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Do que é feito um herói?
Por Alexandre Maron — Terça, 6 de abril de 2004
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A perguntinha ingrata do título não tem uma resposta fácil. O conceito de herói vai mudar muito de acordo com o tempo e o lugar e, se estivermos desavisados, podemos nem notar muito bem o porquê de um tipo se tornar mais ou menos popular em um dado momento.
Ou você acha que foi coincidência que, nos anos 80, um personagem unidimensional como o Justiceiro tenha chegado a ter três ou quatro revistas em quadrinhos? Hoje, ele luta contra o cancelamento e precisou da abordagem meio gaiata de Garth Ennis (Preacher) para voltar a funcionar. Seu filme, aliás, é um refugo dessa década maluca. Ver um trailer de Justiceiro (que estréia em breve nos Estados Unidos e aqui) me fez sentir que voltei 20 anos no tempo. Parece coisa feita para locadora, com atores de segunda e roteiro de terceira. Mas vai que essa produção me surpreende, sei lá...
Não foi coincidência que todo esse lixo tenha acontecido naquela época. Nos anos 80, os Estados Unidos viveram uma febre direitista, uma reafirmação de sua autoestima como superpotência (mais ou menos como hoje). Nos cinemas, foi o momento de heróis como Rambo e outras muitas porcarias belicistas e cheias de explosões. Eu estava lá e vi tudo. E tenho vergonha de dizer que gostei. É... As voltas que a vida dá.
Um novo tipo de herói moldou a década seguinte. O nome da figura era John McClane. Interpretado por Bruce Willis, o que se via era um personagem durão, porém de carne e osso. Ele era capaz de fazer piadas diante do perigo, enquanto sangrava e sofria com a dor dos ferimentos. Nos dez anos seguintes, foram feitas muitas cópias, e nem mesmo seus criadores conseguiram repetir a fórmula com tanta eficiência, nas duas continuações seguintes.
E não é interessante que a primeira década do novo século seja marcada pela ascensão dos super-heróis? As pessoas se vêem frente a problemas tão grandes que só conseguem imaginar soluções conseguidas com superpoderes. Ao mesmo tempo, elas querem algo mais em suas vidas tão comuns.
Todos querem ser especiais, poderosos, diferentes, VIPs. Surgem os reality shows, os videogames explodem transformando seres humanos normais em samurais, soldados, pilotos de provas e seres místicos. Tudo o que importa é fazer o impossível. Ser algo mais do que o que você realmente é.
No meio disso, alguém teve a idéia de trazer de volta o caidaço gibi Disque H para Herói, agora com o nome H-E-R-O. A idéia original é boboca ao extremo: uma pessoa aperta uns botões em um aparelho e ganha superpoderes. Mas os escritores deram a esse expediente o status de vício, droga, muleta para a realização de desejos egoístas e proibidos. O resultado foi genial e superou todas as expectativas, lembrando o que um jovem chamado Grant Morrison foi capaz de fazer com o Homem-Animal nos anos 80. Mas em H-E-R-O, a única coisa que nenhum dos personagens consegue fazer em nenhum dos 14 primeiros números da revista é um ato heróico. Elas só querem se divertir ou obter algum ganho pessoal. Algo como os prêmios do reality shows.
Está claro, não é? As pessoas participam de programas como Big Brother, Survivor, Fama e qualquer outro em busca do quê? Da fama, do status do ser especial que é cumprimentado nas ruas e ganha as melhores mesas nos restaurantes ou, ainda melhor, nem paga a conta.
Some dois e dois. Hoje, mais do que nunca, os heróis são os caras que cagam um monte para as regras. Alguns até ainda lutam pelo bem comum, mas uma grande parte deles forma um time de espertalhões. Estamos fascinados pelos fora da lei, pelos Gersons? É claro que ainda existem os heróis certinhos, como o Homem-Aranha, mas caras “erradinhos”, como o Vic Mackey do mais que ótimo The Shield, ou completamente independentes e que adoram matar vilões indefesos, como o agente Jack Bauer, de 24 Horas, estão virando a regra.
Digo isso apenas como análise do quadro. Não entro nessa armadilha moralista de pedir que tirem esses personagens das revistas, dos filmes e dos livros. Mas não dá pra ignorar que sua popularidade e sua existência sejam reflexos de uma tendência. É uma coisa que nem é ruim. Prefiro esses personagens ambíguos e cheios de defeitos àqueles bons moços chatíssimos que sempre seguiam um pensamento linear. Mas afinal é justamente porque eu e mais milhões de pessoas queremos isso, porque somos os influenciadores e o resultado desse zeitgeist, do espírito do momento, que esses personagens são como são. Produtos de consumo cultural são assim mesmo. Dão certo, rendem muito dinheiro, quando acertam em cheio no pensamento coletivo.
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