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À prova de balas, mas não de clichês
Por Tiago Cordeiro — Terça, 30 de março de 2004
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Ao perceber que a sessão de O Monge à Prova de Balas seria próxima do insuportável, tentei imaginar o que era pior: o filme repleto de recursos para lá de usados em filmes do gênero ou o fato de ter chegado a imaginar que algo bom poderia sair dali.
Para começar, a arte marcial do arame-fu, consagrada na trilogia Matrix, demonstra todo o seu desgaste nesse filme. Não é à tôa que um dos motivos que levou o diretor Quentin Tarantino a fazer Kill Bill foi exatamente o excesso desse artifício nos filmes da atualidade. Chow Yun-Fat gira apoiado na ponta dos calcanhares, raspando no chão, faz acrobacias impossíveis e muito além do possível. Você vê e pensa "não é superagilidade, é Hollywood mesmo". Sinceramente, o recurso é usado de forma tão banal que eu me sentiria melhor vendo aqueles filmes B japoneses.
Quando vi o filme O 13º Guerreiro, presenciei uma das coisas mais forçadas da minha vida: o protagonista Ahmed Ibn (Antonio Banderas) aprende a falar a língua dos vikings após escutar, atentamente, sua conversa durante um dia. Pois bem, Kar (Seann William Scott) consegue chegar perto com sua forma de aprender artes marciais. Aliás, Scott, famoso por estrelar comédias teen, como American Pie, parece estar querendo dar uma nova vertente à sua carreira. Porém, fica difícil levá-lo a sério em qualquer cena. Especialmente porque o roteiro não distancia seu personagem daqueles que está acostumado a interpretar: Kar é apenas mais um americano malandrão e que banca o piadista. A diferença é que, aqui, ele é um pouco mais esperto do que Stiffler (de novo, American Pie) e sabe dar bons chutes.
Há ainda Jaime King como Jade. A atriz rende melhor do que seu colega e consegue deixar os clichês de lado. Além disso, King se sai melhor nas cenas de ação do que Scott. Chow Yun-Fat, que viveu seu auge em O Tigre e Dragão, desperdiça não apenas seu talento físico em cenas nitidamente fabricadas, mas também seu carisma. Tentando ser veículo de um roteiro fraco, o ator poderia ter se poupado e guardado suas virtudes para algo melhor.
O mais engraçado é que, assim como o excelente O Último Samurai, O Monge à Prova de Balas tem sua (suposta) grande estrela em um papel mais próximo do coadjuvante do que de protagonista. A grande diferença é que, ao contrário de Tom Cruise (que já não é lá essas coisas), Scott não consegue dividir a cena com Chow sem desaparecer. O final não chega a ser previsível, mas não está nem perto de salvar toda a trama.
Como já abordei anteriormente, a luta pelo silêncio é uma bandeira que todo cinéfilo deve levantar. No Rio de janeiro, sábado, no Shopping Iguatemi, às 16h30, a sessão foi marcada por adolescentes de 11 a 13 anos conversando e gritando como se estivessem na rua. E não se viu nem sombra de funcionários do cinema.
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