 |
Nós vimos IV: A Paixâo de Cristo
Por Douglas Donin — Quinta, 25 de março de 2004
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Analisar imparcialmente A Paixão de Cristo, pelos seus méritos cinematográficos, é uma tarefa complicadíssima. É como manter-se andando em uma corda bamba, onde, de um lado, há a tentação de esquecer a arte cinematográfica e tratar exclusivamente da polêmica desnecessária que o filme vem criando; do outro, a quase irresistível tendência de misturar convicções e crenças pessoais em uma análise que deveria ser isenta desses elementos.
Sabendo dessa dificuldade, nem tentarei ser imparcial, tentando transmitir minha experiência pessoal ao assistir essa obra, e tampouco fugirei da análise da polêmica. Acredito que vocês me perdoarão, ao final.
A Paixão de Cristo: A Polêmica
Comecemos, então, pela parte mais complexa do fenônemo A Paixão de Cristo: a polêmica gerada pelas acusações de ultraviolência e anti-semitismo.
Um dos piores clichês em análises cinematográficas é o batido “este é um filme sobre”. Aposto que por aí pipocam análises que, em um momento ou outro, disparam um “este é um filme sobre sofrimento”, “este é um filme sobre fé”, “este é um filme sobre amor”, entre outras. Pois eu lhes digo – agora correndo o risco de parecer um completo idiota – que A Paixão de Cristo é um filme sobre muitas coisas. Sofrimento, sacrifício, fé e humanidade, entre elas.
Comecemos pelo mais flagrante: o sofrimento. Mel Gibson é um católico radical, com uma visão bastante rígida sobre a história apresentada no Novo Testamento. Visivelmente, com o sofrimento de Jesus, Gibson quer nos dizer algo. É como se, a cada chicotada, soco ou chute que Jesus leva, ele estivesse no seu ouvido dizendo: “Vocês estão vendo? Estão vendo pelo que este homem está passando? Vocês gostariam de sofrer isso? Não? Pois se não estão vendo direito, abram os olhos que eu vou mostrar – mostrar exatamente o preço altíssimo que Jesus pagou por nós, sem se arrepender.”
E nisso Gibson é bem, digamos “enfático”. Jesus sofre muito – e quando digo “muito”, refiro-me tanto à quantidade quanto à intensidade do castigo a ele imposto. Não tenham nenhuma dúvida disso, e estejam avisados que provavelmente certas cenas não deixarão marcas apenas em Jesus, mas também na sua consciência.
Portanto, partindo dessa premissa, só poderíamos ter como resultado um filme ultraviolento. Tendo essa intenção – utilizar a violência não como um fim, mas como uma ferramenta –, Mel Gibson só poderia tornar sua mensagem efetiva e clara se apresentasse às platéias de hoje – acostumadas com a banalização da violência no cinema e na TV – cenas fortíssimas, impactantes e altamente realistas.
Ou seja: indiscutivelmente, o filme é ultraviolento e extremamente chocante. A questão, então, é: Mel Gibson teve sucesso na utilização dessa ferramenta? Conseguiu com ela passar a mensagem que desejava? As perguntas serão respondidas dentro de alguns parágrafos, na segunda parte desta análise, sobre os méritos cinematográficos da obra.
Agora, lancemo-nos à segunda (e pior) parte da polêmica: as acusações de anti-semitismo.
Voltando ao terrível clichê de resenhas cinematográficas, concluímos que A Paixão de Cristo também é um filme sobre a fraqueza humana, sobre essa tendência natural assassina, egoísta e irresponsável que temos de desejar o mal ao próximo. A massa popular é retratada como um bando de sanguinários sádicos, assim como os sacerdotes do templo – os verdadeiros assassinos – cruéis, mesquinhos e falsos.
E, se querem saber, Mel Gibson não conta nenhuma inverdade sobre a natureza humana. Sabemos que somos cruéis, egoístas, que vezes por outra temos a vontade sádica de simplesmente ver alguém sofrer – desde que não sejamos nós ou nossas famílias.
Ora, se somos assim hoje em dia – mesmo com todo o nosso mundo globalizado, educação e entidades de direitos humanos – o que não dizer de há dois mil anos, quando não existiam Big Brother, filmes violentos, lutas de vale-tudo ou qualquer outro mecanismo cultural onde pudéssemos sublimar nossa animalesca e primitiva vontade de simplesmente ver sangue? Ora, o povo – qualquer povo, seja ele judeu ou não – simplesmente vibrava com a mera possibilidade de assistir a uma execução, tortura ou castigo público, mesmo que não soubesse quem era a vítima ou o que ela fez de errado. Isso é uma verdade histórica.
E isso o diretor mostra muito bem: a massa popular é retratada como uma multidão irracional, levada à loucura pela simples promessa de ver uma pessoa sendo crucificada – que muitos nem sabiam bem quem era ou o que havia feito. A crítica não é aos judeus, mas sim, ao ser humano em geral e à maldade assassina que trazemos em nosso interior.
É necessário, aliás, comparecer ao cinema munido de muito ódio anterior contra os judeus para sair desse filme com idéias anti-semitas. Com certeza, se algum tipo de animosidade contra esse povo florescer na cabeça de alguém por causa do filme, com certeza não foi Mel Gibson que a plantou ali. Vale lembrar que, no filme, Jesus é auxiliado por vários judeus – um deles, inclusive, praticamente carrega Jesus e a cruz durante a maior parte do calvário.
A Paixão de Cristo: O Filme
Analisada a parte polêmica do filme, temos o caminho livre para julgar seus méritos e deméritos cinematográficos.
Bem, sejamos diretos: A Paixão de Cristo é um filme irregular. Possui, claro, vários méritos, mas também é marcado por idéias que não atingiram exatamente seus objetivos ou que foram simplesmente mal-executadas.
Aos méritos: O nível das atuações é excelente, tirando um ou outro personagem mais caricatural (como os torturadores romanos, cruéis demais). Os apóstolos, principalmente Pedro, e Pôncio Pilatos, estão muito bons.
Jim Caviezel é um bom Jesus: transpira bondade e majestade nos flashbacks, nos quais aparece falando ao povo e aos apóstolos, e consegue dar uma boa dimensão do sofrimento durante o calvário, principalmente pela expressão corporal, já que passa boa parte do tempo calado e com rosto e corpo cobertos de maquiagem.
O visual do filme também está excelente, com uma boa reconstituição. Romanos e judeus parecem extremamente convincentes, havendo muita fidelidade na escolha do tipo físico dos figurantes. Da mesma forma, objetos, vestuário e construções são ótimos, bastante naturais, diferentes das reconstituições artificiais de outros filmes com o mesmo tema. Mas é a decisão de utilizar as línguas originais da época, talvez, o maior acerto do filme. O longa é todo falado em aramaico e latim coloquial (este último, utilizado apenas entre os romanos), o que soa fascinante a ouvidos acostumados com línguas modernas. Se todo épico fosse assim...
Mas nem tudo são flores. Infelizmente, apesar de ter recebido o Oscar com Coração Valente, Mel Gibson ainda não atingiu o domínio na direção, e nesse filme isso fica evidente. Muitas saídas são excessivamente artificiais - como o excesso de passagens em slow motion.
Um segundo aspecto que incomoda bastante são os “sustos” desnecessários durante o filme. No começo, inclusive, há um totalmente fora de contexto, que só fará algum sentido muitas cenas depois – vocês saberão exatamente qual. A presença do demônio, na forma de uma mulher, é igualmente desnecessária e não acrescenta absolutamente nada à história. O final espetacular, com jeito de filme de ação, também incomoda bastante.
E aqui voltamos a tratar da violência, para responder à pergunta que deixamos anteriormente em aberto: a crueldade mostrada no filme atinge o propósito desejado por Gibson? Todo aquele sangue era realmente necessário?
Sim, infelizmente era necessário, dentro da proposta do diretor. No entanto, Gibson choca muito e muito depressa (a cena da flagelação pelos torturadores romanos é extremamente dolorosa de assistir, e levou muitas pessoas às lágrimas), e deixa o espectador, de certa forma, “anestesiado” para o restante do filme. O fato é que, rapidamente, Gibson praticamente transforma Jesus em uma massa disforme de cortes, cicatrizes, sangue e ferimentos e banaliza a situação toda. Parece, em certo momento, que Jesus já sofreu tanto que não se importa mais – assim como o espectador, em certo ponto.
No entanto, A Paixão de Cristo, apesar de seus problemas, é um filme extremamente emocionante e merece ser visto. Apenas tenha em mente que pode significar, dependendo da sua sensibilidade, tanto uma experiência religiosa profunda como um chocante exercício de resistência.
|
 |