Deixa a grana me levar...

Por Luiz Eduardo Ricon — Sexta, 19 de março de 2004

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Não sou nenhum grande fã de Zeca Pagodinho.

Em matéria de samba eu tenho muito mais simpatia pelo (hoje combalido) Dicró (do clássico Praia de Ramos) ou pelo Bezerra da Silva das antigas, antes dele virar uma espécie de porta-voz oficial da malandragem e da contravenção.

Mas muito me estranha essa celeuma toda em torno da troca de patrocinador protagonizada pelo pagodeiro nas últimas semanas, e que ganhou um destaque exagerado nas manchetes - igualado apenas pelo mico da Luma de Oliveira com aquele bombeiro galã.

Na semana passada, quase todos os jornais acusaram o Zeca de traição, taxando de malandragem, desonestidade e outros adjetivos do gênero o simples fato do cara ter optado comercialmente por uma proposta de patrocínio melhor.

Gente, vamos deixar uma coisa clara: o Zeca Pagodinho assinou um contrato comercial com a Nova Schin, mas não vendeu sua alma para a empresa. Vendeu apenas a imagem. Ou melhor: alugou, em troca de um bom dinheiro.

Por sinal, a Nova Schin também lucrou bastante com a imagem do artista, que atravessa um momento muito especial em sua carreira, sendo uma quase unanimidade nacional. Patrocinar o Zeca Pagodinho não foi um ato de caridade da Nova Schin, ou uma decisão filantrópica de apoiar a cultura nacional. Foi, isso sim, uma ação comercial, de marketing puro. Business, baby!

O Zeca estava em evidência (assim como o Thiago Lacerda e a Fernanda Lima, que estavam no mesmo comercial e não me parecem ter cara de grandes bebedores de cerveja...) e a Nova Schin foi lá e pagou pelo uso da imagem dele, o que certamente atraiu atenção (d)e muitos consumidores para a marca.

Só que agora o Zeca recebeu uma proposta melhor e optou por romper o contrato com seu patrocinador. Não tem nada de errado ou escandaloso nisso. É para isso que existe uma coisa chamada multa de recisão. Uma das partes pode, a qualquer momento, optar pela recisão de qualquer contrato, desde que pague à outra parte pelos danos que daí advenham. Isso se aplica dos aluguéis de imóveis até os contratos milionários das estrelas de Hollywood. Não tem nada demais nisso, pombas.

Agora, se é pelo fato de tudo ter sido feito em segredo, eu até concordo que não foi a escolha mais agradável, mas me parece bem claro que a “surpresa” era uma parte fundamental da estratégia de marketing da Brahma. Sem a surpresa da troca, talvez não valesse à pena o investimento de tirar o Zeca Pagodinho da Nova Schin.

Aqui no Brasil, o mundo da propaganda é cheio de não-me-toques, criando alguns melindres tolos que impedem práticas comerciais até bastante comuns em outros mercados, onde a concorrência é pra valer. Um exemplo disso são os comercias com comparações de produtos, quando um produto inclui o concorrente em sua comunicação, explicitando uma diferença entre eles, ou tirando um sarro do adversário. Tirando as baixarias, alguns comerciais desse gênero são verdadeiros clássicos da propaganda. Mas aqui no Brasil, bastou colocar o produto do concorrente na tela para sua propaganda sair do ar.

Sinceramente, ao contrário de muitos jornalistas escandalizados com essa “virada de casaca” do Zeca Pagodinho , eu não vejo como essa atitude pode realisticamente ameaçar a confiança do mercado publicitário e das empresas nos artistas que patrocinam. Aí eu já acho que a imprensa está fazendo tempestade em copo de chopp, tratando o Eduardo Fscher como marido traído e não como um empresário que tomou “uma volta” de um concorrente.

Lealdade, amizade, fidelidade... esses sentimentos se apicam na esfera pessoal. No mundo do comérico e dos negócios tem que se ter ética, claro, mas não me parece justo cobrar de um lado o que não se consegue exigir do outro.

Ou será que a Nova Schin teria escolhido o Zeca Pagodinho como garoto-propaganda se o cara andasse por baixo, sem vender muitos discos, sem fazer muitos shows e vivendo à margem do sucesso? Claro que não.

Então essa história de lealdade e fidelidade é meio relativa.

No fim das contas, o que move a publicidade é sempre a grana. Seja de um lado ou do outro da mesa de negociações.




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