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Guerras secretas
Por Eudes Honorato — Sexta, 26 de março de 2004
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Na minha vida de leitor de HQ, tenho que destacar as duas editoras americanas mais famosas como fazendo parte da minha infância. Claro que li todo tipo de quadrinho infantil, incluindo tudo o que saía da Turma da Mônica e que, até hoje, é a HQ infantil que mais diverte, na minha opinião. Mas sempre estavam lá as “americanóides”, desde que eu era muito pequeno. Não vou entrar nos méritos de que fui criado com uma dieta de cultura americana, etc, etc, etc... Deixo isso para os “estudiosos”. Eu achava simplesmente divertido demais para querer, agora adulto, questionar se estou americanizado nos meus gostos para com histórias em quadrinhos.
Sempre houve uma guerra “silenciosa” no meu armário entre as duas editoras. Como já disse, elas davam espaço para outras HQs, mas reinavam absolutas, deixando as outras apenas como uma espécie de súditos (quase como na vida real mesmo).
Naquela época, a batalha, aqui no Brasil, dependia muito da editora que publicava. Moleque ainda, eu simplesmente detestava certas editoras que publicavam a Marvel ou a DC Comics. Por que a Editora Ebal publicava tanta coisa da DC comics com aquela letras que pareciam escritas numa máquina de escrever??? Por que a RGE (Rio Gráfica e Editora, atual Editora Globo) tinha um papel tão ruim? Por que a Editora Abril só publicava o chato do Capitão América e não o divertido Homem-Aranha, que ficava na que tinha um papel ruim, que era a RGE? Eram indagações que minha mente infantil não conseguia responder.
A “guerra” pela minha preferência teve muitas batalhas interessantes. De repente, a RGE não publicava mais os heróis da Marvel, que passaram a ser publicados pela Editora Abril, até o Homem-Aranha! Claro que, devido a ser apenas uma criança, eu não via os defeitos da Editora Abril, os cortes, os saltos na cronologia. Eu era uma criança, não sabia nem o que significava cronologia! Não freqüentava fóruns de HQ, nem lia sites sobre HQ. No máximo, eu trocava algumas revistas com quem sabia menos do que eu sobre essas conspirações editoriais.
Tá tudo bem, a Marvel estava em boas mãos. Estava em vantagem, pois a DC continuava toda na editora com as letras “datilografadas” (nessa época, eu também não devia saber o que queria dizer “fontes”). Eu lia Heróis da TV (que fazia questão de não ver na TV, pois eles não se mexiam direito), lia Capitão América (ele era chato, mas tinha outras histórias legais na revista dele) e lia Homem-Aranha. Comprei a primeira edição de Superaventuras Marvel assim que saiu nas bancas... Era o máximo!
Mas e o Super-Homem e companhia? Não demorou muito e eles foram para a Abril também, lá pelo meio da década de 80. Agora a guerra estava mais acirrada. As histórias da DC ainda estavam naquela fase pré-Crise, mas já surgia um dos grupos mais emocionates das HQs: Os Novos Titãs. A dupla Marv Wolfman e George Pérez era a contraparte de Chris Claremont e John Byrne, que arrebentavam com os Fabulosos X-Men e suas sagas de tirar o fôlego. O sucesso dos dois grupos era tanto que houve até um crossover (eu já sabia mais ou menos o que era crossover) entre as duas equipes.
Daí a artilharia pesada começou: a DC começava uma fase adulta (e eu ainda era um moleque adolescente cheio de espinhas) com Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, Watchmen. Houve um campo neutro, que eram as graphic novels, onde as duas se “enfrentavam” e sempre aparecia algum europeu metendo o bedelho na briga. A DC continuou a pegar pesado mesmo aí, lançando a graphic novel arrasa-quarteirão A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland.
Mas a Marvel também fazia bonito e, mesmo tendo lançamentos ótimos dentro da série de graphic novels, como A Morte do Capitão Marvel e outras, preferiu atacar do seu próprio campo, lançando a série Graphic Marvel, onde eu destaco as excelentes edições, Doutor Estranho/Doutor Destino: Triunfo & Tormento, de Roger Stern e Mike “Hellboy” Mignola e A Sensacional Mulher-Hulk, de John Byrne (hã, fã do cara, eu?!), entre outras.
A versão da DC para a série da Marvel “O que aconteceria se...?”, a série Elseworlds, acabou me agradando mais, gerando ótimas histórias, como por exemplo o já clássico O Reino do Amanhã, (sem falar que Cavaleiro das Trevas também é um elseworld), assim como outras edições especiais e minisséries. As melhores são a que enfocam o Batman vivendo outras realidades ou épocas. Claro que há elseworlds terríveis... muitos até.
Aconteceram até mesmo guerras civis para arrebanhar leitores. A Marvel teve Guerras Secretas e a DC, Crise nas Infinitas Terras, esta última explodindo tudo em seu caminho e ganhando a parada, pelo menos para mim. Essa foi a mãe de todas as... não, não vou usar esse chavão, aí já é demais! Depois de Crise, parece que tudo mudou. Eu acompanhava mais as revistas da DC e o fascínio que eu tinha até pelo Homem-Arannha acabou. A tentativa da Marvel de um Novo Universo (Força Psi? Arrrgh!) foi implodida sem muita demora. Mesmo o selo Epic, que não era ruim, não durou muito.
Já a DC estava a todo vapor com seu selo Vertigo, que começou a ser gerado lá nas incríveis histórias de Monstro do Pântano, de Alan Moore. Um novo batalhão surgia, com Sandman, Preacher, Hellblazer e, mais atualmente, Y – The Last Man, que ainda tenho uma leve esperança de ver lançado no Brasil (a um preço justo).
Mas a Marvel não estava fora da batalha. Mesmo eu não tendo lido, ela ainda lançou o Universo 2099, que fez um relativo sucesso, e, mesmo com Saga do Clone e o surgimento de uma nova editora (a Image), atualmente ela está na batalha para manter seus leitores. O Universo Ultimate, em que os personagens da editora estão sendo atualizados, tem agradado a muitos, principalmente a versão mais adulta dos Vingadores, que têm o sugestivo nome de Os Supremos. Isso sem falar no selo Marvel MAX, onde as histórias procuram ser mais “realistas”. Alguns personagens “maxeados” agradam em cheio, como a nova versão do Esquadão Supremo, que é o Poder Supremo (parece que “supremo” é a palavra mágica).
Só sei de uma coisa: essas guerras sempre acabam comigo tendo uma pilha de HQs em que estão lá as duas editoras... Talvez uma com uma pilha maior que a outra, mas isso é apenas um mero detalhe.
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