da minha coluna e ao mesmo tempo prestar uma homenagem a uma das melhores séries de TVs já produzidas até hoje: O Prisioneiro.
Tentando resumir ao máximo, poderia dizer apenas que O Prisioneiro foi uma série inglesa de 17 episódios, onde um ex-agente secreto é torturado emocionalmente e psicologicamente por uma organização secreta que deseja saber apenas o porquê de sua demissão. Felizmente, não se pode resumir O Prisioneiro apenas nisso.
A abertura da série quase sempre era assim: um agente secreto dirigindo pelas ruas de Londres chega em seu QG e pede com veemência sua demissão. Nenhuma palavra é ouvida, apenas a música-tema instrumental. O agente vai pra casa e se prepara para viajar. Uma passagem de avião e uma brochura com fotos de uma praia tropical podem ser vistas enquanto arruma sua mala. Infelizmente, em sua pressa, não percebeu que fora seguido por outro carro. Os sinistros integrantes do carro se aproximam da porta de sua casa e através da fechadura começam a bombear uma espécie de gás sonífero. O agente começa a sentir tonteiras. Tudo começa a rodar e ele desmaia. Quando acorda, tudo parece estar no mesmo lugar. Não há sinal de luta ou roubo, mas algo está errado. Abrindo sua janela, aterrorizado ele percebe que não está mais em Londres. O lugar onde está é uma perfeita réplica do interior de sua casa.
Agora ele está na "Vila" e é um prisioneiro. Tentando fugir por uma praia, sem saber ao menos onde está, pode se ouvir "em off" o prisioneiro travando o diálogo com seu inimigo:
"Quem é você?"
"O novo número 2."
"Quem é o número 1?"
"Você é o número 6."
"Eu não sou um número - Sou um homem livre!"
Então ouve-se a gargalhada de prazer e escárnio do número 2.
A Vila é um complexo hermético onde todos os moradores são identificados por números. Nenhum deles pode revelar aos outros de onde vem, onde trabalhou, quem conheceu fora dali e quais são seus verdadeiros nomes. Estipula-se que foi criada por alguma agência governamental de algum país, para extrair informações de qualquer agente secreto que não revela seus segredos por meios convencionais (como soro da verdade, tortura física, chantagem, etc.).
Cercada de câmeras por todos os lados e tendo como seus aliados praticamente todos os cidadãos, a Vila ainda possui um sistema de defesa inusitado. Uma espécie de bolha branca que captura de maneira violenta qualquer um que tente escapar pelo mar ou pelas florestas que cercam o complexo. Essa bolha (chamada "rover" em apenas um dos episódios) pode ser letal, asfixiando a vítima. Normalmente, um cidadão pego pela "rover" precisa de cuidados médicos imediatos após o ataque.
Para aumentar ainda mais a imersão dos cidadãos, o lugar tem moeda própria, não possui uma arquitetura bem definida ou qualquer indicação de em que parte do mundo possa se encontrar. É comandada por um misterioso "Número 1", que dá suas ordens por telefone para serem executadas pelo "Número 2", a única face visível de comando do local.
Infelizmente, não basta matar ou destruir o Número 2. Apesar de ser o mais alto cargo executivo na Vila, praticamente a cada episódio aparecia um novo Número 2. Todos eles, no entanto, tinham algo em comum: um plano para dobrar ou quebrar as defesas do Número 6 e finalmente descobrir porque ele se demitiu.
Com uma atmosfera paranóica kafkiana em um ambiente digno de Admirável Mundo Novo, onde tudo é controlado metodicamente, O Prisioneiro se transformou em uma série cult rapidamente. Reprisada poucas vezes nos EUA e aqui no Brasil (pelo Multishow), é um exemplo de série que quase ninguém conhece, mas muita gente deveria conhecer. Um primor de conceito com roteiros inteligentes e interpretações muitas vezes acima da média, merece mais uma coluna na semana que vem, onde falarei mais sobre os detalhes da série e suas influências no “mundo pop moderno”.
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