Mel Gibson na Cruz
Polêmica é palavra de ordem para se fazer sucesso estrondoso em Hollywood. Se não fosse por isso, Oliver Stone e Michael Moore seriam diretores falidos, e Madonna provavelmente seria jurada de auditório do
American Idol. Mel Gibson, que não é bobo nem nada, optou pelo assunto mais controverso que poderia ser abordado num filme: a paixão de Cristo.
O filme narra os últimos momentos da vida de Jesus Cristo na Terra.
A Paixão de Cristo começa no Jardim das Oliveiras, onde Jesus vai rezar após a Última Ceia. Em seguida, ele acaba sendo traído por Judas, perseguido, preso, flagelado e crucificado.
O roteiro foi adaptado pelo próprio Mel Gibson, em colaboração com Benedict Fitzgerald, baseado nos quatro evangelhos bíblicos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Como apenas os últimos episódios da vida de Cristo são narrados, os espectadores não-católicos certamente ficarão perdidos e os mais eufóricos acharão que o filme é anti-semita. Tudo isso, em função da falta de contexto histórico do filme.
Aliás, na roda viva da História, a inversão de papéis entre assassinos e vítimas gira conforme interesses políticos em momentos de crise. Judeus, romanos e americanos, por exemplo, já transitaram pelos dois lados. O grande culpado das atrocidades cometidas na humanidade é a cobiça do homem, que mata o que estiver em seu caminho para garantir domínio. Jesus é apenas uma das vítimas mais lembradas por esse tipo de episódio.
Essa não é a primeira nem a última vez que se falará no “cara lá de cima”. Já foram feitos inúmeros filmes, responsáveis por colocar o nome dEle em vão, como
O Manto Sagrado, estrelado por Richard Burton,
O Evangelho Segundo São Mateus, do diretor italiano Pasolini, e
A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese.
Mais recentemente, o filme
Maria, Mãe do Filho de Deus, de Moacyr Góes e protagonizado pelo padre Marcelo Rossi, foi um fenômeno de público. Ao longo de suas 12 semanas de exibição, foi um dos filmes mais vistos de 2003, com 2,2 milhões de espectadores.
Uma das virtudes do projeto do diretor/produtor Mel Gibson é
o realismo e a valorização de detalhes minuciosos envolvendo a trajetória de Jesus. Os idiomas da época foram ressuscitados. O filme é falado em aramaico, latim coloquial e hebraico.
Além disso, todos os sacrifícios e hemorragias sofridas por Jesus de Nazaré foram retratados em todos os seus pormenores. A ênfase à violência explícita não dignifica a pena de Jesus, mas faz com que o espectador se acostume com a estética de sofrimento. Aliás, o sinônimo de paixão mencionada no título do filme é sofrimento.
Fazendo jus à proposta do “Mad Gibson Max”, o protagonista
James Caviezel teve de comer o pão que o diabo amassou para reviver esses momento cruciais. Ele apanhou horrores, teve hipotermia, deslocou o ombro e sofreu cicatrizes reais com o ritmo de filmagens.
Para dar mais ênfase e poesia ao clima angustiante do filme, Gibson pediu ao fotógrafo Caleb Deschanel que concebesse um visual inspirado nos quadros do pintor barroco
Caravaggio, cujas imagens são famosas por possuírem um brilho quase real a partir dos contrastes entre luz e sombra. Inclusive, quarenta por cento do filme foi rodado à noite para se conseguir esse efeito de luz.
Logicamente,
A Paixão de Cristo vai dar muito o que falar, ainda mais no Brasil, que é o país católico com mais adeptos no mundo. Resta aguardar essa pauta virar manchete e ser discutida em programas de TV das donas-de-casa com padres falantes.
Os místicos de plantão provavelmente ficarão intrigados com as declarações do protagonista James Caviezel. Ele possui as mesmas iniciais de seu personagem, alegou em entrevistas que recebeu um raio divino durante as filmagens e aceitou fazer o papel de Cristo aos 33 anos.
Marketing ou não, são boas coincidências.