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Equilibrium, puro desequilíbrio
Por Douglas Donin — Sábado, 4 de outubro de 2003
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Como os senhores leitores bem sabem, esta coluna dedica-se basicamente à cultura Trash: aquela que, embora não disponha de uma qualidade técnica de primeira linha (ou cujos realizadores não possuam lá muito talento) ainda proporciona boa diversão, mesmo que seja pelo humor involuntário. Geralmente, as obras Trash possuem pelo menos um dos pré-requisitos dos cineastas autênticos: foram feitas por puro amor à arte e/ou dispõe de boas e criativas idéias.
Infelizmente, é mais fácil encontrar um fã-clube do Sylvester Stallone no Iraque do que encontrar "amor à arte" e "boas e criativas idéias" em Hollywood. Filmes são feitos em linha de montagem, sem espírito ou amor algum, e se prestam na sua enorme maioria a muito pouca coisa – entre estas, virar merecidamente motivo de piada - como a atrocidade cinematográfica desta semana, que atende pelo nome de "Equilibrium" (Equilibrium, 2002).
Em uma primeira análise, "Equilibrium" não é um filme tão ruim assim. Trata-se apenas de um filme insosso, de baixo orçamento, tecnicamente equivocado, cheio de más idéias e com um enredo absurdo, até aí muito semelhante a qualquer outra bomba de artes marciais que a Rede Bandeirantes apresentaria nas noites de terça-feira. O que eleva "Equilibrium" à categoria de "Completa Porcaria" é a sua titânica pretensão.
Para os que não sabem, "Equilibrium" foi produzido utilizando a lendária e perigosa "Técnica Cinematográfica Roger Corman" - a qual consiste em, com a ajuda de publicitários altamente treinados, maquiar um projeto barato (ou esquecido em alguma gaveta) até deixá-lo à imagem e semelhança de um dos sucessos do momento. Assim, o realizador esperto pode, às custas de alguns pobres incautos e sem muito investimento, lucrar alguns trocados, mesmo que seja apenas o suficiente para pagar prestações pendentes do seu novo Nissan. Algumas empresas são especialistas neste tipo de golpe, como a Goodtimes, que dedica-se exclusivamente à clonar os filmes da Disney. Não é necessária muita imaginação para descobrir na carona de qual filme "Equilibrium" tenta entrar: no cartaz nacional do filme, dois homens, um negro e um branco, vestidos com sobretudos pretos, seguram pistolas em um ambiente futurista. A chamada "Esqueça Matrix" completa o quadro.
E é aí que reside a absurda pretensão de "Equilibrium": ao invés de fazer como todos os outros filmes-clone que infestam as locadoras e negar até o final de seus dias que é uma mera cópia de má qualidade, Kurt Wimmer tenta fazer de sua ficção de pancadaria um filme sério - coisa que ele passa longe de ser.
Vamos a um resumo da história: Em um futuro próximo, a humanidade teve a genial idéia de suprimir seus sentimentos, permanecendo o tempo inteiro dopada com uma potente droga. Christian Bale (menos carismático que um croquete de rodoviária) interpreta uma espécie de sacerdote/policial/fiscal - um papel feito sob medida para Steven Seagall - cuja missão é garantir que ninguém cultive a arte, o amor ou qualquer outra coisa que possa levá-las a sentir qualquer emoção. Misteriosamente, emoção é o que o espectador não sente em momento algum deste filme: se isto for intencional, o diretor/escritor Kurt Wimmer é um gênio. Não é preciso de habilidades sherlockianas para descobrir que, em determinado ponto da história, Neo, digo, o tal sacerdote interpretado por Bale, deixa de tomar as tais drogas, acorda para a realidade, e resolve acabar com o sistema opressor na base da pancadaria.
Fosse só isto, como disse, o filme seria simplesmente medíocre. Mas a partir daí o caldo engrossa: em uma ânsia de criar cenas de ação originais, Wimmer – que ou escreveu o filme ou assinou o roteiro porque seu filho de sete anos não estava inscrito no sindicato - teve algo muito próximo da idéia mais imbecil de todos os tempos: o Gun Kata, uma espécie de arte marcial com armas de fogo (?). Basicamente,
treinando movimentos formais, os praticantes desta arte podem posicionar-se previamente de forma a vencer combates armados contra múltiplos oponentes, mesmo vendados ou no escuro.
Uma idéia de jerico? Com certeza, pelo menos para a maioria sã da humanidade. Espantosamente esta blasfêmia intelectual rendeu frutos, como os rapazes do www.gunkatta.com, que certamente bateram com a cabeça em alguma quina de mesa e agora pretendem até iniciar a prática séria de tal arte.
O resultado não poderia ser outro: as cenas que envolvem o tal Gun Kata são tão constrangedoras quando qualquer seriado japonês de super-heróis – e o estilo lembra muito os gestos do Doutor Gore, vilão do saudoso Spectreman. E, quando achamos que o filme vai ter pelo menos uma luta decente – o confronto final, com espadas – ela não dura nem dois segundos. É perceptível que Wimmer tentou, premeditadamente, criar sua pequena revolução estética, como fez John Woo ou os Irmãos Wachovski, mas aqui, esta "revolução" tem um sabor muito artificial para sair do papel.
Embora as cenas de ação sejam o destaque negativo, o que dá mais pena no filme – bem mais do que a obrigatória cena "veja como somos maus", onde os pobres cãozinhos inocentes são executados - é ver Sean Bean (O Boromir de "O Senhor dos Anéis", com o aluguel muito atrasado) fazendo uma desonrosa participação relâmpago e morrendo logo nos minutos iniciais. Ver um ator do nível de Bean como coadjuvante de uma produção tão medíocre, deslocado como um turista alemão em baile de carnaval, chega a doer no coração.
E talvez seja melhor não tocar nas incoerências do filme. O vilão, para alguém que prega a ausência de emoções, mantém-se vingativo, raivoso e risonho o tempo todo. E é reconfortante saber que, em uma sociedade onde reina a paz absoluta, as pessoas praticam artes marciais com armas de fogo!
"Equilibrium", concluindo, é um gigantesco desperdício de dinheiro. É um filme insípido, inodoro e incolor, emocionante como uma ida ao dentista e intelectualmente desafiador como o Zorra Total. Com certeza, o diretor/roteirista Kurt Wimmer faria um bem muito maior à humanidade se doasse o dinheiro da produção ao Criança Esperança. E nem como filme de pancadaria serve: qualquer jogo do Campeonato Argentino possui lutas de melhor qualidade.
No entanto, não é um desperdício de tempo: se estiver disposto a incendiar alguns reais em um filme para criticar com os amigos, enquanto dão risadas e derrubam pipoca no tapete, talvez valha a pena. Mas esteja avisado: se quiser assistir a algo sério, fuja para bem longe e alugue algo inteligente como "Gattaca, a Experiência Genética" – a menos que você seja um daqueles fãs hardcore dos filmes do Chuck Norris.
Veja o trailer aqui
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