 |
Nós vimos: Elefante
Por Alfredo Stadtherr — Sexta, 2 de abril de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Um filme que incomoda muito a gente
A história do massacre na Columbine High School rendeu, até agora, dois filmes bastante peculiares. Primeiro, tivemos o espalhafatoso Tiros em Columbine, de Michael Moore: um documentário que não é documentário. Algum tempo depois, também fazendo alarde, surge Elefante, de Gus Van Sant: um filme que não é filme.
Tiros em Columbine, apesar de ser espetacular, usa e abusa da manipulação para levar o espectador ao ponto de vista do diretor. Está certo, ele tem razão no que se propõe a mostrar, mas está longe de ser um relato documental dos fatos. Elefante, por outro lado, é um filme de ficção. Entretanto, a maneira como Gus Van Sant conduz sua história é tão realista, palpável e envolvente que dá a impressão de se estar dentro de uma high school norte-americana de verdade.
O filme é uma imersão completa no universo que é apresentado. A câmera praticamente esbarra nos personagens, os segue por onde eles andam, faz um giro pelos recintos e existem poucos cortes. Enquanto isso, o som também faz a sua parte. É possível ouvir uma infinidade de sons, exatamente como acontece quando estamos andando pela rua ou pelo campus de um colégio de adolescentes.
Não há narrador, muito menos um protagonista. A câmera "entra" na escola de uma forma curiosa, atenta, espia o que é para ser espiado e vai embora. Entretanto, quando o filme acaba, estamos tão profundamente ligados à história que é preciso um tempo para voltar ao mundo real. Nada melhor que a belíssima Für Elise (a clássica musiquinha do caminhão de gás), de Beethoven, em conjunto com belas tomadas do céu, para ajudar na tarefa.
Um dos inúmeros méritos de Elefante é a isenção de julgamento. Fugindo completamente do padrão hollywoodiano de procurar uma versão própria e, geralmente, tendenciosa para mostrar o que acontece, a película apenas mostra diversos hábitos e imagens típicos da juventude norte-americana, deixando em aberto as razões que levaram ao horror que encerra a história.
Da nerd que não quer mostrar as pernas na aula de Educação Física, passando pelas patricinhas obcecadas com o próprio peso e chegando ao garoto que senta no fundo da sala e é bombardeado com bolinhas de papel cheias de saliva, Elefante é repleto dos estereótipos que preenchem qualquer colégio padrão dos EUA. Qualquer lugar "normal" pode produzir uma dupla de assassinos como a do filme, e isso é uma constatação aterrorizante que a película nos leva a fazer.
O massacre, aliás, é um soco no estômago. Sem usar e abusar da câmera lenta, e sem espirrar sangue na platéia, Gus Van Sant dá uma aula de direção, que faz merecer sua dupla premiação em Cannes e coloca Mel Gibson no chinelo. A frieza na hora de mostrar a matança só aumenta a angústia do espectador, chocando e impressionando. É uma sensação desconfortável, justamente pelo grau de realismo da seqüência.
Uma das sacadas mais legais de Elefante diz respeito a uma cena no corredor do colégio. Para apresentar os personagens que passam por ali naquele momento, o filme avança e retrocede ao ponto zero, até que tudo o que é preciso seja mostrado. Dessa forma, vemos a mesma cena três vezes, mas sempre de um modo diferente.
Não há como ficar impassível depois que a sessão termina. Os espectadores mais tradicionais provavelmente não vão gostar do estilo pouco convencional do filme. Entretanto, aqueles que se deixarem envolver pela película serão agraciados com uma das produções mais criativas e chocantes dos últimos tempos.
|
 |