Carl Barks na veia

Por Rafael Lima — Quinta, 1 de abril de 2004

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A editora Abril Jovem está mandando para as bancas o primeiro número de uma série de álbuns comemorativos dos 70 anos do Pato Donald. Grande notícia, tanto pela edição em si como pela longevidade do pato, que saiu dos desenhos animados para ganhar as páginas dos quadrinhos. Grande porque qualquer um sabe que as melhores histórias do Pato Donald (e do universo Disney) são sinônimo de Carl Barks.

Carl Barks é um dos grandes desconhecidos da história dos quadrinhos – passou a vida profissional assinando histórias para Walt Disney, entre as décadas 40 e 70, e foi “descoberto” por fãs apenas no final da carreira. Criou mais da metade dos personagens coadjuvantes que enriquecem o universo de Patópolis (ou Ducksburg, no original): Tio Patinhas e o milionário rival Patacôncio, o primo sortudo Gastão, o professor Pardal, seu ajudante Lampadinha, os sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho, além de ter estabelecido um padrão de qualidade para as futuras histórias.

As histórias de Barks podem ser divididas essencialmente em dois tipos: as de humor (mais curtas) e as de aventura (com mais páginas). Não que fosse impossível encontrar numa história de aventura sensacionais gags de humor, ou que não houvesse uma dose de adrenalina nas histórias de humor; mas você sabia que estava lendo uma história feita exclusivamente para ser engraçada quando a ação se passava em casa, talvez invadindo o jardim do vizinho – o irredutível Silva – ou, no máximo, dentro dos limites de Patópolis. As aventuras eram verdadeiramente dignas desse nome: viagens em busca de um grande tesouro (ou um mapa, ou uma pista que levasse a ele), uma relíquia ou um segredo arqueológico em alguma civilização distante, geralmente num país exótico, habitado por bárbaros, índios ou tribos primitivas. Tal é a força dessas histórias que levou às reações mais diversas: Lawrence Kasdan teria se inspirado nelas ao ambientar o herói Indiana Jones; Ariel Dorffman teria se baseado nelas para escrever o ensaio Para Ler o Pato Donald, uma violenta acusação de colonialismo cultural e alienação bolada a partir de uma leitura marxista da semiótica dos quadrinhos de Barks. Crianças, adolescentes e adultos ao redor do mundo não fariam a menor idéia disso.

O que unifica o estilo narrativo de ambas é o exagero. Carl Barks não mede parâmetros na arte de surpreender o leitor. Jornalista da Folha de São Paulo deveria ler essas histórias para entender como é que se faz um hype. Vejam só: na disputa para ver quem era o pato mais rico, um deles conta que era preciso pegar um foguete intergaláctico para chegar no último andar do seu prédio mais alto. O outro mostra um velhinho com barba imensa num trator e diz que ele tinha começado a percorrer a extensão de suas fazendas quando era criança. As distâncias são sempre inomináveis; não é raro Donald ter que pegar dois aviões, três barcos e um trem (sem contar o galope de um quadrúpede local, que pode ser uma lhama ou um burrico) para chegar ao recanto remoto onde o tesouro se encontra. Donald rasga um mapa e joga os pedacinhos no rio para que Gastão não o leia, mas o primo sortudo posta-se ocasionalmente numa ponte sobre o rio e um torvelinho nas águas reordena os pedaços, montando um quebra-cabeça.

Quando se está lendo uma história de aventura, esses absurdos até descem com facilidade, mas bobeou e ele usa exageros piores até numa história de humor: Donald cochila em um balão de gás, subindo até a estratosfera; é alvejado por um caça militar no retorno e acaba espalhando a pilha de folhas secas de seu jardim - as mesmas folhas que ele queria que seus sobrinhos catassem no começo da história... Precisava ir tão longe apenas para fazer essa graça? O universo é pouco diante da imaginação de Carl Barks.

Além de tudo, era um artista brilhante. Injetava uma ação extraordinária no movimento dos personagens; Donald parece estar voando ao subir uma escada ou fugir correndo. É dele a concepção do Donald irritadiço, agressivo e violento, que fazia frente ao Patolino – daí o encontro histórico dos dois, na cena do piano de Who Framed Roger Rabbit? (Uma Cilada Para Roger Rabbit).

Além de estabelecer proporções anatômicas para desenhistas de estúdio (Barks costumava dizer que era difícil fazer histórias com o Professor Pardal porque ele era mais alto do que os outros patos, e não cabia nos mesmos quadrinhos), aparência de vilões e figurantes, figurinos etc., era um excelente retratista de carros, trens, aviões, navios, maquinário, móveis, arquitetura, natureza (reproduziu ao nível do detalhe o ambiente natural de uma floresta tropical e da Cordilheira dos Andes apenas a partir de referências fotográficas), que adicionavam um realismo improvável a histórias de humor e, como se isso fosse pouco, era um mestre em expressões fisionômicas faciais – expressões faciais de patos, o que é um pouquinho mais difícil, convém não esquecer – e em silhuetas. Preste atenção em quantas vezes ele usa apenas o contorno dos personagens, preenchido de preto.

Este mês chega nas bancas o primeiro álbum da série. Na década de 90, a editora Gladstone publicou nos EUA uma enorme coleção com reedições para colecionador; agora é a Abril Jovem, desde sempre detentora dos direitos de publicação dos patos de Disney, quem traz Carl Barks com colorido novo, tradução nova, em formato grande e acessível. Precisa dizer que é imperdível?





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