No mundo dos felinos bárbaros

Por Rafael Lima — Quarta, 7 de abril de 2004

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A esteira da euforia econômica provocada pelo Plano Cruzado, em 1986, teve reflexos muito positivos para o mercado de agaquê: foi o tempo da InterQuadrinhos, da Circo, da Níquel Náusea. Várias revistas arrebentaram nas vendas. Até mesmo o jornal O Globo, que sempre teve tradição em publicar histórias em quadrinhos (em seu suplemento infantil...), ousou abrir vagas para novas tiras em sua página diária. Assim apareceram as histórias do Leão Negro, de Cynthia Carvalho e Ofeliano de Almeida.

Ou melhor, apareceram antes: o universo do Leão Negro já existia nos blocos de desenho de Cynthia desde muito antes; a idéia de transpor aquelas histórias para tiras de quadrinhos, utilizando Othan – o Leão Negro do título – como fio condutor, por causa de sua forte presença visual, foi apenas uma opção sugerida pelo concurso, e aproveitada por Ofeliano, à época namorado de Cynthia. O editor do Segundo Caderno d’O Globo gostou e comprou a idéia, e assim a tira ocupou seu espaço ao lado dos outros vencedores: Fábrica Faglianostra (de Humberto e Marcelo) e Urbano, o Aposentado (de A. Silvério) – a única publicada até hoje.



As aventuras do Leão Negro transitavam pelo mesmo universo de bárbaros guerreiros, feiticeiros e fantasia que Conan, O Senhor dos Anéis ou Elric, com um porém: eram todas vividas por felinos (panteras, tigres, gatos e leões) de corpos antropomorfizados, como nos desenhos de Jano ou, melhor comparando, como os Thundercats. Não era difícil perceber que o gênero ação & fantasia estava em alta nos anos 80, haja vista os maiores sucessos em desenho animado em quadrinhos da época: He-Man e a revista Heavy Metal. Isto é, o Leão Negro apareceu na hora certa. Ele chegava a cavalgar um dragão alado, tal como o Arzach, de Moebius.

Os personagens principais tinham penteados típicos, entre o pós-punk e o new wave: a gatinha Shinuê vinha com um magnífico corte moicano; Othan tinha sua juba cortada no formato de um perfeito mullet; quaisquer quatro felinos coajuvantes poderiam ser facilmente tomados por integrantes da banda da Cindy Lauper.

Ofeliano, desenhista descoberto pela Editora Vecchi e desde sempre excelente capista, fugiu da padronização gráfica que uma história daquele tipo podia induzir e se valeu de um estilo autoral, cheio de referências européias no traço: hachuras de Manara, sombreado do cinema expressionista alemão, maneirismos visuais que lembravam Tintin, atingindo grandes momentos – claro que, para chegar lá, precisou perder o medo da produção diária (que forçou-o a simplificar o estilo, no começo) e ter a chance da continuidade, que lhe permitiria experimentar, fato raro na carreira de qualquer desenhista brasileiro.

O Leão Negro é um guerreiro mercenário e nômade, que no decorrer de suas viagens acaba se envolvendo com Tchí, gatinha que ocupa alto posto militar e com quem tem um filhote, Khasdan. Othan ainda encontra tempo para querelas com seu irmão mais velho, Isauh, que mora no decadente castelo da família com uma criada, Hera. Há inúmeros outros coadjuvantes que entram e saem da história; é bom lembrar que os roteiros foram adaptados do bloco de desenhos de Cynthia, onde não havia exatamente um personagem principal (se houvesse, seria Tchí), de sorte a fazer de Othan o protagonista dos roteiros.


O que faz do Leão Negro um quadrinho superior ao Conan, tomado aqui como paradigma do gênero espada & magia, é que, enquanto no último o que conta é o número de cabeças bem decepadas e moedas de ouro amealhadas, o molho do primeiro é a intrincada teia de relações que se tece entre os diversos personagens – e ainda rolam belas cenas de ação. Quando Othan descobre que tem um filhote, a crise de consciência e a mudança, ou melhor, sua incapacidade de mudar de comportamento são exemplarmente bem explorados no formato seqüencial das tiras; tão bem que aquela história recebeu muitas cartas elogiosas de leitores do jornal e acabou sendo colecionada em álbum pela editora portuguesa Meribérica.

Os melhores momentos da leitura nascem exatamente quando se atinge esse equilíbrio entre ação e diálogos, e quando se confundem as características felinas e humanas dos personagens, fazendo gatas e gatos se lamberem (ao invés de beijarem), trocarem patadas em momentos de fúria, rugirem de raiva ou de dor, aproximando os humanos dos felinos pelo lado temperamental, selvagem e sedutor de seus comportamentos. Você não sabe se o que está lendo são histórias de felinos ou de gente.

E agora os autores decidiram bancar uma edição em preto e branco com novas histórias, pensadas e produzidas para página de quadrinhos (e não coleções de tiras), com direito a site oficial e tudo. Uma das histórias curtas pode ser lida através da editora Nona Arte.




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